terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Resultado de imagem para Alexander MercourisIrã X EUA: deu Irã.

18 de janeiro de 2016 – Alexander Mercouris
tradução de btpsilveira

O levantamento das sanções é uma vitória inequívoca do Irã, fortalecendo sua posição no cenário regional e deixando intacta sua capacidade nuclear.

As sanções, para começo de conversa, nunca deveriam ter sido impostas, mas a confirmação da suspensão delas é uma vitória importante para o Irã, de forma cabal.


Como eu disse em um artigo que escrevi para a agência Sputnik em abril do ano passado, tudo sugeria que o Irã realmente teve por algum tempo a intenção de manter um programa para a obtenção de armas nucleares.

No entanto, o programa iraniano nunca teve a intenção de ameaçar os Estados Unidos, ou Israel ou ainda – desnecessário dizer – a União Europeia.

A liderança iraniana sempre esteve consciente de que um programa nuclear que tivesse como alvo esses países mais provavelmente serviria para provocar um ataque contra o Irã do que como contenção, e o Irã talvez não sobrevivesse ao ataque.

Em vez disso, o programa nuclear iraniano tinha a intenção de servir como contenção de um ataque nuclear de seu maior inimigo regional – o Iraque de Saddam Hussein – que, como é sabido, tinha um  programa destinado a fabricar armas nucleares na década que antecedeu a Guerra do Golfo de 1991.

Tendo lutado uma Guerra amarga contra Saddam Hussein entre 1980 e 1988, o Irã não se podia dar ao luxo de permitir que o Iraque adquirisse armas nucleares enquanto permanecia desarmado. É compreensível que a liderança iraniana tenha procurado conter o programa de armas nucleares de Saddam através de seu próprio programa.

No entanto, todas as evidências apontam para o fato de que o programa iraniano para adquirir armas nucleares tenha arrefecido consideravelmente após a derrota de Saddam Hussein em 1991, e completamente abandonado após sua queda em 2003.

Não apenas todas as evidências apontavam para isso, como era também a opinião da comunidade de inteligência dos Estados Unidos, que confirmou publicamente em 2007 que o Irã não mais estava procurando desenvolver um programa para armas nucleares.

Nem mesmo o governo dos Estados Unidos colocava este fato em questão. Eis o que o Secretário de Estado dos Estados Unidos, John  Kerry disse sobre o programa nuclear iraniano em uma entrevista para a Reuters em agosto de 2015:

 “Nosso julgamento é de que o Irã claramente esteve perseguindo durante um certo período a obtenção de uma arma nuclear. Não há dúvidas sobre isso. Em 2003, foram pegos em flagrante com instalações que não poderiam possuir e com materiais que não deveriam estar em suas mãos... Mas eles não conseguiram desenvolver uma arma – e de acordo com o nosso julgamento e de todos os nossos aliados, eles não mais estão à busca de uma arma por si só desde este período de tempo.”

Por consequência só pode ser considerado no mínimo esquisito que os Estados Unidos exijam que o Irã descontinue seu programa para armas nucleares, exigência tomada justamente após o Irã ter – e os estados Unidos sabem disso – abandonado seu programa de armas nucleares.

O Irã não só se viu encarando uma sucessão de exigências ameaçadoras para desistir de seu programa nuclear que os Estados Unidos sabiam que ele já tinha abandonado, mas as exigências foram combinadas com sanções cada vez mais duras, culminando com o pacote mais abrangente dessas sanções, impostas ao Irã recentemente, em 2012.

As exigências e as sanções que as acompanhavam foram seguidas por clamorosas ondas de propaganda enganosa contra o Irã.

Seus líderes foram chamados de fanáticos religiosos e apoiadores do terrorismo. Foram acusados de possuírem planos genocidas e megalomaníacos, mesmo sem que a menor evidência disso tenha sido jamais exibida.

O Irã foi acusado de planejar agressões contra seus vizinhos, mesmo sem nenhuma evidência e embora o maior ato de agressão levado a efeito na história recente do Oriente Médio tenha sido o ataque de Saddam contra o Irã – ao qual o ocidente e os países árabes apoiaram.

Enquanto isso, o país era apresentado como uma teocracia medieval, repressiva e reacionária, o que – apesar de todos os seus problemas – ninguém que conheça minimamente o país pode acreditar.

Tudo isso aconteceu ao mesmo tempo em que contínuas ameaças de ação militar eram feitas e que – de acordo com vários relatos – em mais de uma ocasião estiveram perigosamente perto de realmente acontecer, e que só não aconteceram realmente pela forte oposição de militares dos Estados Unidos.

Por que essa pressão implacável contra um país por supostamente ter um programa de armas nucleares o qual na realidade – e todos sabiam disso – já tinha sido abandonado?

A resposta lógica é que os Estados Unidos e seus aliados regionais – Israel e Arábia Saudita – ficaram alarmados com a influência adquirida pelo Irã na região em seguida à derrubada pelos EUA do regime de Saddam Hussein.

Não importam quais eram as intenções dos EUA quando derrubou Saddam Hussein, mas uma posição de dominância regional para uma (relativa) democracia independente como o Irã definitivamente não era uma delas.

Pois foi exatamente o que restou da derrocada de Saddam Hussein.

Quando o Hezbollah, aliado do Irã, derrotou Israel em 2006, para Washington – e Riad e Jerusalém – isso foi a gota d’água.

O resultado foi o lançamento de uma implacável campanha contra o Irã, baseado em um programa de obtenção de armas nucleares que o mundo inteiro sabia que não existia.

Inevitavelmente, pelo menos para dar cores de coerência para a campanha, ela foi acrescida da exigência de que o Irã abandonasse qualquer tentativa independente de desenvolver capacidades nucleares, de qualquer forma – seja para uso militar ou para uso civil.

Na essência, a campanha inteira resumiu-se a apenas isso, depois de alguns anos.

Não é surpresa nenhuma que o Irã tenha rejeitado as exigências – afinal, qualquer país que preze a sua própria independência teria igualmente rejeitado, pois o que se exigiu era que abdicasse de fazer algo que tinha todo o direito de fazer.

Enquanto isso, conforme crescia a pressão contra o Irã, governos e povos do Oriente Médio que eram vistos como reais ou potenciais aliados do Irã – incluindo o governo sírio do Presidente Bashar Al-Assad, os movimentos pela democracia no Barein e na Arábia Saudita, e a movimentação dos Houtis no Iêmen, também foram colocados sob ataque.

Resultado: o Oriente Médio engolfado na instabilidade e na guerra.
O levantamento das sanções contra o Irã representa nada menos que o fracasso dessa política.

Isso não aconteceu porque o Irã tenha feito qualquer concessão quanto ao desenvolvimento de seu programa nuclear.

As concessões que o Irã fez não comprometeram sua condição de desenvolver capacidade nuclear – a qual o Irã vem desenvolvendo há muitos anos neste instante, evitando uma linha vermelha que não estava preparado para atravessar. Caso os Estados Unidos quisessem um acordo nestas bases, já o poderia ter alcançado há muito.

O acordo aconteceu por duas outras razões.

A primeira razão é que o Irã não cedeu às pressões.

Ao invés de desistir de seu programa nuclear o Irã reagiu aperfeiçoando-o até o ponto em que chegou a dominar todo o ciclo do combustível nuclear – e dessa forma mostrou que nada havia que os EUA pudessem fazer para detê-lo.

A segunda razão foi que em 2014 as grandes potências eurasianas – Rússia e China – finalmente exigiram um fim para a política das sanções.

A chave para entender a questão reside nos rumores que começaram a surgir no outono de 2014 de que a Rússia e o Irã estavam para concluir um acordo de troca comercial “petróleo por bens” e que a Rússia estava considerando sua decisão anterior de não fornecer ao Irã o sistema de mísseis S-300.

As notícias, juntamente com o medo de que a China estivesse pensando em maneiras de financiar o Irã através das novas instituições financeiras que estava por lançar, causaram alarme em Washington, pela ameaça de que todo o regime de sanções estivesse à beira do colapso.

Particularmente preocupante para Washington foi o medo de que, na sequência dos movimentos russos e chineses, poderia se tornar impossível para os Estados Unidos manter seus aliados europeus na linha de conduta necessária para a continuação da política de imposição de sanções, já que eles poderiam não mais ver sentido nestas atitudes.

Resultado: o Irã ofereceu aos Estados Unidos uma maneira de manter as aparências, através do acordo, e os Estados Unidos se viram sem opção a não ser aceitar.

A seguir, tudo o que o Secretário de Estado John Kerry teve a dizer sobre o assunto, na mesma entrevista citada acima, para a Reuters:

“Daí todo mundo pensa – ‘Oh, não estamos sendo firmes; nós, os Estados Unidos da América, temos nossas sanções secundárias; podemos forçar as pessoas a fazerem o que quisermos’ Na realidade, ouvi demais este tipo de argumentação pela televisão nesta manhã. Tenho ouvido isso de muitas organizações que trabalham em oposição a esse acordo. Vivem dizendo por aí, ‘ora, os EUA são fortes o suficiente, nossos bancos são possantes o bastante; podemos simplesmente bater o martelo e forçar nossos amigos a aceitarem na marra o que queremos que eles façam’.”

Veja só – temos um monte de pessoas de negócios nesta sala. Você está de palhaçada comigo? Então os Estados Unidos vão começar a sancionar os próprios aliados e seus bancos e suas empresas, porque não conseguimos chegar a um acordo e então vamos forçá-los a fazer o que queremos que eles façam, mesmo tendo eles concordado com um acordo apresentado? Você está brincando?

Meus amigos, isso não passa de fórmula para que eles se afastem o mais rápido possível da Ucrânia, onde eles já sofrem o bastante e estão prontinhos para dizer: ‘Bem a nossa parte está feita’. Prontinhos também para afirmar, em muitos casos: ‘Bom. Na realidade somos os únicos a pagar a conta pelas suas sanções’. Nós – e foi Obama quem saiu a campo para aplicar um regime de sanções que realmente funcionou. Para... eu fui até a China. Convencemos a China, ‘não compre mais petróleo’. Acabamos persuadindo a Índia e outros países a dar um passo atrás.

Você pode nos imaginar tentando punir essas pessoas, esses países, depois de ter um trabalhão para convencê-los a sancionar o Irã, fase após fase até levar o Irã a uma mesa de negociações, e quando eles resolvem não só negociar, mas apresentar uma proposta de acordo, nós simplesmente resolvemos rejeitar tudo e em seguida dizer: vocês têm que obedecer as nossas regras sobre as sanções na base do queira ou não queira?
Não passa de receita rápida, meus caros amigos, pessoas de negócios presentes, para que o dólar (norte)americano deixe de ser a moeda de reserva do mundo – e já há barulho lá fora...”

O que Kerry estava mesmo dizendo é que os Estados Unidos não tinham escolha. Se não concordassem com o acordo oferecido pelo Irã, o regime de sanções desabaria, levando a uma situação de derrota humilhante para os Estados Unidos.

Em vez disso, ante a possibilidade de desastre dessa natureza, os EUA não tiveram alternativa a não ser concordar com o acordo oferecido pelo Irã.

Toda a embrulhada significa o seguinte: um acordo para levantar as sanções em troca de limites para um programa nuclear traz implícita a admissão por Kerry, em primeiro lugar, que o programa iraniano nunca buscou a obtenção de armas nucleares.

Entretanto, o acordo continua a deixar o Irã no domínio da tecnologia que já desenvolveu. De fato, conforme os especialistas, o acordo deixa em mãos dos iranianos material e tecnologia que possibilitam o desenvolvimento de uma arma nuclear em cerca de um ano, caso seja a sua escolha.

A entrevista de Kerry, no entanto, não foi muito divulgada, apesar – e talvez por isso mesmo – de lançar uma fascinante luz sobre a maneira de pensar do governo dos Estados Unidos.

Em primeiro lugar mostra que para além de toda a aparência externa, os Estados Unidos estão muito preocupados com a posição do dólar dos Estados Unidos como moeda de reserva mundial e nervosamente impedidos de fazer qualquer coisa – como, por exemplo, ameaçar seus aliados europeus com sanções – que possa minar essa posição.

E também que o governo (norte)americano não concorda com aqueles que, como o economista Paul Krugman, dizem que o status do dólar como moeda de reserva não tem importância.

Além do exposto, a entrevista de Kerry também clarifica o fato de que por fora das demonstrações de unidade de propósitos, nos bastidores cresce uma pletora de críticas contra o regime de sanções contra a Rússia, com os governos europeus perdendo claramente o entusiasmo quanto a isso – da mesma forma que não aderiram entusiasticamente quando do início das sanções que os Estados Unidos os persuadiram a aplicar contra o Irã.

Finalmente, mostra também que apesar da conversa dura e arrogante do governo dos EUA, sua capacidade de impor sua vontade aos aliados europeus se mostra limitada e os EUA sabem disso.

Quando os governos europeus se unem para derrotar determinada política, os Estados Unidos não tem opção a não ser recuar e aceitar a derrota.

Entretanto, em última análise o que mais importou na entrevista de Kerry foi o cheiro do revés.

Mesmo com o esforço de Kerry para mostrar apenas o melhor lado do acordo com o Irã que ele foi capaz, no final ele não pode surrupiar o fato de que foi a iminente derrocada do sistema de sanções que forçou a mão contra os EUA, obrigando-os a chegar a um acordo com o Irã que de outra forma jamais aconteceria.

A Rússia pode tirar do episódio algumas importantes lições.

O Irã é muito menor, mais pobre e mais fraco como país que a Rússia. Mesmo não sendo um país subdesenvolvido, o Irã não tem os recursos de ciência, indústria e tecnologia que a Rússia tem.

Além disso, o Irã não dispõe da influência global nem da vantagem de ser membro permanente do Conselho de Segurança da ONU que a Rússia tem.

As eventuais sanções aplicadas pelos Estados Unidos contra o Irã, machucam muito mais o Irã que as sanções impostas pelos Estados Unidos contra a Rússia a prejudicam.

Da mesma forma que a Rússia, também o Irã possui uma minoria pequena mas barulhenta, que deseja uma aproximação com os Estados Unidos praticamente a qualquer preço. Em 2009 essa minoria falhou ao tentar provocar uma revolução colorida em Teerã – da mesma maneira que falhou a minoria russa – ao tentar alguma coisa parecida com uma revolução colorida em Moscou, em 2011.

No final da história, ao permanecer firme na sua essência, agindo todo o tempo com a máxima flexibilidade possível, o Irã viu o desafio terminar.

Como resultado, o Irã emergiu da situação como o inequívoco vencedor, com sua posição atual mais forte que a de que desfrutava há uma década – antes do início dos ataques.

Se o Irã pode vencer esse tipo de desafio contra os Estados Unidos, então a Rússia também pode.

A Rússia está em muito melhor posição que o Irã estava.

Não há razão, de fato, pela qual a Rússia não deva fazer isso, nem para duvidar de que realmente o fará.



Alexander Mercouris ex político grego, especialista em Direito Internacional e Relações Internacionais. Articulista mundialmente reconhecido com especial interesse em leis, principalmente na legislação da Rússia e analista dos aspectos legais da espionagem da NSA − National Security Agency e sobre os eventos na Ucrânia, em termos de Direitos Humanos e a inconstitucionalidade do Golpe de Estado ucraniano. Trabalhou por 12 anos nas Royal Courts of Justice, em Londres, como advogado. Sua família tem se destacado na política grega por várias gerações. Atua frequentemente como comentarista de TV e conferencista em várias universidades pelo mundo. Reside em Londres.

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