segunda-feira, 17 de julho de 2017

Erdogan que tome cuidado: veja o caso de Lula do Brasil 

 
15/7/2017, MK Bhadrakumar, Indian Punchline, tradução pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu

Prôs petistas e liberais 'éticos' em geral que ignoram sinceramente ou só fingem que não veem a real luta internacional do capital – e se comprazem no xororô de 'como nos perseguem'.
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Turquia marca hoje um aniversário pungente. Há exatamente um ano, houve uma tentativa de golpe militar na Turquia para depor o presidente Recep Erdogan – e, se fosse possível, provavelmente, eliminá-lo fisicamente. Mas o povo turco respondeu imediatamente à convocação de Erdogan para resistir ao golpe. A mais próxima analogia na história moderna pode ser a derrota histórica da tentativa de golpe contra Mikhail Gorbachev em agosto de 1991, quando Boris Yeltsin mobilizou o 'poder popular' na Praça Vermelha em Moscou e derrotou os golpistas.


Golpe é ruim, mas tentativa de golpe que fracassa é muito pior. O revide torna-se praticamente inevitável, quando o golpe fracassa, e a coisa pode ficar realmente feia, porque os baixos instintos afloram incontrolavelmente e passa a reinar a 'natureza, dentes e garras ensanguentadas' [orig. ‘nature, red in tooth and claw’Tennyson] como único juiz, júri e carrasco executor. Yeltsin aproveitou aquele momento para se apossar das alavancas do poder que em tese pertenciam a Gorbachev, naquela zona indefinida quando a ousadia impõe-se e o vencedor leva tudo. Yeltsin prosseguiu o desmonte da União Soviética, para consolidar seu poder na Federação Russa.

Quanto a Erdogan, ele também recorreu a 
ataque massivo contra apoiadores ou simpatizantes do golpe fracassado que conseguiu identificar, e centralizou o poder constitucional nas próprias mãos. Há muitos sinais e provas de que a tentativa de golpe na Turquia teve ramificações muito mais amplas, dado que contou com o apoio dos seguidores do pregador islamista Fetullah Gulen (que vive exilado nos EUA) que se infiltraram em órgãos do estado – especialmente no corpo de oficiais das Forças Armadas, da polícia e do aparelho judiciário –, em número muito alto, ao longo de várias décadas. Implica que, sim, lá estava a 'mão oculta' de potências estrangeiras já fartas das políticas regionais de Erdogan: os EUA, os Emirados Árabes Unidos e o Egito, dentre os abertamente citados.

Yeltsin, claro, imediatamente se tornou o queridinho do ocidente. Mas na Turquia o caso é o exato oposto. As potências ocidentais estão expondo Erdogan no pelourinho, culpando-o pelo revide contra os golpistas, enquanto o golpe propriamente dito, hoje, um ano após o golpe já sumiu das páginas dos jornais e telas de TVs. Yeltsin também passou a mão em mais poder do que lhe cabia, mas ninguém considerou grave a usurpação, porque usurpava, afinal de contas, a favor do 'ocidente'. Erdogan, ao contrário, está sendo crucificado pelo ocidente pela postura 'autoritária'. De fato, trata-se da política externa independente de Erdogan e da defesa que faz do Islã político, como principal agente do empoderamento do Oriente Médio muçulmano.

Não há dúvida que Erdogan mostrou o dedo médio diretamente na cara do ocidente, ao anunciar, essa semana, que a Turquia está comprando o Sistema de Mísseis Antibalísticos S-400 Triumf, produzido pela Rússia. 

Funcionários dos EUA, inclusive o comandante da Força Aérea general David L. Goldfein, reuniram-se com os contrapartes turcos essa semana, num derradeiro esforço para tentar reverter a compra do S400 (e para arrancar dos turcos um compromisso de que a compra de 100 jatos de combate F35A de fabricantes norte-americanos permanecia como planejada). Os russos ofereceram-se para montar na Turquia duas das quatro baterias no negócio de $2,5 bilhões, como parte de um acordo de 'transferência de tecnologia'. (Ver meu artigo "Rússia entrou na alcova da OTAN".)

Erdogan nada deve ao 'ocidente'. Tem, de pleno direito, mandato legal e democrático (com mais de 50% dos votos), legitimidade que mata de inveja as Theresa May ou as Angela Merkel. 

E Erdogan sabe que, se baixar a guarda, seu destino será muito semelhante ao do ex-presidente Lula da Silva do Brasil, que está sendo excomungado por ordem dita legal que é parte de um golpe jurídico-parlamentar – embora (ou precisamente por esse motivo) mantém vantagem de mais de 20 pontos em qualquer contexto de eleições livres e democráticas que se considerem no Brasil. 

Verdade é que o Brasil enfrenta golpe silencioso ativado pelo capitalismo global. Leiam o brilhante 
ensaio de Shobhan Saxena em Wire (ing.), sobre os bastidores do que está acontecendo no Brasil.

Por falar em golpe, uma das revelações que começaram a circular recentemente é que a Fundação para Defesa da Democracia, think-tank com sede nos EUA e cujo principal financiador é o milionário pró-Israel Sheldon Adelson, estaria entre os agentes planejadores do golpe na Turquia, ano passado!

Não há dúvidas de que o apoio de Erdogan ao Hamas palestino e o rompimento com Israel não agradam aos EUA. Dito em palavras bem simples: a tentativa de golpe na Turquia ano passado ainda não revelou todos os seus segredos. Várias coisas talvez jamais cheguem a ver a luz do sol. Mesmo hoje, muita coisa permanece enterrada nos arquivos da CIA sobre o 
golpe que derrubou Mohammad Mosaeddeq no Irã em 1953 – 64 anos depois daquela tragédia. Não há dúvida de que, se Erdogan baixar a guarda, terá o mesmo destino de Lula.



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