sábado, 19 de agosto de 2017

Empurrados pelos neocons, EUA e o mundo caminham para uma crise perigosa

 
Texto de The Saker – tradução de btpsilveira

Primeiro, o que escrevi no muro

Em outubro do ano passado escrevi uma análise denominada Os EUA estão prestes a encarar a pior crise de sua história e como o exemplo de Putin pode inspirar Trump e penso que está na hora de revisitá-la. Comecei aquele artigo analisando as calamidades que poderiam recair sobre os Estados Unidos se Hillary fosse eleita. Desde que isso não aconteceu (graças a Deus!), podemos ignorar essa parte com segurança e partir para minhas predições do que poderia acontecer se Trump fosse eleito. Eis o que escrevi:

Trump vence. Problema: ele estará completamente sozinho. Os neocons têm o controle total, repito: total controle do Congresso, imprensa, banca/finanças e dos tribunais. De Clinton a Clinton eles se infiltraram profundamente no Pentágono, Foggy Bottom (“Foggy Bottom” – apelido do Departamento de Estado, devido ao nome do bairro onde está instalado desde 1947 – NT), e nas agências de três letras. Seu quartel general é o FED. Como diabos Trump poderá lidar com esses “malucos no porão”, babando de ódio? Pense na campanha de rancor surdo que todas as “personalidades” (de atores a políticos e repórteres) lançaram contra Trump – eles queimaram todas as pontes, eles sabiam muito bem que perderiam tudo se Trump vencesse (e se ele se mostrar um bundão fácil de domar, sua eleição não fará a menor diferença). Os neocons nada tem a perder e lutarão até o último homem. Como Trump teria que agir para fazer alguma coisa antes de ser completamente cercado e anulado pelos neocons e seus agentes de influência? Nomear uma equipe totalmente diferente? Como emplacá-los? Sua primeira escolha – Pence como candidato a vice – já foi um desastre total (ele já está traindo Trump na Síria e quanto ao resultado das eleições). Eu tinha *medo* de ouvir quem Trump apontaria como Chefe de Gabinete da Casa Branca porque temia que apenas para tentar apaziguar os neocons, nomeasse uma nova versão do infame Rahm Emanuel... (político dos EUA, do partido Democrata, que foi Chefe de Gabinete da administração Obama de 2009 a 2010 – NT). Caso Trump prove que tem princípios e coragem, os neocons sempre podem arrumar um jeitinho de meter um “Dallas” nele e substituí-lo. Pence. Et voilá!

Sugeri então que a única opção de Trump seria seguir o exemplo de Putin e fazer com os neocons o que Putin fez com os oligarcas. Claramente, isso não aconteceu. Na realidade, um mês depois da eleição de Trump, escrevi outra análise intitulada “Pessoal, acabou! Os neocons e o ‘estado profundo’ castraram a presidência Trump”:

Há menos de um mês, alertei que uma “revolução colorida” estava em curso nos Estados Unidos. Meu principal elemento de prova era a assim chamada “investigação” que CIA, FBI, NSA e outras agências estavam conduzindo contra o candidato a se tornar Assessor para a Segurança Nacional do Presidente Trump, o General Flynn. Nesta noite, o plano para expulsar Flynn finalmente teve sucesso e ele ofereceu sua renúncia. Trump aceitou. Uma coisa quero deixar bem clara desde o início: Dificilmente Flynn poderia ser visto como um homem sábio ou um santo, que poderia, sozinho, salvar o mundo. Não é. No entanto, Flyyn era a pedra angular da política de Segurança Nacional de Trump. (…) Os neocons que governam o ‘estado profundo’ forçaram Flynn a renunciar sob o pretexto imbecil de que ele teve uma conversação telefônica através de uma linha aberta, insegura e claramente monitorada, com o embaixador russo. Pior: Trump aceitou a renúncia. Desde que adentrou a Casa Branca, Trump tem apanhado dia após dia, aparando golpes da mídia sionista governado pelos neocons, das “estrelas” duplipensar-mas-gente-boa (doubleplusgoodthinking, no original-NT) de Hollywood e até mesmo de políticos europeus. E Trump aparou cada golpe olimpicamente, sempre devolvendo cada pancada. Nunca se ouviu o seu famoso “você está despedido!”. Eu tinha esperanças. Queria ter esperanças, sentia que era meu dever ter esperanças. Agora, Trump nos traiu a todos. Volto a enfatizar: Flynn não é o meu herói. Mas, por todas as medidas, era o herói de Trump. E Trump o traiu. As consequências serão imensas. Por um lado, agora, Trump está claramente batido. O estado profundo levou apenas três semanas para castrar Trump e fazê-lo reverenciar os “que mandam mesmo”. Aqueles que poderiam estar na retaguarda de Trump sentirão que ele não estará na sua retaguarda e se afastarão dele. Os Neocons se sentirão encorajados com a eliminação de seu pior inimigo e baseados nessa vitória, vão pressionar mais fortemente, dobrando a aposta mais uma vez e outra, e outra... O estado profundo venceu, pessoal. Acabou.

Concluí então que as consequências dessa vitória poderiam ser catastróficas para os Estados Unidos:

Na sua corrida cheia de ódio contra Trump e o povo (norte)americano (também conhecido como “cesta de deploráveis”) os neocons estão sendo forçados a mostrar sua verdadeira face. Através de sua rejeição ao resultado das eleições, suas sublevações, sua demonização de Trump, os neocons têm mostrado duas coisas cruciais: primeiro, que a democracia dos Estados Unidos é uma palhaçada deplorável e que eles, os neocons, são um regime de ocupação que governa contra o desejo do povo (norte)americano. Em outras palavras, exatamente como Israel, os Estados Unidos não têm legitimidade. Desde que, também como Israel, os EUA não são mais capazes de assustar seus inimigos, eles nada mais possuem. Nem legitimidade, nem capacidade de coerção. Claro que os neocons venceram. Mas a sua vitória representou a perda da última chance que os EUA tinham de evitar um colapso.

Penso que estamos vendo hoje os primeiros sinais de um colapso iminente.

Os sintomas da agonia

Externamente, a política dos Estados Unidos está basicamente “paralisada” e em vez de uma política externa o que temos é apenas uma longa série de ameaças vazias lançadas contra uma lista de países demonizados aos quais agora se promete “fogo e enxofre” caso ousem desobedecer ao Tio Sam. Mesmo que isso renda ótimas manchetes, não pode ser qualificada como uma “política” seja lá como se olhe (discuti o assunto em profundidade durante uma entrevista que concedi a pouco tempo para o site SouthFront). Além disso há o Congresso que, na essência, tirou de Trump todos os poderes para conduzir a política externa do país. Esta forma ilegal e esquisita de “voto de desconfiança” também transmite a mensagem de que Trump ou é louco, ou traidor, ou ambos.

Internamente, as convulsões recentes em Charlottesville agora estão sendo debitadas na conta de Trump, que, depois de ser um agente de Putin, agora está sendo demonizado como um tipo de nazista (veja como Paul Craig Roberts alerta sobre o fato, uma e duas vezes quanto a essa dinâmica).

Em termos de organização, está claro que Trump está cercado de inimigos, como ilustrado pelo fato absolutamente ultrajante de que ele sequer pode falar com um líder estrangeiro sem que tenha a transcrição da conversa vazada para a Siomídia.

Acredito que são passos de preparação para disparar uma crise realmente grande, que será usada para remover Trump, ou por um processo de impeachment ou pela força, sob o pretexto da mencionada crise. É só prestar atenção nas mensagens que a Siomídia está enfiando nas mentes da população dos Estados Unidos.

A preparação psicológica para o golpe: assustar mortalmente a todos.

Eis três exemplos reveladores através de três capas da Newsweek:
 
(Em síntese, nas três capas a- Para Putin, é hora de receber b- O plano contra os Estados Unidos e c- Briga de namorados – NT)
Pergunte a você mesmo: qual a mensagem que se quer transmitir?
Nada menos que: Trump é um traidor, trabalha para Putin, o qual quer destruir a democracia nos Estados Unidos e estes dois homens são os mais perigosos do planeta. É um “plano contra os EUA”!

Nada mau, é ou não é?

“Eles” estão lá fora para “nos” pegar e “nós” estamos todos em terrível perigo: Kim Jong-un está a ponto de declarar uma guerra nuclear contra os Estados Unidos, Xi e Putin estão ameaçando o mundo inteiro com suas armas e “nosso” próprio presidente só alcançou o poder graças à “KGB Russa” e aos “Hackers de Putin”, ele agora trabalha para os russos, é claramente um nazista, um supremacista branco, um racista, e talvez, um “novo Hitler” (como o próprio Putin, claro).

Daí há aqueles muçulmanos realmente assustadores, e árabes fanáticos que aparentemente só tem um objetivo na vida: destruir “nosso modo de vida” e matar a todos os “infiéis”. É por isso que precisamos do TSA (Departamento de Segurança nos Transportes – NT) 16 agências de inteligência e equipes da polícia militarizada SWAT por todo lado: para quando os terroristas vierem nos buscar aqui onde vivemos.

Consequências internacionais perigosas

Seria hilariante se não fosse também extremamente perigoso. Por um lado, os Estados Unidos estão realmente provocando um inimigo perigoso quando tenta constantemente assustar Kim Jong-un e a liderança da República Popular Democrática da Coreia (Coreia do Norte). Não, não é por causa das bombas nucleares norte coreanas (que muito provavelmente não tem ICBMs armados com bombas nucleares, mas uma combinação não necessariamente compatível de mísseis balísticos de médio alcance e “dispositivos” nucleares) mas por causa do exército convencional da Coreia do Norte, enorme e difícil de destruir. A ameaça real não está nos mísseis, mas numa combinação mortal de artilharia convencional e forças especiais as quais pouco representam em termos de perigo para os Estados Unidos ou para o exército dos EUA, mas são uma ameaça duríssima para a população de Seul e da parte norte da Coreia do Sul. Bombas nucleares, seja de que forma se apresentem, são mesmo um problema adicional, uma cobertura tóxica em um já perigoso “bolo convencional”.

[Barra lateral – pesadelo da vida real: agora, se você *realmente* quer ficar aterrorizado e acordado durante a noite, então considere o seguinte: Embora pessoalmente acredite que Kim-Jong-un não é louco e que o objetivo principal da liderança norte coreana seja evitar a guerra a qualquer custo, e se eu estiver errado? E se aqueles que dizem que a liderança norte coreana é totalmente insana estiveram certos? Ou, o que penso ser muito mais provável, e se Kim Jong-un e os demais líderes da Coreia do Norte chegarem à conclusão de que não tem mais o que perder, que os (norte)americanos estão indo para matá-los, junto com familiares e amigos? Se em teoria assim desesperados, o que eles podem fazer? Bem, vou dizer a vocês: esqueça Guam; pense sobre Tóquio! Na realidade, enquanto a Coreia do Norte pode devastar Seul mesmo com sistemas de artilharia antigos, pode também muito provavelmente ser capaz de atingir com seus mísseis a capital Tóquio ou a região de Keihanshin que inclui Kioto, Osaka e Kobe, assim como a região Industrial de Hanshin com suas indústrias de importância crucial para o Japão. A Grande Tóquio (região de Kanto) e a região de Keihanshin são densamente povoadas (37 e 20 milhões de pessoas respectivamente) e englobam um número imenso de indústrias, muitas das quais produzirão um desastre ambiental de proporções titânicas se atingidas com mísseis. Não só isso, mas bombardeios nos nódulos econômicos e financeiros do Japão resultarão muito provavelmente em um colapso econômico internacional do tipo 11/09 com torres gêmeas e tudo. Assim, se os norte coreanos quiserem, mas quiserem mesmo machucar os (norte)americanos, o que podem fazer é atingir Seul e cidades chaves no Japão, o que resultará em uma crise política dolorosíssima para o planeta inteiro. Durante a Guerra Fria costumávamos estudar as consequências de um bombardeio soviético contra o Japão e a conclusão era sempre a mesma: o Japão não se pode dar ao luxo de uma guerra de nenhum tipo. O território nacional japonês é tão pequeno, tão densamente povoado, tão rico em alvos lucrativos que uma guerra destruiria o país inteiro. Era verdade naquela época e continua sendo verdade. Só que agora é ainda pior. Imagine só a reação na Coreia do Sul e no Japão se algum louco dos Estados Unidos bombardear a Coreia do Norte e o resultado for Seul e Tóquio sendo atingidos por mísseis! Aliás, os sul coreanos já declararam sua posição nos termos mais claros possíveis. Já os japoneses estão colocando oficialmente suas esperanças em mísseis (como se a tecnologia mitigasse as consequências da loucura!). Então amigos, a Coreia do Norte é sim extremamente perigosa e encurralar sua liderança até um último recurso desesperado é de fato totalmente irresponsável, bombas nucleares ou não.]

O que estamos a observar agora é um ciclo de reação positiva no qual cada movimento dos neocons resulta em uma desestabilização cada vez mais profunda do sistema como um todo. Desnecessário dizer que isso é muito perigoso e só pode resultar em uma eventual catástrofe ou colapso. De fato, os sinais são de que os Estados Unidos estão perdendo totalmente o controle em todos os lugares e aqui estão algumas manchetes que podem ilustrar a assertiva:


Existe um ditado francês que diz: “quando o gato sai de férias, os ratos fazem a festa”, e isso é exatamente o que está acontecendo agora: os Estados Unidos estão ao mesmo tempo fracos e basicamente ausentes. Como dizem os armênios, “o rato sonha sonhos em que pode assustar o gato”. Bem, o “rato” do mundo está dançando e sonhando e simplesmente ignorando o “gato”. Todo movimento do gato só torna as coisas ainda piores para ele. O mundo segue adiante enquanto o gato está ocupadíssimo destruindo a si mesmo.

Consequências domésticas perigosas

Em primeiro lugar na minha lista, coloco os distúrbios raciais. Na realidade, eles estão acontecendo por todos os Estados Unidos, mas raramente são mostrados como tal. Não estou falando sobre as agitações “oficiais” do Black Lives Matter, que já são ruins o suficiente. Falo sobre mini sublevações que a imprensa oficial sistematicamente tenta esconder. Os que estiveram interessados neste tópico podem ler o livro de Colin Flaherty Não enraiveça as crianças negras - Don’t Make the Black Kids Angry que mostra que ataques racistas de negros contra brancos (conhecidos como “caçando o urso polar”) estão em crescimento em praticamente todo lugar. Da mesma forma, para todos os que surpreendentemente persistem ignorando a forte correlação entre raça e crime deve ler a análise seminal de Ron Unz Race and Crime in America. Bem, antes que alguém que pensa que é voluntário policial autonomeado me acuse de racismo, não estou dizendo nada sobre as causas dos problemas raciais nos Estados Unidos. Digo apenas que a violência racial nos Estados Unidos é severa e está crescendo exponencialmente.

O Segundo problema que percebo como muito ameaçador para a sociedade dos Estados Unidos é a deslegitimação extremamente rápida de todo o sistema político do país e, especialmente, do governo federal. Neste momento já por décadas os (norte)americanos votam para obter “A” e acabam tendo que suportar algo “não A”. Os exemplos podem incluir o já famoso “leia meus lábios, não haverá aumento de imposto” (frase de George H. W. Bush na convenção do partido Republicano em 1988. Sabemos que não foi assim que aconteceu em seu governo... NT) claro, mas Obama também prometeu parar com guerras estúpidas e agora Trump por sua vez, prometera “drenar o pântano”. Os (norte)Americanos foram enganados por décadas mas agora eles já sabem disso.

Há um abismo cada vez maior entre os assim chamados “valores (norte)americanos” ensinados nas escolas e a realidade do exercício do poder. Enquanto oficialmente os EUA supostamente deveriam defender todas aquelas coisas honradas e éticas ensinadas por nossos pais fundadores, a realidade corrosiva é que os Estados Unidos estão deitados na mesma cama com terroristas Wahabis, com nazistas e sionistas. Toda a hipocrisia que neste momento ameaça derrubar ao chão todo o sistema político dos Estados Unidos não é diferente da hipocrisia que prevalecia no antigo sistema soviético e que derrubou a União Soviética (se estiver interessado, você pode ler mais a respeito aqui). A singela verdade é que nenhum regime pode sobreviver por muito tempo quando dá suporte ativo ao exato contrário do que deveria apoiar. O resultado? Ainda estou para encontrar um (norte)americano adulto que acredite sinceramente que ele/ela ainda “vive na terra da liberdade e lar dos bravos”. Talvez crianças ainda comprem esse blefe, mas até adolescentes sabem que isso não passa de um monte de bobagens.

Terceiro, apesar de todas as estatísticas encorajadoras sobre o Dow Jones, o desemprego está em crescimento e a realidade é que a sociedade dos Estados Unidos está se transformando rapidamente em um dos três tipos a seguir: no topo, um pequeno número de pessoas obscenamente ricas, e logo abaixo e a seu serviço, um número de profissionais bem qualificados, serviçais desses homens podres de ricos, lutando desesperadamente para manter um estilo de vida que até pouco tempo era associado com a classe média (norte)americana.

E então, vem a grande maioria dos cidadãos que na essência estão em busca e fazendo “o possível para conseguir um salário mínimo e mais um pouquinho” e que sobrevive basicamente sem pagar seguro de saúde, trabalhando normalmente em dois empregos, comendo comida barata e recebendo “pão e circo moderno” (em inglês, palavra intraduzível – PROLEFEED – a qual foi usada no livro “1984” de George Orwell, significando entretenimento barato e de má qualidade e notícias falsas [alguém aí falou ‘Rede Globo’?] que eram empurradas goela abaixo das massas pelo Partido. Fazia parte da linguagem “NEWSPEAK”, usada (no livro) pelos povos da Oceania – NT) e desistindo totalmente de coisas que eram comuns a todos os trabalhadores dos EUA nos anos 50 e 60 (ter um dos genitores morando em casa, tirando suas férias, mantendo uma casa de campo, etc.).

Normalmente, (norte)Americanos trabalham muito e, até agora, a maioria deles consegue sobreviver, mas grande parte deles está à distância de um cheque de pagamento da pobreza total. Um monte deles só consegue sobreviver (mal) porque recebem ajuda de seus pais e avós (o mesmo se pode dizer do sul da Europa, aliás). Um grande segmento da população dos Estados Unidos sobrevive agora apenas por causa da Walmart e da Dollar Store. Se estas falirem, os cupons de alimentação serão a última saída. Ou a cadeia, claro.

Combine isso tudo e você tem uma situação potencialmente explosiva. Não é de admirar que quando tantos (norte)americanos ouviram Hillary Clinton comentar sobre a “cesta de deploráveis” tenham tomado a fala como uma declaração de guerra.

Então, o que os neocons planejam fazer agora a respeito disso tudo?

Reprimir com força a liberdade de expressão e a divergência, claro! Que mais?

Resposta única: Repressão, logicamente!

YouTube, Google, Facebook e Twitter – todos estão reprimindo os “maus discursos” que aliás incluem muito mais do que o que uma espécie comum de auto descrito “liberal” teria desaprovado. GoDaddy e Google estão até derrubando alguns domínios e seus administradores. Claro que ninguém será jogado na cadeia por, digamos, defender a segunda emenda, mas são “desmonetizados” e suas contas simplesmente são fechadas. Não são os policiais armados que derrubam a liberdade de expressão, são as “Corporações dos EUA”, mas o efeito é o mesmo. Aparentemente, os neocons não conseguem entender que a censura simplesmente não funciona na era da internet. Ou talvez entendam e estejam deliberadamente tentando disparar um retrocesso?

A seguir existe uma campanha de vilificação pela imprensa: a menos que você seja de algum tipo de “minoria”, você assumidamente é nefasto por nascimento e culpado por todos os males do planeta. Aliás, o seu líder é Trump, claro, ou talvez seja Putin em pessoa, vide supra. Cristão heterossexual macho? Melhor procurar uma toca para se esconder...

Seja qual for o caso, através de sua insistência maníaca para, por um lado humilhar e destruir Trump e pelo outro, reprimir milhões de (norte)americanos, os neocons estão cometendo um erro duplo. Primeiro, eles estão mostrando a própria face real e segundo, estão subvertendo as próprias instituições que usam para controlar e governar o país. Claro que tais ações só fazem enfraquecer os próprios neocons e os Estados Unidos e vai acelerar o ciclo de reação positiva mencionado acima com novas ameaças a todo o sistema internacional.

Nós e eles

O que faz o colapso gradual do Império AngloSionista tão singularmente perigoso é que se trata do maior e mais poderoso império da história da humanidade. Nenhum império jamais gozou do monopólio quase total do poder como os Estados Unidos desde a Segunda Guerra Mundial. Por qualquer medida, militar, econômica, política ou social, os EUA depois da Segunda Guerra se tornou um gigante e embora tenham acontecido alguns contratempos durante as décadas subsequentes, o colapso da União Soviética só reafirmou o que parecia então uma vitória total dos Estados Unidos. Em minha opinião, admitidamente subjetiva, o último presidente competente (pera aí, eu não disse “bom”, disse “competente”) dos Estados Unidos foi George Herbert Walker Bush que, ao contrário de seus sucessores, ao menos sabia como administrar um Império. Depois disso, está sendo na base da ladeira abaixo, cada vez mais rápido. Se Obama provavelmente foi o mais incompetente presidente da história dos EUA, Trump será o primeiro a ser oficialmente linchado em pleno exercício. Como resultado, o Império AngloSionista se tornou um grande trem de transporte que perdeu a locomotiva mas que ainda tem um imenso poder de inércia puxando para o desconhecido e sem ninguém no controle. O resto do planeta, com a exceção já irrelevante dos europeus ocidentais, está apressadamente saindo horrorizado do caminho do trem desgovernado. Até agora, os trilhos (bom senso comum mínimo, realidades políticas) estão mais ou menos em compasso de espera, mas um acontecimento de inopino (político, econômico ou militar) pode acontecer a qualquer momento. Tudo muito, mas muito mesmo, assustador.

Os Estados Unidos tem algo entre 700 a 1000 bases militares em todo o mundo, todo o sistema financeiro internacional está profundamente emaranhado na economia do país, o dólar dos Estados Unidos ainda é a única real moeda de reserva, os títulos do Tesouro dos EUA são adquiridos por todos os atores internacionais importantes, (entre eles Rússia e China), o sistema SWIFT é controlado politicamente pelos Estados Unidos e o país é o único no mundo que pode imprimir quanto dinheiro queira e, no final mais não menos importante, os Estados Unidos tem um enorme arsenal nuclear. A soma de tudo é que o colapso dos Estados Unidos ameaça a todos e isso significa que ninguém pode desejar ser o causador dessa queda. O colapso da União Soviética ameaçou o restante da humanidade por uma única razão: seu arsenal nuclear. Em contraste, qualquer derrocada dos Estados Unidos pode ameaçar a todos nós de várias maneiras.

Então a pergunta real a responder é: o resto do mundo pode evitar um colapso catastrófico do Império AngloSionista?

Esta é a suprema ironia da situação: mesmo sabendo que o resto do planeta está enojado e cansado da arrogância incompetente dos AngloSionistas, ninguém quer  de verdade que o Império desabe catastroficamente. Mesmo assim, com os neocons no poder, o colapso parece inevitável, com as suas devastadoras consequências para todo o mundo.

É realmente incrível quando descobrimos: todos odeiam os neocons, não só a maioria do povo (norte)americano, mas na realidade o mundo todo. Mesmo assim, numericamente um pequeno grupo de pessoas de alguma forma manejou para colocar todo o mundo em perigo, até eles mesmos, devido ao seu impenitente desejo de vingança, arrogância sem fim e falta de visão induzida pela ideologia fanática. Que isso tenha chegado a essa escala planetária é um testemunho dramático da decadência moral e espiritual de nossa civilização. Como deixamos as coisas chegarem tão longe?

Chegamos à próxima questão óbvia: ainda seremos capazes de impedi-los?

Honestamente, não faço ideia. Espero que sim, mas não tenho certeza. Minha maior esperança era que Trump fosse capaz de sacrificar o Império em benefício dos Estados Unidos (o contrário do que os neocons estão fazendo: sacrificando os EUA pelo benefício de seu Império) e que ele poderia administrar uma transição relativamente segura e não violenta do império para um “país normal” para os Estados Unidos. Seguramente, isto não está acontecendo. Em vez disso, os neocons estão agora ameaçando tudo e todos: os chineses, os russos, os norte coreanos e claro, os venezuelanos. Mas também (economicamente) os europeus, o Oriente Médio inteiro (através do tema “no Oriente Médio, só democracia”), todos os países em desenvolvimento e até o povo (norte)americano. Ora, eles estão ameaçando até o presidente dos Estados Unidos e olhem que nem tão sutilmente assim!

E daí, o que vem depois?

Realmente não sei. Mas tenho a sensação forte de que Trump será removido do gabinete, seja por “crimes ou contravenções” ou por “razões médicas” (podem simplesmente declarar sua insanidade e incapacidade para exercer a presidência). Como sabemos o quão fraco e invertebrado é Trump, ele pode até ser “convencido” a renunciar. Não o vejo sendo assassinado porque ele simplesmente não tem a estatura moral de um Kennedy. Depois disso, Pence assumiria o poder e poderia ser apresentado em um evento maravilhoso, um abraço comunal das elites, seguida por uma destruição sem piedade e imediata de qualquer forma de oposição ou dissenção política, as quais seriam imediatamente qualificadas como racistas, homofóbicas, antissemíticas, terroristas e etc. A mão maldita da “KGB russa” (sei, sei… nós sabemos que a KGB foi dissolvida em 1991) será encontrada em todos os lugares, entre os libertários dos Estados Unidos (que provavelmente serão os únicos com cérebro suficiente para entender o que estaria realmente acontecendo).

A (pseudo) “esquerda” se rejubilará. Caso aconteça de existir uma resistência mais acirrada, bastará um cenário com mais um acontecimento regional ou social no estilo 11/09, seguida de uma guerra qualquer (afinal, por que deixar de lado algo que funcionou tão bem da primeira vez?). A menos que os Estados Unidos resolvam reinvadir Granada ou dar a Nauru um golpe que o minúsculo país insular já está merecendo, qualquer guerra mais ou menos real atualmente resultará em fracasso retumbante para os Estados Unidos, ao ponto de que para os neocons, usar armamento nuclear se tornará um risco real e iminente, especialmente se alvos simbólicos dos Estados Unidos, como porta aviões, forem atingidos (em 1991, quando a 8ª Divisão Aerotransportada dos EUA foi mandada para o Iraque, não existia nada entre essa força de infantaria ligeira e as divisões blindadas iraquianas e se os iraquianos tivessem atacado, bastaria usar uma arma nuclear tática. Em breve, isso seria convenientemente esquecido).

Há uma razão pela qual os neocons prosperam em tempos de crise: esta permite que eles fiquem escondidos por trás da tormenta, especialmente quando, por sinal, foram eles mesmos os causadores do caos. Isso quer dizer que enquanto eles estiverem no poder, nunca, mas nunca mesmo, permitirão que a paz ressurja subitamente, porque então os holofotes seriam dirigidos diretamente contra eles. Caos, guerras, crises – este é o seu ambiente natural, onde vicejam.

Pense nisso como uma espécie de subproduto de sua existência. Claro que eventualmente eles serão interrompidos e derrotados, como todos os seus predecessores o foram no decorrer da história. Mas desta vez, fico aterrorizado ao pensar no preço que a humanidade terá que pagar.

The Saker.



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