domingo, 20 de março de 2016

Resultado de imagem para Pepe EscobarA arma letal definitiva da Rússia

por Pepe Escobar ●●●●● tradução por btpsilveira

Março de 2016 – "Information Clearing House" - "RT" – Deixem-me começar examinando um pouco do exercício da política clássica russa. O Ministro da Economia Anton Siluanov está elaborando a estratégia econômica russa para 2016, incluindo-se o orçamento federal. Siluanov, ele mesmo um liberal na essência, portanto favorável ao investimento estrangeiro – deverá apresentar suas propostas ao Kremlin lá pelo final deste mês.


Até aqui, nada de extraordinário. Mas em seguida, dias após, o jornal Kommersant deixou vazar que o Conselho de Segurança da Rússia pediu ao assessor presidencial Sergei Glaziev para que apresentasse plano econômico estratégico em separado, para ser apresentado ao Conselho esta semana. Não que isso seja assim novidade tão grande, já que o Conselho de Segurança da Rússia no passado já pedira pareceres de grupos de análise para avaliação econômica.

O Conselho de Segurança é liderado por Nikolai Patrushev, antigo presidente do Serviço Federal de Segurança. Ele e Siluanov não pensam exatamente no mesmo comprimento de onda.

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Sergei Glaziev
É aqui que a porca torce o rabo. Glaziev, um russo nacionalista, é um economista brilhante – aprovado pessoalmente até nos Estados Unidos.
Glaziev provavelmente será duro e direto. Ele trabalha para que a companhias russas sejam impedidas de usar moeda estrangeira (o que faz todo o senso); taxar a conversão de rublos em moeda estrangeira (da mesma forma); proibir empréstimos estrangeiros para companhias russas (a não ser que o empréstimo não seja em dólar ou euro); e finalmente, o trunfo definitivo – a exigência de que as companhias russas que tenham débitos em moeda estrangeiras sejam declaradas em mora.

Previsivelmente, alguns setores da “tinketankelândia” dos Estados Unidos entrou em surto psicótico, declarando estridentemente que com certeza “o setor russo de energia não mais será capaz de encontrar financiamento sem conexões com o ocidente”. Besteira. As empresas russas podem facilmente encontrar financiamento a partir de fontes da China, Japão ou Coréia do Sul.

Resultado de imagem para Trump and HillarySeja qual for a atenção que Glaziev receba do Kremlin, o episódio significa que Moscou já não tem ilusões no futuro próximo em relação aos excepcionalistas (para isso, basta olhar os candidatos presidenciais dos Estados Unidos, de “El Trumpissimo” a “The Hillarator”); como colocou recentemente o vice Ministro de Relações Exteriores Sergei Ryabkov, “[nós] devemos esperar um endurecimento da pressão das sanções”.

Uma coisa no entanto parece ser absolutamente certa: Moscou não se humilhará para “pacificar” Washington.

Vai um neo-czarismo aí?

Pode-se ser tentado a imaginar que Glaziev esteja preparando planos para fazer o país retornar a alguma espécie de czarismo autossuficiente, cortando os laços com o ocidente. Supondo que alguma versão disso pudesse ser aceita pelo Kremlin, certamente seria um duro golpe do qual talvez a Europa não conseguisse se recuperar.

Já pensou? E se a Rússia declarar o calote em todos os seus débitos estrangeiros – mais de $700 bilhões de dólares – sobre os quais as sanções ocidentais acrescentaram custos adicionais, tornando sua recuperação punitiva?

O calote viria como retaliação à manipulação dupla do ocidente, ao preço do petróleo e ataque ao rublo. A manipulação envolveu a produção extra de cinco milhões de barris de petróleo por dia de excesso de produção de reserva, detidos pelos suspeitos de sempre, acrescentada da manipulação do NYMEX (New York Mercantile Exchange – maior mercado mundial de commodities – NT), derrubando o preço.

Então, a manipulação do rublo no mercado de derivativos derrubou a moeda. Quase todas as importações russas foram virtualmente bloqueadas – embora as exportações de gás natural e de petróleo tenham permanecido constantes. No longo prazo, portanto, isso pode criar um significativo excedente comercial para a Rússia, fator extremamente positivo para o crescimento a longo prazo da indústria doméstica do país.

Vladimir Yakunin, antigo presidente das ferrovias russas, tendo saído da companhia devido à reorganização promovida, disse recentemente à AP de forma clara, que o objetivo das sanções patrocinadas pelos Estados Unidos à cortar os laços econômicos que unem a Rússia e a Europa.

As sanções, acrescentadas da especulação contra o petróleo e o rublo russo, lançaram a economia russa em recessão em 2015. Yakunin, como muitos economistas da elite econômica e de negócios, acha que os problemas econômicos da Rússia se estenderão pelo menos até 2017.

Na atualidade, os únicos produtos russos dos quais o ocidente necessita são o petróleo e o gás natural. Um possível calote russo sobre seus débitos não terá efeito na demanda por esses produtos no curto prazo; e muito provavelmente também no longo prazo, a menos que possa contribuir para uma nova crise financeira no ocidente, semelhante aos acontecimentos de 1998.

Todos nós nos lembramos de agosto de 1998, quando um abalo russo atingiu diretamente o núcleo do sistema financeiro. Levando em consideração que um colapso russo está sendo objeto de sérias preocupações pelos maiores poderes em vigor – e que incluem, claro, o FSB, SVR, GRU – então o fantasma da Mãe de Todas as Crises Financeiras no Ocidente está de volta. Para a Europa seria simplesmente fatal.

É por sua culpa que não podemos te explorar

É aí que entra o Irã. O levantamento das sanções contra o Irã – provavelmente ainda para o início de 2016 – na realidade nada tem a ver com o “dossiê nuclear”. Trata-se do “Grande jogo de xadrez do Oleogasodustão”, que tem tudo a ver com petróleo e gás natural.

O sonho molhado dos Estados Unidos – e da União Europeia – permanece sendo a substituição da Rússia pelo Irã em termos de importação de petróleo e gás natural para a União Europeia. Acontece que como sabe qualquer analista sério, isso levará pelo menos uma década para se concretizar, e demandará investimentos da ordem de $200 bilhões de dólares; sem mencionar que a Gazprom lutará contra com todas as suas forças e formidáveis armas – comerciais – em seu arsenal.

Ao mesmo tempo, as potências financeiras no eixo Londres-Nova Iorque não conseguiram prever que Moscou não se dobraria às suas exigências arrogantes, tentando forçar Putin a entregar de mão beijada a Ucrânia – para que pudessem colocar suas garras na maior parte das férteis terras agricultáveis da Ucrânia – o que demonstra que não aprendem com a história; anteriormente Putin já se recusara a recuar quando o ocidente pretendia continuar saqueando a Rússia.

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A praça Maidan durante o golpe 
Já dá para perceber, portanto, que todos os episódios lamentáveis em Kiev, bem como a expansão infindável da OTAN, não passam de uma tentativa de barrar Putin nas suas tentativas de impedir que o ocidente saqueie a Ucrânia. O que resultará disso é uma verdadeira mudança geopolítica de tamanho tectônico; a reconfiguração de todo o equilíbrio de poder na medida em que Rússia de China aprofundam sua parceria estratégica – baseada na ameaça externa mútua que sofrem, dos Estados Unidos e, acessoriamente, da União Europeia. A inteligência russa já sabe perfeitamente que a parceria entre Rússia e China torna ambos os países invulneráveis, mas separados, podem cair facilmente vítimas da velha e eficiente estratégia de dividir para reinar.

Da perspectiva de contra ataque para a ameaça representada pela OTAN, a Rússia teve tempo de  sobra para se remilitarizar, com foco em mísseis ofensivos e defensivos; essas armas são a chave para uma possível guerra em grande escala, não os porta aviões obsoletos dos EUA. Os mísseis defensivos da Rússia, tais como o míssil estado-de-arte S-500 e o míssil ofensivo Topol-M – cada um portando 10 MIRVs – podem facilmente neutralizar seja lá o que for que os Estados Unidos tenham em estoque.

Depois da Rússia, os “Mestres do Universo” do mercado financeiro ocidental foram atrás da China, por causa de sua aliança com a Rússia. Os suspeitos de sempre usaram o setor financeiro para manipular o mercado de ações chinês, tentando estancar a economia do país asiático, usando seus títeres em Wall Street a fim de promover a manipulação dos mecanismos de liquidação financeira que, pela primeira vez, fez subir os preços das ações “A” da China, criando artificialmente uma bolha gigante. Em seguida, reverteram as plataformas de liquidação em “cash” para derrubar o mercado.

Não é de se admirar que Pequim, consciente do que estava acontecendo, fez uma intervenção maciça; agora, está estudando de perto as grandes movimentações em dinheiro e ainda mais cuidadosamente, está revendo e analisando os registros dos maiores operadores de ações na China.

Travar os bancos centrais suspeitos

Já passou da hora da Rússia fazer alguma coisa em relação ao seu Banco Central.

O Banco Central russo mantém altas as taxas de juros, o que obriga os setores russos de petróleo e gás natural a buscar financiamento operacional de fontes ocidentais, e dessa forma, mantendo a economia russa presa em uma armadilha de dívida constante.

O objetivo desses empréstimos à Rússia pelo eixo Londres-Nova Iorque é uma espécie de mecanismo de controle. Caso Moscou resolva “desobedecer as ordens do ocidente, este simplesmente primeiro faz cair o rublo, depois cobra os empréstimos, tornados dessa maneira quase impossíveis de pagar, exatamente o que foi feito com o Irã.

É com estes mecanismos que o ocidente, através de suas instituições – FMI, Banco Mundial, BIS, a gang inteira – governa. Pequim está lutando para substituir ou ao menos complementar essas instituições com outras instituições internacionais mais democráticas.

Caso o Banco Central da Rússia estivesse operando sob princípios mais sólidos, teria buscado empréstimos ocidentais a juro baixo e usado o dinheiro em investimentos produtivos – essa seria uma forma totalmente diferente da usada nos Estados Unidos, onde grande parte do crédito fornecido pelo Banco Central vai diretamente para o setor financeiro e bancário, através de golpes especulativos.

Entre outros, Michael Hudson já demonstrou à saciedade como o FED (norte)americano só serve aos interesses de seus mandatários financeiros e está pouco se lixando para o setor de infraestrutura industrial dos EUA, que aos poucos está sendo transferida para colônias e/ou vassalos, bem como para a China.

Então, os “Mestres do Universo” pensaram que colocar pressão cada vez maior contra Rússia e China iria funcionar. Não funcionou. No entanto, há motivos para alarme: eles continuarão a subir a aposta, cada vez mais.

Tornou-se evidente o seguinte cenário: a Rússia se move cada vez mais para leste enquanto tenta ao mesmo tempo livrar-se de grande parte da arquitetura institucional ocidental.

O surgimento da Nova Rota da Seda chinesa, também conhecida como “Um Cinturão, Uma Estrada” e da União Econômica da Eurásia, liderada pela Rússia, são irreversíveis. É do interesse dos dois países o investimento e desenvolvimento de um mercado pan-eurasiano.

A maioria da produção de gás natural do Irã poderia ser absorvido na área asiática da Eurásia, e não pela União Europeia; a economia chinesa deve pelo menos triplicar nos próximos quinze anos enquanto os Estados Unidos continuam a se desindustrializar.

Seja lá o que for discutido entre Obama e Putin no encontro que terão no final do mês em Nova Iorque, os “excepcionalistas” não diminuirão a pressão contra o urso russo. Assim, vale a pena para o urso manter uma arma financeira letal em seu arsenal.

Pepe Escobar é um analista geopolítico independente. Escreve para a RT, Sputnik e TomDispach, contribuindo frequentemente com websites, rádio e shows de TV desde os Estados Unidos até o Leste Asiático.   Ele é correspondente para o jornal Asia Times Online. Nascido no Brasil, escreve exclusivamente em inglês e tem sido correspondente estrangeiro desde 1985. Vive em Londres, Paris, São Paulo, Milão, Los Angeles, Washington, Bangkok e Hong Kong. Desde antes dos acontecimentos de 9/11, ele se especializou na cobertura de um arco que vai desde o Oriente Médio até a Ásia Central e do Leste, com ênfase em Geopolítica e guerras pela energia. É autor de “Globalistan” (2007), “Red Zones Blues” (2007), “Obama does Globalistan” (2209) 3 Empire of Chaos” (2014), todos publicados pela editora Nimble Books.


Um comentário:

  1. Como já se disse um império é mais perigoso na decadência que quando nó topo.Observamos isso na minha querida América Latina.

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