sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Síria: Presidente Vladimir Putin (entrevista)

Respostas a perguntas de jornalistas do canal TF1 TV, francês
11/10/2016, em Kovrov, Vladimir, Rússia (transcrito e trad. ru-ing.)

Tradução para o português do Coletivo de Tradutores da Vila Vudu.


Presidente da Rússia Vladimir Putin: 
Como é que chegaram aqui? Nessa cidadezinha provinciana... Atualmente, encontram-se franceses onde quer que se esteja, em todas as cidades da Rússia. É muito bom. Muito nos agrada vê-los por aqui. 

Pergunta (retraduzida): Sr. Presidente, pode explicar-nos por que o senhor não irá a Paris? 

Vladimir Putin: Muito simples. Havíamos planejado participar de uma cerimônia oficial de inauguração do recém construído centro religioso-cultural russo em Paris. Mas, pelo modo como estão as coisas, esse não é o melhor momento para reuniões oficiais, dada a falta de entendimento mútuo, para dizer o mínimo, no que tange aos eventos na Síria, particularmente a situação em Aleppo. Mas estamos abertos, claro, a qualquer consulta e diálogo sobre esse assunto. 


Pergunta: Pois os franceses esperavam exatamente... poder usar aquela oportunidade, para discutir a situação na Síria, mas, por causa da mesma situação, o senhor está desistindo da visita.

Vladimir Putin: Sabe, não é que estejamos desistindo da visita, apenas que nos disseram que a principal motivação da visita, como já disse, a inauguração do centro religioso-cultural, não é boa ideia, no atual momento. Mas se a principal razão de minha visita a Paris não é adequada, provavelmente encontraremos outra oportunidade para nos reunir e discutir a Síria. Não demarcamos nenhuma limitação ao assunto e, sim, estamos abertos ao diálogo.

Apenas que nos fizeram ver que o momento atual não é a situação mais conveniente para as reuniões que foram planejadas. Só isso. Não desistimos de visitar a França. 

Pergunta: Muitos representantes ocidentais, incluindo [secretário de Estado dos EUA John] Kerry, [ministro de Relações Exteriores da França Jean-Marc] Ayrault e até [presidente da França] François Hollande usaram retórica dura contra a Rússia, por causa dos ataques aéreos contra Aleppo, que atingiram alvos civis e até hospitais. Alguns usaram a expressão "crimes de guerra". Qual sua resposta? 

Vladimir Putin: Para mim, é só retórica política sem grande significado, e que não considera a verdadeira situação na Síria. Permita-me explicar melhor. Creio profundamente que parte da responsabilidade pelo que está acontecendo na região em geral e na Síria em particular cabe sobretudo aos nossos parceiros ocidentais, principalmente aos EUA e seus aliados, inclusive os principais países europeus. 

Você lembra como todos correram a apoiar a 'Primavera Árabe'? Onde está todo aquele otimismo? Como terminou toda aquela boa vontade? Lembram-se do que foram Líbia e Iraque, antes de esses países e suas instituições serem destruídas, como estados, por forças dos nossos parceiros ocidentais?

Certamente, aí não se tem exemplos de democracias, como hoje se compreende a palavra, e provavelmente lá era preciso e era possível influenciar a organização daquelas sociedades, a organização do estado, a própria natureza dos regimes que lá havia. Mas seja como for, em todos os casos que se considerem, não havia naqueles estados quaisquer sinais de terrorismo. Aqueles estados não eram ameaça a Paris, à Côte d’Azur, não ameaçavam a Bélgica, nem a Rússia, nem os EUA. 
Hoje, esses mesmos estados são fonte de ameaças terroristas. Nosso objetivo é impedir que aconteça exatamente a mesma coisa, agora na Síria. 

Sei da questão que vocês têm com os refugiados. Parece que queria perguntar sobre eles? Se não, permita-me tocar nesse assunto, mesmo assim. Recordemos que o problema dos refugiados começou muito antes de a Rússia começar a trabalhar para normalizar e estabilizar a situação na Síria. A saída em massa de pessoas, que deixam amplas áreas do Oriente Médio e da África e do Afeganistão começou muito antes de nós iniciarmos nossa operação ativa na Síria. 

Não há justificativa para que a Rússia seja acusada de responsabilidade no problema dos refugiados. Nosso objetivo sempre foi, ao contrário, criar condições para que as pessoas pudessem voltar à própria terra e à própria casa. 

Quanto à situação humanitária em Aleppo, teremos todos esquecido como as forças dos EUA atacaram, ataque aéreo, no Afeganistão, que atingiu um hospital e matou médicos e pessoal de socorro dos Médicos sem Fronteiras, dentre outros? No Afeganistão foram mortas mais de 100 pessoas só numa festa de casamento que foi atacada. E veja o que acaba de acontecer no Iêmen, onde um único ataque matou 170 pessoas e feriu 500, que participavam das cerimônias de um funeral. 

A triste realidade é que, onde aconteçam operações militares, muitos inocentes sofrem e morrem. Mas não podemos permitir que terroristas escondam-se entre civis, usados como escudo humano. Não podemos permitir que chantageiem todo o mundo, quando tomam reféns, matam, degolam pessoas. 

Se queremos vencer a luta contra o terrorismo, temos de combater contra os terroristas, em vez de deixar que assumam o comando, em vez de ceder e recuar.

Pergunta: Sr. presidente, o problema é que os franceses não compreendem por que o senhor está bombardeando essas pessoas que o senhor chama de terroristas. Afinal, foi o ISIS que nos atacou, mas não há forças do ISIS em Aleppo. Aí está o que os franceses não compreendem. 

Vladimir Putin: Posso explicar. Há outro grupo terrorista, a Frente al-Nusra, que controla a situação em Aleppo. Esse grupo sempre foi considerado uma ala da Al Qaeda e está listado como organização terrorista pela ONU. 

O que nos parece particularmente deprimente e difícil de compreender é que nossos parceiros, especialmente os norte-americanos, estão sempre achando meios para tentar excluir esse grupo da lista de organizações terroristas. Vou dizer-lhe por quê. Parece-nos que nossos parceiros repetem sempre e sempre o mesmo erro. Querem usar o potencial de combate de organizações terroristas e de grupos radicais para perseguir os seus próprios objetivos políticos; nesse caso, o que querem é combater contra o presidente Assad e seu governo. Querem usar os terroristas e radicais; não querem simplesmente conter os rebeldes e impor-lhes regras e leis civilizadas.

Conseguimos chegar a repetidos acordos com os norte-americanos, pelos qual eles teriam de separar as forças da Frente al-Nusra e seus terroristas, de um lado; e, de outro lado, as chamadas forças 'saudáveis' da oposição, inclusive em Aleppo. Concordaram que seria necessário proceder desse modo. Ainda mais, acertamos que haveria prazos concretos. Mas eles nada fizeram do que se comprometeram a fazer, um mês depois do outro. 

Recentemente, alcançamos um acordo de cessar-fogo, um acordo de Dia D, como dizem nossos amigos norte-americanos. Eu insisti em que, antes de tudo, eles resolvessem a questão de separa a Frente al-Nusra e os outros terroristas, das forças saudáveis da oposição, para, só depois disso, afinal, declarar o cessar-fogo.

Mas os norte-americanos insistiram que nós primeiros teríamos de declarar o cessar-fogo, e depois eles cuidariam de separar terroristas e não terroristas. Finalmente, decidimos conceder algumas coisas, aceitamos os termos deles, e dia 12 de setembro declaramos um dia de silêncio e a cessação de hostilidades... E dia 16 de setembro aviões norte-americanos atacaram forças do exército sírio e mataram 80 pessoas. 
Ao mesmo tempo, imediatamente depois desse ataque aéreo, oISIS lançou uma ofensiva nesse mesmo local. Nossos colegas norte-americanos nos disseram que aquele ataque teria acontecido por erro deles. O erro custou a vida de 80 pessoas e, também por simples coincidência, os terroristas do ISIS iniciaram a ofensiva imediatamente depois daquele ataque aéreo.

Mas, nos escalões inferiores, no nível de operação, um agente do serviço militar dos EUA disse, com toda a franqueza, que passaram vários dias preparando esse ataque. Como o ataque teria sido "um erro", se foi preparado durante vários dias? 

E foi assim que nosso acordo de cessar fogo acabou rompido. Quem quebrou o acordo? Fomos os russos? Não.

Pergunta: A possibilidade de uma nova guerra fria está sendo discutida, mas há pelo menos um norte-americano que gosta muito do senhor – Donald Trump. O que o senhor pensa desse candidato? Gosta dele?

Vladimir Putin: Nós gostamos de todos. Os EUA são um grande país, os norte-americanos são povo interessante, amável, talentoso. São grande nação e grande povo.

Os russos trabalharemos com qualquer dos candidatos que os norte-americanos elegerem. Claro, é mais fácil trabalhar com quem se interesse por trabalhar com você. Se Mr. Trump diz que quer trabalhar com a Rússia, parece-nos interessante. Mas o mais importante é a honestidade, dos dois lados.

Agora, por exemplo, todos falam do acesso humanitário em Aleppo. Todos falam para nos convencer, como se não quiséssemos o acesso humanitário. Mas ninguém precisa nos convencer, porque nós também entendemos que é necessário que um comboio humanitário chegue até lá. A questão é como se deve fazer isso. Só há uma estrada que os caminhões podem pegar, com militantes num dos lados da estrada e o exército sírio do outro lado. Sabemos da provocação, do ataque a um dos comboios, e temos certeza absoluta que esse ataque foi ação de um grupo terrorista.

Já sugerimos que os militantes e o exército sírio, ambos, afastem-se da estrada, e garantam passagem segura para os comboios humanitários.

Todos concordam, e a ideia até já foi posta no papel, e depois nada acontece; nenhum dos nossos parceiros faz coisa alguma do que diz que faria. Ou não querem ou não conseguem mais controlar os terroristas, não sei qual das duas possibilidades é real.

Apareceu lá uma proposta exótica – e tenho certeza que surpreenderá você e o público francês. Propuseram que nossas unidades armadas, pessoal militar russo, fossem dispostas ao longo da estrada, para garantir trânsito seguro. Os militares russos, gente de coragem, que não teme tomar decisões, disseram que sim, que faríamos isso.

Mas eu disse a eles que só faríamos esse serviço se formássemos uma força conjunta com os EUA. Dei ordem para que encaminhassem a proposta aos norte-americanos. Foi nós propormos, e os americanos recusarem imediatamente. Não querem soldados deles lá, mas tampouco querem tirar de lá os grupos terroristas, que não são "oposição", são terroristas. O que fazer, nessa situação?

Temos de aumentar a confiança mútua e admitir que essas são ameaças contra todos, e que só unidos poderemos conter e erradicar aqueles terroristas.

Os russos temos excelentes laços com os serviços franceses de inteligência. Franceses e russos realmente trabalham no mesmo comprimento de onda. É verdade para nossos especialistas em contraterrorismo e seus contrapartes na França e em vários outros países europeus. Mas nem sempre é assim. 

Por exemplo, enviamos informação a nossos parceiros norte-americanos e, na maior parte das vezes, nem respondem. Há algum tempo, enviamos informações sobre os irmãos Tsarnaev. Enviamos o primeiro documento, não responderam; enviamos um segundo documento, e responderam que não nos metêssemos; que os Tsarnaev são agora cidadãos norte-americanos e eles mesmos cuidariam de tudo. 

O resultado? Um ataque terrorista nos EUA. Será que ainda não está perfeitamente claro que sempre se tem prejuízo, quando se rejeita cooperação nessa área tão sensível?

Nesse momento, devíamos nos preocupar não com retórica política, mas com buscar soluções para a situação, inclusive para a Síria. Que soluções existem? Só há uma, uma única solução: convencer todas as partes envolvidas no conflito a adotar a vida do acordo político. 

Já tenho um acordo político com o presidente Assad, e ele aceita tomar a via de adotar nova Constituição e realizar eleições nos termos que a nova Constituição determinar. Mas não conseguimos convencer nenhum outro dos envolvidos, a adotarem essa via. 


Se o povo não votar no presidente Assad e ele não for eleito, terá havido mudança democrática no poder na Síria. Mas sem qualquer participação de intervenção armada vinda e comandada de fora da Síria; e sob estrita supervisão da ONU. Não compreendo quem poderia considerar inaceitável essa proposta. É solução democrática para a questão do poder naquele país. Mas continuamos otimistas e esperançosos de que acabaremos por persuadir nossos colegas e parceiros, de que essa é a única solução possível para o problema.

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