segunda-feira, 24 de abril de 2017

Porque Rússia e China apavoram Washington
The Russian and Chinese national flags are seen on the table as Russia's President Vladimir Putin (back L) and his China's President Xi Jinping (back R) stand during a signing ceremony at the Diaoyutai State Guesthouse in Beijing on November 9, 2014. 
Texto de Pepe Escobar, tradução de btpsilveira
 Publicado originalmente em SputnikNews.com 
Unindo os países que o Pentágono declarou serem as principais ameaças “existenciais” para os Estados Unidos, a parceria estratégica Rússia-China não se revela através de um tratado assinado com pompa e circunstância – e uma parada militar.
Mesmo escavando camada após camada de sofisticação sutil, não há como saber a profundidade dos termos acordados entre Pequim e Moscou, nos bastidores dos inumeráveis encontros entre Xi Jinping e Vladimir Putin.


Diplomatas, desde que mantidos no anonimato, ocasionalmente insinuam que uma mensagem em código pode ter sido entregue à OTAN quantos ao que poderia acontecer se um desses parceiros estratégicos fosse maltratado seriamente – seja na Ucrânia seja no Mar do Sul da China – a OTAN teria que lidar com os dois.
Por enquanto, vamos nos concentrar em dois exemplos de como a parceria funciona na prática, e porque Washington não tem noção de como lidar com a situação.
A prova “A” é a iminente visita que Secretário Geral do Partido Comunista Chinês (CCP, na sigla em inglês – NT) Li Zhanshu, fará a Moscou, convidado pelo chefe da Administração Presidencial no Kremlin, Anton Vaino. Pequim ressaltou que as conversações girarão em torno – sem novidade – da parceria estratégica entre China e Rússia “como já acordado previamente entre os líderes dos dois países”.
O encontro acontecerá logo depois que o primeiro Vice Premier chinês Zhang Gaoli, uma das sete personagens mais eminentes do Politburo chinês e um dos condutores das políticas econômicas chinesas foi recebido em Moscou  pelo Presidente Putin. Na ocasião, discutiram investimentos chineses na Rússia e o ângulo crucial da parceria, a questão energética.

Mas principalmente, estão preparando a próxima visita de Putin a Pequim, que será particularmente espetacular, no quadro do encontro de cúpula Um Cinturão, Uma Estrada (One Belt, One Road – OBOR, em inglês – NT) em 14/15 de maio, conduzido por Xi Jinping.

O Secretariado Geral do PCC – subordinado diretamente a Xi Jinping – mantém esse tipo de consultas anuais de alto nível com Moscou, e ninguém mais. Não é necessário acrescentar que Li Zhanshu responde diretamente a Xi tanto quanto Vaino responde diretamente a Putin. Mais altamente estratégico impossível.
Estes acontecimentos estão também ligados diretamente ao último episódio ligando Os Homens (de Trump) Vazios, neste caso, o pomposo/trapalhão Conselheiro para a Segurança Nacional, Tte General H R McMaster.
Resumidamente, a tirada de McMaster, alegremente regurgitada pela imprensa corporativa submissa, é que Trump teria desenvolvido uma espécie de “química especial” com Xi depois que, no encontro Tomahawks-com-bolo-de-chocolate em Mar-a-Lago, Trump teria conseguido desmanchar o acordo entre China e Rússia sobre a Síria e isolado a Rússia no Conselho de Segurança da ONU.  

McMaster deveria ter dedicado alguns minutos para ler o Comunicado Conjunto dos BRICS sobre a Síria para se inteirar que os BRICS estão dando retaguarda à Rússia.

Não é de se admirar que um observador hindu experimentado se sentiu compelido a observar que “Trump e McMaster parecem dois caipiras completamente perdidos na Metrópole”.


Siga o dinheiro


A prova “B” está centrada no avanço discreto nos acordos entre China e Rússia para substituir o dólar dos Estados Unidos como moeda de reserva por um sistema lastreado no ouro.

A questão envolve também a participação primordial do Cazaquistão – muitíssimo interessa em usar ouro como moeda ao longo da OBOR. O Cazaquistão não poderia estar mais estrategicamente bem posicionado; um ponto central chave da OBOR; membro crucial da União Econômica Eurasiana; membro da Shanghai Cooperation Organization (SCO); e não por acaso, o país que funde a maior parte do ouro russo.

Paralelamente, a Rússia e a China avançam com seus próprios sistemas de pagamento. Agora que o Yuan goza do status de moeda global, a China está desenvolvendo o seu próprio sistema de pagamento, o CIPS, cuidadosamente pensado para não antagonizar frontalmente o sistema SWIFT, internacionalmente aceito e controlado pelos Estados Unidos. Por outro lado, a Rússia tem enfatizado a criação de “uma alternativa” nas palavras da presidente do Banco Central da Rússia, Elvira Nabiulina, na forma do sistema de pagamento Mir – uma versão russa do Visa/Mastercard. O que implica que se os Estados Unidos quiser excluir a Rússia do sistema SWIFT, mesmo temporariamente, pelo menos 90% dos caixas eletrônicos da Rússia serão capazes de operar pelo sistema Mir.
O sistema de cartões UnionPay já está implantado em toda a Ásia – entusiasticamente adotado pelo HSBC, entre outros. Combina um modo “alternativo” de pagamento com um sistema lastreado em ouro em desenvolvimento. Chamar a reação do Federal Reserve dos EUA de “tóxica” é dourar a pílula.

E não se trata apenas de Rússia e China. Estamos falando dos BRICS
O que o primeiro vice presidente do Banco Central da Rússia Sergey Shvetsov tem sublinhado é apenas o começo: “os países BRICS são grandes economias com enormes reservas de ouro e um impressionante volume de produção e consumo do metal precioso. Na China, o comércio de ouro acontece em Xangai e na Rússia em Moscou; Nossa ideia é criar um ligação entre as duas cidades para aumentar o comércio entre os dois mercados.”
A Rússia e a China já estabeleceram sistemas para fazer o comércio global tangenciar o dólar dos Estados Unidos. O que Washington conseguiu fazer com o Irã – expulsar seus bancos do sistema SWIFT – atualmente é impensável contra Rússia e China.

Assim, estamos a caminho, devagar mas com segurança, de um sistema BRICS de "mercado para o ouro.” Uma “nova arquitetura financeira” está sendo construída. A iniciativa implica na futura incapacidade do FED (norte)americano de exportar inflação para outros países – especialmente aqueles incluídos nos BRICS, EEU e SCO.


Os homens vazios


Os generais de Trump, liderados pelo “Cachorro Louco” Mattis, podem tagarelar quanto quiserem sobre a necessidade de dominar o planeta com seus sofisticados comandos AéreosMarinhosTerrestresEspaciaisCibernéticos. Ainda assim, não serão suficientes para conter a miríade de alternativas que a parceria estratégica entre China e Rússia está desenvolvendo.

Então, mais que nunca, teremos Homens Vazios como o vice presidente Mike Pence, com sua solenidade prolixa, ameaçando a Coreia do Norte; “o escudo está levantado e a espada está desembainhada”. Esqueça que isso seria uma fala pomposa e entediante mesmo em uma refilmagem barata de filmes B de Hollywood; o que temos é um Pence aspirante a ocupar a Casa Branca ameaçando a Rússia e a China de que pode acontecer alguma questão nuclear séria bem perto das regiões fronteiriças entre Estados Unidos e Coreia do Norte.
Não acontecerá. Apresento o grande T. S. Eliot, que descreveu tudo isso com décadas de antecedência:

“Nós somos os homens vazios / aqueles cheios de palha / amparando uns aos outros / enfeitados e cobertos de nada. Pobres de nós! / Nossas vozes áridas / quando sussurramos todos juntos / são quietas e indefinidas / como o vento na grama seca / ou ratos andando sobre copos quebrados / em nossa adega, hoje seca.”


Nenhum comentário:

Postar um comentário