sábado, 12 de dezembro de 2015

O fiasco das “conversações oposicionistas” bancadas pelos sauditas

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por Mike Whitney - http://www.opednews.com/articles/The-Saudi-Hosted-Oppositi-by-Mike-Whitney-Al-Qaeda_Assad_Isis_Jihadists-151211-39.html
tradução por mberublue

Um plano liderado pelos sauditas para estabelecer uma união política entre os grupos “moderados” da oposição síria ruiu nesta quarta feira quando uma milícia islâmica poderosa se recusou a participar do encontro depois que suas reivindicações foram rejeitadas. A Ahrar al-Sham, um amálgama radical de extremistas wahabistas e fanáticos jihadistas retiraram-se do conciliábulo anti Assad porque, de acordo com o Washington Post “alguns de seus comentários e recomendações foram ignorados no encontro”.


Sem nenhuma surpresa, o Post mais uma vez foi falho em explicar exatamente o que querem dizer os tais “comentários e recomendações”. A razão é muito simples de entender. A mídia institucional não quer que o povo (norte)americano saiba que o que a imprensa chama de “milícias moderadas” que seu governo apoia atualmente são formados por maníacos homicidas que estão determinados a derrubar um governo secular para colocar em seu lugar um Califado Islâmico. A seguir algumas das “demandas” desses grupos que não aparecem na mídia ocidental:

1 Todo o pessoal do exército russo e  iraniano devem deixar a Síria.
2 O Exército Árabe da Síria (SAA – Syrian Arab Army) deve ser desmantelado, bem como suas unidades paramilitares.
3 A Síria deverá se tornar um Estado Islâmico.
4 Não haverá negociação com o Governo Sírio.
5 Lutar contra o Estado Islâmico é objetivo secundário porque os rebeldes perderam membros de suas famílias durante a guerra com o Exército Árabe da Síria.
6 Uma Síria secular só serve para dar mais poder ao Estado Islâmico

A Ahrar al-Sham pode ser qualquer coisa, menos moderada. De acordo com o Telegraph, “O grupo foi instituído por jihadistas e incluído originalmente entre os internacionalmente conhecidos jihadistas com laços fortes e antigos com a al-Qaeda”. O grupo extremista recebe apoio e financiamento da Arábia Saudita, a qual por sua vez é um país que se opõe de forma veemente a qualquer governo democrático, com uma longa historia de apoio a organizações terroristas e cujos cidadãos  eventualmente condenados por feitiçaria podem vir a ser decapitados. Toda e apenas a ideia de que tais falsas negociações possam ter acontecido na capital do terrorismo no planeta é risível.

De acordo com o New York Times: “todas as partes assinaram uma declaração final que estabelece que se manterá a unidade do Estado Sírio e construir um governo representativo civil que poderia governar o país depois de um período de transição que teria início depois da derrubada de Assad e seus apoiadores”. ("Rebeldes sírios formam bloco para retomar negociações de paz," New York Times)

Soa bonito, mas o que o Times “esquece” de mencionar é que todas estas condições já foram inseridas nos acordos prévios de Genebra, pela insistência de Rússia e Irã. Caso prevaleça a democracia na Síria, será apenas porque a Rússia e o Irá não aceitariam nada menos que isso.

Mais do New York Times:

 “Nos dois dias do encontro bancado pelo governo da Arábia Saudita, que terminaram na quinta feira, mais de 100 líderes oposicionistas criaram uma nova alta comissão para supervisionar as negociações com o governo... a alta comissão consta de 33 membros, um terço dos quais representando facções armadas. Eles deverão selecionar um time de 15 pessoas que estarão presentes nas negociações que devem começar em janeiro...”

“Mohammed Baerakdar, representante do Exército do Islã, uma das brigadas armadas, disse que o apoio estrangeiro não foi suficiente para alcançar a vitória, então eles estavam à busca de uma solução política.”

“Nós não pegamos em armas para derramar sangue, mas para evitar isso”. (New York Times)

A verdade é que a tal “alta comissão” não terá qualquer impacto significativo nas futuras negociações porque seus líderes não representam os maiores nem os mais poderosos grupos de lutadores no terreno. Os maiores e mais poderosos grupos são o Exército Árabe da Síria (SAA), a Jahbat as-Nusra (e outras milícias ligadas à al-Qaeda), Estado Islâmico e as Unidades de Proteção do Povo Curdo ou YPG. Nenhum desses grupos participou das conversações sauditas, mesmo levando em conta que seus representantes terão um papel de destaque para determinar o futuro do país.

Quanto à declaração de Baerakdar de que “não pegamos em armas para derramar sangue, mas para evitar isso” não passa de uma deslavada falsidade. Na realidade a maioria dos lutadores em terreno sírio hoje, são grupos estrangeiros fundados, armados e treinados pela Arábia Saudita, Turquia e principalmente Estados Unidos. Seu trabalho não passa de uma ordem para destruir do país em pedaços para derrubar Assad, colocando em seu lugar um fantoche submisso, dividindo o país da melhor maneira para os interesses comerciais e estratégicos dos principais perpetradores da tragédia síria.

A ideia de que veículos de mídia com a proeminência do New York Times ou do Washington Post podem levar a sério um encontro patrocinado pela Arábia Saudita para conversações de paz é simplesmente incompreensível. Será que alguém precisa ser lembrado de que 15 dos 19 sequestradores de aviões do 9/11 vieram da Arábia Saudita, ou que os reis sauditas têm fundado e armado organizações terroristas pelos últimos 30 anos, ou que Riad está atualmente apoiando muitos dos militantes sunitas que hoje executam sua guerra por procuração na Síria?

Os sauditas sempre estiveram mergulhados até o pescoço no terror; de fato, o terrorismo parece ser uma espécie de “esporte nacional” da Arábia Saudita, assim como o futebol no Brasil ou o beisebol nos Estados Unidos. O problema é que – pelo menos desta vez – parece que suas táticas de terrorismo estão levando um banho de água fria, apanhando como boi na horta da coalizão liderada pela Rússia, daí eles resolveram aplicar seu plano B, uma estratégia política para unir a oposição anti Assad e teoricamente melhorar suas chances de sucesso na nova rodada de negociações em Viena.


Mas como poderiam ter sucesso as medidas tomadas pelos sauditas?

A seguir um trecho do Washington Post que coloca tudo preto no branco:

“Falando em uma conferência de imprensa na manhã de quinta feira o Ministro de Relações Exteriores da Arábia Saudita, Adel Al-Jubeir disse que Assad tem duas escolhas: ou sai através de negociações ou será tirado coercitivamente do poder, pela força”. (Grupos da oposição na Síria definem quadros para as negociações  de paz) Washington Post

Bem, então, na realidade nada mudou, é ou não é? Todo o fiasco vergonhoso sobre as tais convocações para “conversações” não passam de cortina de fumaça para ocultar o objetivo real que é a mudança de regime.

Será que alguém acredita mesmo que a Rússia e o Irã serão enrolados com essas conversinhas manhosas sobre “negociações da oposição”?

Não nesta vida. Em nenhuma hipótese permitirão que esses malucos estrangeiros da Chechênia, da Libia ou da Arábia Saudita decidam o futuro da Síria. Esse futuro será delineado pelo povo sírio, exatamente da forma decidida no Comunicado de Genebra sobre todo esse assunto: Autodeterminação do povo sírio e eleições livres. São essas as pedras de fundação que são necessárias para refundar o Estado Sírio, mas a refundação do país não pode ter início enquanto não cessar toda interferência estrangeira, possibilitando um diálogo honesto entre todos os interessados quanto à melhor forma de agir para o futuro.

Mike Whitney



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