segunda-feira, 14 de agosto de 2017

A República Popular Democrática da Coreia do Norte, RPDC, conhece as lições brutais da 'mudança de regime' à EUA e não se desarmará 


13/8/2017,
Neil ClarkRT, tradução pelo Coletivo de Tradutores da VILA VUDU

Será que a 3ª Guerra Mundial começará essa semana, por causa das ações belicosas de um presidente fanfarrão com corte de cabelos patético e seu sinistro estado bandido belicista armado com bomba atômica? Ou ainda é possível conter Donald Trump e os EUA?


Claro que na mídia ocidental sempre a favor do que ordene o Departamento de Estado, é a Coreia do Norte e o governante norte-coreano que aparecem pintados como se fossem os doidos da hora. Mas você não precisa carregar tochas pela rua a favor do governo coreano, nem ser membro de carteirinha da Sociedade dos Adoradores de Kim Jong-un para saber que, dessa vez, o governo da Coreia do Norte está agindo muito racionalmente. Porque a história recente ensina que o melhor meio para conter ataques dos EUA e aliados absolutamente não é desarmar-se, fantasiar-se de John Lennon e pôr-se a fazer declarações sobre o quanto você deseja a paz. Nas circunstâncias presentes, doido é quem não souber que é preciso fazer exatamente o oposto.

A crise na Península Coreana é efeito das ações de um estado-bandido governado por doidos armados com bombas atômicas. Claro: esse estado-bandido é os

Considerem o que aconteceu à Iugoslávia, ao Iraque e à Líbia. Como a RPDC, os três foram 'estados-alvo' dos EUA. E os três foram destruídos e os respectivos três líderes foram assassinados. Alguém de nós acredita honestamente que esses três estados teriam sido atacados se possuíssem bombas atômicas ou mísseis capazes de atingir alvos norte-americanos? Claro que não. Análises detalhadas desses conflitos mostram que o Império segue adiante movido por uma mistura de blefes, depois da qual sempre vem imediatamente o ataque militar, mas só nos casos em que creia que os riscos sejam mínimos ou inexistentes. Se o Império acredita que os riscos sejam altos, ele invariavelmente retrocede e começa a pregar a favor de 'diálogo' e de 'diplomacia'.

Para compreender como age na arena internacional o hegemon global, ninguém precisa estudar detidamente calhamaços acadêmicos: basta lembrar o que acontece no pátio da escola, no intervalo.

Em 1999, o presidente iugoslavo Slobodan Milosevic não só não tinha mísseis balísticos intercontinentais, como tampouco tinha aliados internacionais preparados para defender com ele a Iugoslávia na hora em que fosse preciso. Embora os militares russos estivessem dispostos a ajudar seus tradicionais aliados eslavos em Belgrado, 
sabe-se hoje que, quase com certezaYeltsin e a elite governante na Rússia receberam 'estímulos' financeiros para se manterem à distância. Seja isso verdade ou não, um novo empréstimo do FMI foi convenientemente concedido apenas uma semana depois de a OTAN ter iniciado a campanha de bombardeio aéreo ilegal contra a Iugoslávia.

Os EUA contavam com que a operação militar durasse apenas uns poucos dias, depois do que 'Slobo' cederia e reconheceria o 'direito' que a aliança militar ocidental teria, de ocupar o Kosovo – e saquear toda a riqueza mineral do país – e ganhar acesso livre sobre toda a Iugoslávia.

"Não vejo aí uma operação de longo prazo. Parece-me objetivo alcançável em período relativamente breve de tempo" – pavoneou-se a secretária de Estado Madeline Albright.

Mas 'Slobo' e os estoicos sérvios não se renderam. Com a campanha de bombardeio sempre mantida, começaram a surgir divisões dentro da OTAN entre os próprios agressores; de um lado EUA e Grã-Bretanha, de outro os países da Europa continental que começaram a favorecer um diálogo com Belgrado.

Dia 15/4/1999, o Guardian 
noticiou que "funcionários dos EUA rejeitaram um plano de paz encaminhado pela Alemanha, de seis pontos, dentre os quais o estabelecimento de uma pausa de 24 horas nos bombardeios, uma força de paz da ONU e monitores civis em solo." O jornal observou o modo como o primeiro-ministro britânico Tony Blair "também deu friamente as costas àquele plano."

As atrocidades cometidas pela OTAN, dentre as quais a matança de 16 civis no ataque à bomba contra a TV Estatal Sérvia – crime de guerra absolutamente claro e configurado – e o bombardeio de um trem de passageiros e de um comboio de albaneses kosovares, já começavam a pôr a opinião pública contra a tal operação da OTAN dita 'humanitária'. Com a guerra já começando a desandar e sem dar sinais de que levaria aos resultados planejados, os EUA começaram, como sempre, a ameaçar. Para aumentar a pressão sobre Milosevic – o presidente iugoslavo foi indiciado como criminoso de guerra, num processo que analisei aqui.

Além disso, começaram os boatos de que a OTAN estaria planejando uma invasão por terra. Dia 18/5/1999, o presidente Clinton declarou que "eu não retiraria da mesa nenhuma opção".

Victor Chernomyrdin, enviado de Ieltsin, voou para Belgrado para persuadir Milosevic a aceitar os termos da OTAN – ou ele teria de enfrentar uma escalada na guerra.

Mas será que alguém realmente cogitava de pôr coturnos em solo na Iugoslávia? Ou as ameaças não passavam de blefe? Muitas evidências sugerem que a verdade fosse essa segunda via. O comandante supremo da OTAN, Wesley Clark, conta em suas memórias que os principais líderes políticos da Aliança jamais chegaram a qualquer consenso sobre enviar tropas para combate no solo. E a OTAN teria meios para intensificar a campanha aérea? Clark também 
admitiu em meados de maio, a OTAN "já avançara o máximo possível nos ataques aéreos."

Tenho certeza de que sete anos depois, doente e preso sem receber o tratamento que seus problemas cardíacos exigiam, Milosevic muito lamentou não ter dito 'nyet' [ru. no orig. "não"] a Chernomyrdin em 1999 e não ter 'pagado para ver', na aposta-blefe de Washington.

Quatro anos depois, chegou a vez de o Iraque, rico em petróleo, ser atacado e saqueado.

Saddam Hussein e seu vice-primeiro ministro Tariq Aziz declararam repetidas vezes à mídia-empresa ocidental que o Iraque não tinha armas de destruição em massa.

Os neoconservadores ocidentais os acusaram de estar mentindo, mas o incansável lobby pró-guerra sabia que a liderança iraquiana dizia a verdade.

O país de Saddam foi atacado não porque possuísse armas de destruição em massa, mas, precisamente porque não as tinha. 

Com as defesas aéreas gravemente enfraquecidas depois de anos de bombardeios pelos aliados, e com a própria força aérea dizimada na 1ª Guerra do Golfo, o Iraque estava praticamente incapacitado para se defender. Bush e Blair mentiram ao mundo que o Iraque seria "grave ameaça" – e, resultado disso, 1 milhão de iraquianos foram mortos.

Quanto à Líbia, rica em petróleo, Muammar Gaddafi extraiu conclusões absolutamente erradas do que acontecera ao Iraque. Tentando empenhadamente pôr fim às sanções dos EUA contra a Líbia, Gaddafi aceitou – tolamente – em dezembro de 2003 eliminar seu programa de armas de destruição em massa. Depois da operação "Choque e Pavor", Gaddafi deveria, isso sim, ter ampliado o próprio arsenal. Em vez disso, seduzido pelas promessas sempre mentirosas de líderes ocidentais, de que se destruísse as próprias armas estaria pondo fim ao isolamento da Líbia, Gaddafi não só não ampliou seus arsenais como, muito mais grave, destruiu-os.

George W. Bush elogiou essa decisão como "escolha inteligente e sensível"

Tony Blair, por sua vez, disse: "Essa corajosa decisão tomada pelo coronel Gaddafi é decisão histórica. Aplaudo muito. Tornará mais seguros a região e todo o mundo."

Claro que não aconteceu nada disso. A decisão de Gaddafi só abriu a via para a destruição da Líbia, pelos mesmos países cujos governantes tanto o elogiaram, poucos anos antes, como 'inteligente' e 'sensível'.

Também aqui, tenho certeza de que Gaddafi, escondido num abrigo subterrâneo, tentando não ser capturado por 'rebeldes' apoiados pelos EUA (que pouco depois o assassinaram de modo brutal), também se arrependia amargamente de ter optado por desarmar seu país.

Com o que, afinal, chegamos à RPDC, "Coreia do Norte".

É claro que Kim Jong-un sabe do que aconteceu a Milosevic, Saddam e Gaddafi e da devastação lançada contra seus respectivos países. Sabe e age corretamente para se proteger. 

A estratégia da RPDC é visivelmente baseada na certeza, fruto dos eventos que comentei acima, de que os EUA não passam de estado abusador, que só ataca estados fracos. Assim sendo, agitar sabres e 'subir' as apostas e ameaças é arma recomendável, com alta probabilidade de sucesso para evitar ataques. Devemos também nunca esquecer que a RPDC perdeu cerca de 1 milhão de cidadãos na Guerra da Coreia 1950-53,[1]muitos dos quais por efeito de intensa campanha de bombardeio pelos EUA.


#bbcpm discute a autoridade constitucional de Trump para atacar a RPDC. De lei internacional, claro, ninguém nem cogita.

Claro que os neoconservadores em Washington não apreciam quando algum país levanta-se no caminho deles, motivo pelo qual o ex-presidente do Irã Mahmoud Ahmadinejad, que jamais, nem por um momento, baixou a guarda, recebeu oposição tão furiosa da imprensa. O Império quer sempre impedir que 'estados-alvo' desenvolvam capacidades para produzir armas nucleares, porque sabe que, se tiverem bombas atômicas, deixam de ser estados 'ameaçáveis'. Importante observar que os mais furiosos apoiadores da 'contenção nuclear' no ocidente são também os que mais furiosamente não admitem que países como Irã ou a República Popular Democrática da Coreia obtenham armamento atômico.

'Nós' precisamos de nukes para nos defender de ataques, mas tomamos como terrivelmente ofensivo se países no sul global, que 'nós' vivemos de ameaçar rotineiramente, procurem adquirir armamento equivalente para a mesma finalidade.

Para conter ataque dos EUA, a RPDC e de fato qualquer outro país que esteja na linha de tiro dos EUA, tem de convencer os doidos-por-guerra em Washington de que o custo desse tipo de ataque seria alto demais. Ser 'bom' e cantar "Give Peace a Chance" não muda os fatos. Sem esquecer que John Lennon, que escreveu e canta aquela canção foi morto a tiros, na calçada de casa.

Saddam implorava ao ocidente "Acreditem em mim. Não tenho armas de destruição em massa". Kim Jong-un faz exatamente o contrário e só faz promover as capacidades do seu país. Mas Kim sabe que só palavras não bastam; ele tem de mostrar que os projéteis norte-coreanos podem ser ameaça aos EUA. Por isso anunciou na 4ª-feira que está 'considerando atentamente' um plano para lançar quatro mísseis contra o litoral próximo da ilha de Guam, onde há bases dos EUA (
mapa).

Claro, a estratégia de Pyongyang é de alto risco, especialmente com personalidades voláteis como Donald Trump – que parece enlouquecido de desejo de atrair a aprovação dos neoconservadores, para evitar um possível impeachment – na Casa Branca.

A história recente, portanto, sugere fortemente que a RPDC, posicionando-se com os punhos cerrados e sem parar de falar em usar os próprios mísseis, está fazendo a coisa certa. A grande lição dos últimos 30 anos é, com certeza, que a contenção nuclear funciona. Se você é 'estado-alvo' dos EUA e não tem como conter os belicistas em Washington, você corre risco gravíssimo. Se não acredita, pergunte aos fantasmas de Slobodan Milosevic, Saddam Hussein e Muammar Gaddafi.



[1] Ver também "Coreia do Norte não se deixará intimidar", 9/8/2017, Workers.org, Editorial (trad. em Tlaxcala e em Blog do Alok) [NTs]

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