quarta-feira, 16 de agosto de 2017

EUA: Se não der certo, culpe a China


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Texto de Finian Cunningham, tradução de btpsilveira

A economia despedaçada dos Estados Unidos é corroborada pelo déficit crônico que o país tem com o resto do mundo. Na realidade, os Estados Unidos não podem culpar a ninguém a não a si mesmos pelo seu fracasso histórico.

Mas numa faceta tipicamente chauvinista, a administração Trump encontrou um bode expiatório conveniente ao culpar a China – seu principal parceiro bilateral. O presidente Donald Trump ordenou nesta semana um processo contra as alegadas práticas maliciosas da China, entre as quais roubo de propriedade intelectual e subsídios injustos.


As supostas queixas contra a China formaram a maior parte de sua campanha eleitoral no ano passado, quando o magnata-que-virou-político arrebanhou apoiadores nos estados dominados pela ferrugem industrial com afirmações emotivas de que a China estaria “estuprando nossa economia”.

O que Trump está fazendo agora é afirmar que está cumprindo suas promessas eleitorais ao “ser durão com a China”. Anunciando medidas comerciais repressivas nesta semana, o presidente afirmou: “temos que defender nossos valores e nossos trabalhadores e proteger nossas inovações, criações e as invenções que empoderam nosso magnífico país”.

A China, por sua vez, tem alertado que se Trump seguir o caminho das ameaças de imposição sobre exportações chinesas, isso iniciará uma guerra comercial que poderá causar danos imensos para as duas economias e para o resto do mundo.

A descrição apresentada por Trump dos problemas com a China também está alimentando o crescimento interno da xenofobia e problemas políticos racistas nos Estados Unidos. O presidente está sofrendo pressão para desautorizar os grupos supremacistas brancos como a Ku Klux Klan, depois dos protestos que chegaram a causar uma morte na Virginia no último final de semana.

No entanto, sua retórica jingoísta (Jingoísmo – doutrina política de direita radical surgida na Inglaterra e representada, entre outras coisas, por um nacionalismo exacerbado que desagua em uma política externa muito agressiva - NT) de culpar os estrangeiros pelas desventuras sociais e econômicas dos Estados Unidos é um abraço tóxico na demagogia, que alimenta os sentimentos reacionários da extrema direita.

Trump tem o hábito odioso de culpar todo o mundo pelos problemas atuais dos EUA. Em sua visão transnacional abjeta de mundo, todas as outras nações estão levando vantagem em cima dos “Estados Unidos, coitadinhos”.

Dessa forma, o México estaria patrocinando “uma debandada” através das fronteiras com os EUA; o acordo nuclear com o Irã estaria “pior do que nunca”; o Acordo Climático de Paris seria outro “acordo prejudicial” que visa o prejuízo das empresas (norte)americanas; europeus não querem pagar pela OTAN; a Alemanha está inundando o mercado (norte)americano de veículos; e por aí em diante, ad nauseam...

O antigo tubarão imobiliário de Nova Iorque gosta de se apresentar como um gênio dos negócios. (Muitos se perguntam como ele teria se saído se não tivesse herdado um milhão de dólares de seu pai rico para começar a vida).
Em todo caso, Trump parece mais um filhinho do papai que um empreendedor engenhoso. Sua tendência é culpar tudo e todos pelos fracassos e oferecer a seguir uma solução miraculosa qualquer.

Nas supostas disputas comerciais com a China, pode até soar bem o pessoal que votou em Trump essa arenga toda contra as supostas infrações de propriedade intelectual e roubo de tecnologia. Mas vilificar a China pelo declínio econômico e social dos Estados Unidos pode se tornar uma fraude perigosa.
Trump ataca a China por supostamente ser responsável pelo déficit comercial dos EUA com o país oriental – cerca de $350 bilhões de dólares em 2016. Afirma que o superávit nas exportações chinesas para os Estados Unidos acontece por que a China estaria roubando tecnologia e copyrights (norte)americanos e inundando o mercado dos EUA com bens falsificados.

Mas, convenientemente, Trump esquece de dizer que os Estados Unidos tem um déficit comercial total com o resto do mundo que representou $740 bilhões de dólares em 2016, de acordo com números apresentados por seu próprio governo. Logo depois da China, o comércio dos EUA com a União Europeia tem déficit de cerca de $150 bilhões de dólares.

Isso significa que os europeus também estão roubando propriedade intelectual (norte)americana e trapaceando a economia dos EUA com práticas comerciais injustas?

Não. Quer dizer apenas que a economia dos EUA definhou ao ponto de depender das importações do resto do mundo. A base manufatureira dos Estados Unidos foi destruída. O desequilíbrio comercial crônico e a dependência de importações nos Estados Unidos estão acontecendo pelo menos desde os anos 80. Pelas últimas três décadas, o déficit comercial dos EUA se expande implacavelmente, de cerca de $100 bilhões em 1990 para os atuais $740 bilhões de dólares anuais.

Tentar culpar a China pelo declínio abismal dos Estados Unidos como faz Trump, não passa de um truque de artista canastrão. Pode funcionar com pessoas que têm preconceitos contra estrangeiros e noções ilusórias de um suposto “excepcionalismo” (norte)americano – mas esse tipo de visão do todo é totalmente falsa.

A verdade é que não se deve culpar as nações estrangeiras pelo esfacelamento social e econômico dos EUA, mas os próprios (norte)americanos. Estamos falando especificamente de empresas (norte)americanas e de oligarcas como Trump, que mandaram as fábricas indiscriminadamente em busca de mercados de trabalho barato como a China, destruindo implacavelmente a força de trabalho dos EUA.

Trump, juntamente com a filha Ivanka, são proprietários de negócios globais a varejo cujos cosméticos e roupas são fabricados na China e exportados para os Estados Unidos, contribuindo dessa forma para o déficit comercial de seu próprio país.

O fracasso histórico da economia (norte)americana é o conto de como o capitalismo é eventualmente destinado ao declínio. A busca insaciável por lucros financeiros como objetivo único inevitavelmente leva à destruição do próprio país e de seus compatriotas se isso significar a maximização de lucros em outros países.

Por mais de trinta anos, os trabalhadores dos EUA e suas comunidades tem sido dizimados por capitalista como Trump e outros oligarcas que não têm escrúpulos em trair seus compatriotas para fazer mais dinheiro em outros locais além mar.

O processo predatório de deslocalizar os empregos (norte)americanos para lugares como a China é o motivo pelo qual a economia e a sociedade dos EUA estão sangrando até a morte. É uma ironia amarga que Trump venha agora culpar a China pela predação que as suas próprias corporações (entre outras) fizeram.

Também se trata, sem dúvida, de uma coisa odiosa. Com seus remédios fraudulentos para consertar a economia do país, Trump agora parece disposto a iniciar uma guerra comercial com a China.

Numa época já convulsionada com tensões que colocam a segurança em risco entre Estados Unidos e China, Rússia, Coreia do Norte, Venezuela, Síria e Ucrânia, entre outras nações, Trump demonstra ter atingido os píncaros da imprudência, enfurnado dentro da Casa Branca, ao escalar as tensões ainda mais com uma guerra comercial espúria.

Já existem recriminações suficientes entre os Pequim e Washington, com as exibições de músculos militares nas disputas territoriais do Mar do Sul da China. Uma guerra comercial só fará exacerbar as hostilidades.

A China já avisou que vai retaliar se Trump resolver trilhar o caminho perigoso de uma guerra comercial. Caso a China resolva reorientar suas exportações para outras partes do Planeta ou se desfazer de seu imenso montante em participações em dólares (norte)americanos o impacto sobre a economia dos EUA seria brutal. A inflação sobre os bens de consumo explodiria, prejudicando ainda mais milhões de (norte)americanos de baixa renda.

Como se pode ser mais cínico? Trump e sua rica família são a encarnação de como os trabalhadores (norte)americanos acabaram sendo empobrecidos depois de décadas de rapacidade da América do Norte corporativa. Agora, Trump tenta empurrar para os trabalhadores empobrecidos uma explicação fraudulenta para a sua miséria – querendo fazer da China um bode expiatório para a guerra comercial – a qual fará aumentar ainda mais a pobreza.

Nos esquemas fraudulentos das negociações imobiliárias isso se chama “tosar o cliente duas vezes”. Nestes esquemas, Trump é mestre consumado.

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