Encolhida
feroz para Wall Street:
Muitas nuvens nos céus da reunião do G-20
Muitas nuvens nos céus da reunião do G-20
29/2/2016, Mike Whitney, Counterpunch
Tradução pelo Coletivo de tradutores da Vila Vudu
Ministros das Finanças e diretores dos bancos centrais das maiores economias do mundo reuniram-se em Xangai, China, durante o fim-de-semana, para discutir muitos dos problemas pelos quais eles mesmos são os únicos responsáveis.
No primeiro lugar da lista de problemas aparece a inabalável desaceleração do crescimento global a qual, em vasta medida, é resultado das políticas monetárias experimentais que bancos centrais implementaram a partir da recessão em 2009. Surpreendentemente, o grupo admitiu que as estratégias "de alívio" que inventaram [orig. "easing strategies"] não produziram a recuperação duradoura que tanto buscavam, mas, ao mesmo tempo, ninguém fez qualquer esforço para corrigir os próprios erros, nem ninguém cogitou de introduzir as mudanças necessárias para conter a queda do produto global. Adiante, breve recapitulação de Bloomberg:
"Chefes das finanças das maiores economias do mundo prometeram que os respectivos governos farão mais para estimular o crescimento global, entre crescentes preocupações em torno da potência da política monetária.
Em promessa muito mais fácil de prometer que de cumprir e que pode vir a desapontar investidores à procura de algum plano coordenado de estímulos, o G-20 disse que "usaremos política fiscal flexível para fortalecer o crescimento, a criação de empregos e a confiança". Depois de reunião de dois dias em Xangai, ministros de Finanças e presidentes de bancos centrais também repetiram o que já se ouvira na reunião anterior, que "a política monetária, só ela, não pode levar a crescimento equilibrado."
"Investidores queimados no torvelinho dos mercados globais procuram por sinais de que os mais altos funcionários das finanças do mundo estão dispostos a tomar medidas para inflar o crescimento e acalmar os movimentos de moedas (...). Steven Englander, do Citigroup, disse que qualquer desconfiança de que os políticos não falarão, na declaração final, de apoio mais explícito a estímulos fiscais será visto com desagrado pelos investidores. Para Andrew Brenner, diretor de renda fixa na corretora National Alliance Capital Markets em New York, compromisso firmado com a expansão fiscal e clareza sobre a política monetária chinesa farão subir os fundos, semana que vem; e as ações despencarão, se nada se decidir quanto a essas questões (...).
"Manter os mesmos termos de antes será grave desapontamento, e será visto ou como complacência ou como sinal de paralisia política" – disse Englander, diretor de estratégia monetária para grandes economias desenvolvidas do Citigroup, em relatório de 25/2/2016. Conclamou o G-20 a "criar coragem para dizer aos países membros que a política monetária tem de ser acompanhada por expansão fiscal ("G-20 needs to ‘man up’ to avert more market turmoil, says Citigroup’s Englander", Financial Review)
Já viram o que vem por aí? Todos já aceitam o fato de que a política monetária perdeu a eficácia. Então, agora, Wall Street quer facilidades fiscais. E pouco se importam com como as obtenham. Observem o cuidado de Mr. Englander com as palavras – e a clara ameaça: "Manter os mesmos termos de antes será grave desapontamento, e será visto ou como complacência ou como sinal de paralisia política." Em outras palavras: se os governos não facilitarem a vida para Wall Street, o big money vai bater-pezinho e dará outro monumental chilique.
A Agência Reuters vem também com a mesma história. Confiram:
"Os investidores podem voltar a posições prévias nos fundos, porque o G-20 não está conseguindo conduzir as economias na direção de novas medidas concretas para estimular a economia, disseram os analistas (...)
"O fato de que o G-20 só fará mais do mesmo será acolhido com bocejo monstro e provável queda no mercado de ações," disse Richard Edwards, diretor-gerente de comércio e pesquisa da firma HED Capital. Outros deram sinais semelhantes de desânimo.
"Alguns ficarão desapontados se não houver medidas concretas" – disse François Savary, chefe de investimentos na firma Prime Partners de investimentos e consultoria com sede em Genebra." (Reuters)
"Alguns ficarão desapontados", diz Savary?? Ora bolas, que se
buuuuuu-f***m os desapontados!" Quero dizer, até quando continuaremos na
doideira de conceber políticas que atendam exclusivamente às necessidades dos
sanguessugas vampiros de Wall Street?
Para bancos centrais e chefes de finanças, crescimento e mais empregos não valem, sequer, um peido. Não querem nem saber do estado geral da economia. Toda essa conversa é papo furado. É piada. A única coisa que lhes interessa são os lucros e os preços das ações. E só. O resto é só encher linguiça sobre "fazer mais para estimular o crescimento" ou "usar políticas fiscais para aprofundar a criação de empregos e aumentar a confiança. É de vomitar. Aqui, um pequeno excerto do comunicado do G-20:
"A recuperação global prossegue, mas ainda é desigual e não atende nossa ambição de crescimento forte, sustentável e equilibrado (...). Mesmo reconhecendo esses desafio, ainda assim entendemos que a magnitude da recente volatilidade dos mercados não se refletiu nos fundamentos subjacentes da economia global."
Fundamentos? Que fundamentos? Bancos centrais globais compraram mais de $10 trilhões de portfólios pressionados, desde o fim da recessão em 2009. Alguém aí está pensando que essa redução na oferta pode ter afetado o preço de ações e papéis, um pouquinho só, que fosse? Um bem pouquinho?
Os investidores sabem que tudo isso é miragem. Sabem que ações cujos preços vão à estratosfera são mantidas em pé com goma de mascar e fita isolante. Por isso, todos saltam rapidamente para fora, e pedem resgates, ao primeiro sinal de confusão. E é isso que faz das confabulações do G-20 uma ocasião tão importante para as manchetes, porque os chefões das finanças e os 'cérebros' bancários absolutamente não tinham o que pôr sobre a mesa. Basicamente, mandaram Wall Street "empacotar areia".
Chegaram até a dar as costas a um apelo emocional feito pelo FMI, para que tomassem "ação firme" para estimular o crescimento e evitar maiores danos ao já frágil sistema financeiro.
Eis o que disse o FMI:
"O G20 deve planejar agora para oferecer suporte coordenado à demanda usando o espaço fiscal disponível para estimular o investimento público e complementar reformas estruturais (...). É necessária abordagem abrangente, para reduzir a superdependência em relação à política monetária. Em particular, política fiscal de curto prazo [orig. near-term fiscal policy] deve garantir maior suporte onde apropriado e desde que haja espaço fiscal (...). A economia global precisa de ações multilaterais de peso para estimular o crescimento e conter os riscos."
Para mim, está com cara de 'o FMI parou de só falar de arrocho e mais arrocho [dito 'austeridade', mas não é "austeridade", é ARROCHO], não é mesmo? O que lhes parece?
Mas o Fundo só está sendo pragmático. Agora que a política monetária deu côs burros n'água, estímulo fiscal é o único pôquer aberto na cidade. As coisas são como são. Ou os ministros de Finanças aceitam o fato e tratam de promover mais e mais gastos dos respectivos governos em programas de infraestrutura e coisa-e-tal, ou ações e lucros vão enfrentar uma encolhida feroz. Simples assim.
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