sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

Trump vs. the European Union: The Coming StormA União Europeia X Trump: a tempestade se avizinha

As relações entre EUA e União Europeia estão em rumo de colisão quanto ao Irã, a OTAN e refugiados

Por Dina ESFANDIARY, Ariane TABATABAI – trad: btpsilveira
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, prometeu “colocar os EUA em primeiro lugar”, impedir que outros países continuem a se aproveitar do país e abalar a mentalidade de manutenção do status que domina Washington. O resultado foi uma política inconsistente e errática de sua administração nas primeiras duas semanas. 

A partir da afirmação que o Irã “está avisado”, passando pela proibição da aceitação de imigrantes de sete grandes países islâmicos chegando à colocação em risco de antigas alianças dos EUA, o presidente Donald Trump continua a colocar em risco a segurança, interesses e cidadãos dos Estados Membros da União Europeia. Esta precisa reagir para minimizar implicações estratégicas ainda maiores nas drásticas mudanças de rumo da política dos Estados Unidos e controlar o Presidente Trump.
A mudança ideológica direcionada a uma oposição ainda maior contra o Irã foi um dos principais componentes da política do presidente Trump para o Oriente Médio. Sua equipe vê o Irã como um regime dirigido por “mulás maus”, liderado por uma ideologia islâmica revolucionária e determinada a se opor aos Estados Unidos. A administração (norte)americana superestima a capacidade iraniana fora de qualquer proporção e não é capaz de entender suas intenções. No Iêmen, a equipe de Trump segue a linha saudita – os Houthis são um fantoche iraniano e uma ameaça aos Estados Unidos – mas ocorre que a realidade é muito mais complicada. Quando o Irã testou um míssil de médio alcance neste mês, a administração Trump resolveu colocar o Irã “sob aviso” e impôs novas sanções ao país.
O medo nas capitais europeias é que tudo isso coloque em risco o acordo nuclear de 2015 com o Irã. O forte tom anti-iraniano que a desescalação para diminuir a crise se torna mais difícil. E que é provável que o acordo seja desafiado por ambas as partes.

Durante sua campanha, Trump prometeu “rasgar” o acordo. Mas o Plano Abrangente de Ação Conjunta (Joint Comprehensive Plan of Action – NT) não se trata de um acordo bilateral que englobe apenas o Irã e os EUA; França, o Reino Unido, Alemanha, China e Rússia também estão envolvidos. Para a Europa, o acordo remove uma preocupação crucial: o programa nuclear iraniano. Também abre as portas para o diálogo com o Irã, caminho para resolver outros assuntos também preocupantes, algo que Bruxelas já começou a fazer através de seu diálogo político conjunto de alto nível União Europeia/Irã, no qual se discute de tudo, desde comércio até acordos relacionados a direitos humanos. A Representante da União Europeia para Segurança Política e Questões Externas, Federica Mogherini, aproveitou-se com sucesso do acordo para englobar não só os moderados mas também os políticos linha-dura de Teerã, para incluir assuntos tão complicados como os direitos humanos. É claro que o acordo tem suas falhas, mas mesmo os céticos, entre eles aliados dos EUA no Golfo e analistas  em Washington solicitaram que Trump aceite os termos do acordo.
O tom mais beligerante da nova administração em relação ao Irã também afeta a batalha contra o Estado Islâmico no Iraque. Mesmo levando-se em consideração que o papel desempenhado pelo Irã possa ser inquietante, é inegável que os Estados Unidos, a União Europeia e o Irã têm interesses em comum no Iraque. O Irã é com certeza parte interessada na luta contra o Estado Islâmico, e vê o combate contra o grupo como uma prioridade tanto política como de segurança do país, para a qual tem empenhado recursos substanciais. O Irã e os EUA já coordenaram esforços que resultaram em missões bem sucedidas nesse sentido. O crescimento do tom beligerante torna esse tipo de diálogo e coordenação menos provável e como consequência, dificultando a luta contra o Estado Islâmico no Iraque.
O presidente Trump definiu o foco de sua administração: a contenção do “terrorismo islâmico radical”. Como parte desse esforço, assinou uma ordem executiva controversa, restringindo os imigrantes e refugiados de sete grandes países majoritariamente islâmicos: Irã, Iraque, Síria, Líbia, Sudão, Somália e Iêmen. Ele afirma que não se trata de uma proibição de muçulmanos em geral, mas não foi isso o que ficou parecendo. Mesmo com a proibição sendo suspensa, o dano já foi feito: se os muçulmanos entendem que foi uma proibição para muçulmanos em geral, isso é o que importa.
Longe de ajudar o ocidente no combate ao Estado Islâmico e sua ideologia – um dos principais objetivos da política externa de Trump – a ordem executiva foi um presente para os terroristas. Trata-se da ferramenta perfeita para recrutar mais militantes, mesmo tendo sido suspensa. O Estado Islâmico não estava sendo capaz de compor sua narrativa de uma luta do Islã contra o ocidente para a maioria do mundo islâmico até agora, mas a ação de Trump lhes permite exatamente isso. A ordem também ajuda a radicalizar os muçulmanos espoliados em seus direitos, e enfraquece os muçulmanos moderados que combatem as ideologias extremistas.
A proibição prejudicará ainda mais profundamente ao acordo nuclear com o Irã, que é um dos países atingidos pela ordem executiva. Esta, em conjunto com a mudança no programa de isenção de vistos do ano passado mandam mensagens conflitantes para investidores e homens de negócios esperançosos de entrar no mercado iraniano após o acordo nuclear. Caso o Irã seja capaz de colher os benefícios do acordo, sentir-se-á cada vez menos interessado de cumprir o combinado até o fim.
Porém, talvez ainda mais significativo para Bruxelas e líderes europeus seja o flagrante desrespeito do Presidente Trump ao lidar e se relacionar com seus aliados. A retórica brusca com aliados tradicionais como o México, Austrália e mesmo com países do Golfo Pérsico, bem como com a OTAN, realça o desprezo do presidente com qualquer um que critique a direção que os EUA estão tomando. Em contraste, o presidente Trump está sendo bem mais amigável com a Rússia de Vladimir Putin, cujas ações têm ameaçado a segurança europeia.
As drásticas mudanças – tanto nas políticas domésticas quanto nas exteriores – e seu aparente desprezo pelo funcionamento tradicional das relações internacionais colocam a União Europeia e seus membros ante um dilema: enfrentar Trump e suas políticas ao risco de dispensar um aliado importante, ou agir de modo mais passivo, permitindo que Trump adote um tom agressivo que pode dificultar potencialmente os interesses europeus.
A resposta tem que ser clara e simples: a União Europeia tem que defender a si mesma e seus interesses.
Quanto ao acordo com o Irã, a União Europeia deve assegurar que seja implementado. Isso quer dizer que Teerã tem que fazer sua parte, mas também que os EUA e a União Europeia cumprirão a sua. A UE precisa blindar o acordo como o fez o presidente Obama, e assegurar-se que pequenas crises não sairão de controle. Nestes tempos sensíveis como os próximos meses, isso é particularmente importante, dado que os radicais iranianos provavelmente tentarão brincar com a sorte e testar o acordo nuclear com testes de mísseis balísticos e atividades cibernéticas, enquanto a administração Trump parece ansiosa para escalar contra o Irã.
Uma maneira de fazer isso seria preencher a lacuna deixada pela partida do Secretário John Kerry. A UE deveria se aproveitar das boas relações construídas por Mogherini com o Irã para torna-lo parceiro de diálogo, especialmente nestes tempos de crise. Deveria continuar a envolver o Irã em outros fronts, entre eles seu apoio a grupos terroristas, atuação regional mais ampla e direitos humanos. Bruxelas deveria ainda assegurar que o Irã possa colher benefícios pelo acordo, através de negócios econômicos e comerciais. Mesmo ante a crescente dificuldade, trabalhar com parceiros asiáticos, por exemplo, pode ajudar a dissipar o atual ambiente de incerteza.
Os líderes da União Europeia devem continuar a condenar a ordem executiva de Trump. Caso a proibição seja reestabelecida, devem também tentar auxiliar aqueles que forem apanhados de surpresa e ficarem numa espécie de limbo, sem possibilidade de retorno para trabalhar ou estudar. A França, só para dar um exemplo, afirmou que dobraria o número de vistos para iranianos. Bruxelas deve agir rapidamente e disponibilizar medidas de reassentamento para aqueles refugiados já vetados pelo governo dos EUA, impedidos assim de adentrar o país. Funcionários da União Europeia e dos Estados Membros devem tentar acionar quaisquer níveis de interação com a administração Trump.
Já ficou demonstrado que a firmeza é a melhor maneira de tratar com o presidente Trump. A União Europeia deve tornar claro que não é apenas um recipiente dos favores dos Estados Unidos, mas parte integral e importante da arquitetura da segurança dos EUA e da ordem mundial liderada por eles e um parceiro crucial. Assim sendo, os funcionários da União Europeia devem ser tratados como iguais. A UE deve pressionar seja como for a administração Trump para que mantenha constância no trato com a OTAN e a Rússia. A falta de consistência dificulta a segurança da União Europeia e seus membros, mesmo que a retórica agressiva de Trump não seja seguida por ações reais. Além disso, devem pressionar para que uma linha mais dura contra a Rússia seja adotada. A EU e seus membros que já  dispenderam sangue e recursos para estabilizar o Afeganistão, deve ainda exigir uma estratégia viável para o país. O presidente Trump quase nada disse ainda sobre o Afeganistão, e não está claro se ele continuará os esforços empreendidos pelo seu antecessor ou não.
Além do interesse, a União Europeia tem a responsabilidade moral de enfrentar com decisão as políticas e a retórica imprudentemente agressiva da Administração Trump. Tanto a ordem executiva quanto a posição beligerante contra o Irã ameaçam a segurança europeia, porque enfraquecem a luta contra o terrorismo muçulmano, bem como colocam em perigo a implantação de um acordo multilateral que é crucial neste momento. Caso a UE e outros grandes aliados dos EUA não adotem uma posição firme na defesa de seus valores e interesses, o presidente Trump provavelmente se sentirá tentado a forçar a barra ainda mais. Isso fará a União Europeia parecer fraca e prejudicará os interesses, valores e esforços estratégicos primordiais do ocidente.

 http://www.strategic-culture.org/news/2017/02/23/trump-vs-european-union-coming-storm.html 

Nenhum comentário:

Postar um comentário