segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Resultado de imagem para Finian Cunningham
Outra trapalhada: Seria cômica se não fosse trágica a nova ação da OTAN na Líbia
por Finian Cunningham
tradução btpsilveira

Washington e seus aliados de sempre na OTAN estão intensificando seu envolvimento militar no já devastado país do Norte da África que enfrenta agora o crescimento da atividade de terroristas em seu território, em uma espécie de repetição macabra de uma comédia clássica de humor negro.


No início da semana passada, facções dispersas anunciaram que teriam formado um novo “governo de união nacional”. A administração imediatamente apoiada pelas Nações Unidas, foi montada a partir de dois governos antes rivais, que se auto nomearam, um deles baseado na cidade de Triploli e outro na cidade de Tobruk.

Mas são reduzidas as chances da implementação de um governo nacional. O poder real no país está com uma pletora de milícias de guerra, quase todas com relacionamentos com o grupo terrorista Estado Islâmico e que retalharam o país em feudos.

A razão da precipitação na formação do tal pouco convincente “governo de união” está na necessidade de um fiapo ao menos de legitimidade para uma intervenção militar ocidental de maior porte na Líbia, à guisa de ajudar “as autoridades” a lutar contra os terroristas jihadistas.  

Resultado de imagem para General Joseph F. Dunford
Dunford
Apenas três dias depois que foi revelado o surgimento do novo governo, um dos mais altos funcionários militares de Washington, General Joseph F. Dunford, já veio a campo para dizer que estavam em curso planos para uma “ação decisiva contra o Estado Islâmico na Líbia” que deveriam acontecer nas próximas semanas, tudo de acordo com relato da agência Reuters.

 “Você tem que tomar medidas militares decisivas para controlar a expansão do ISIL e ao mesmo tempo isso tem que ser feito de forma sustentável em um processo político de longo prazo”, disse o General Dunford, usando uma forma alternativa para se referir ao grupo terrorista Estado Islâmico.

O chefe do Estado Maior das Forças Armadas dos Estados Unidos esteve em Paris onde teve reuniões de consultas com seus pares na aliança militar da OTAN na França, Inglaterra e Itália.

O jornal The New York Times relatou assim os planos militares anunciados por Dunford: “Preocupados com a crescente ameaça representada pelo Estado Islâmico na Líbia, os Estados Unidos e seus aliados estão aumentando os voos de reconhecimento e coletando dados de inteligência para a preparação de possíveis bombardeios e ataques de comandos, disseram altos funcionários, comandantes e agentes de inteligência nesta semana”.

Nos últimos meses, houve relatos de que forças especiais (norte)americanas, inglesas e francesas estariam trabalhando clandestinamente na Líbia para tentar estabelecer com quais milícias poderiam seus governos colaborar.

Resultado de imagem para Muammar Gaddafi
Kaddafi
Ocorre que a Líbia está atualmente mergulhada na mais profunda anarquia tribal desde há quatro anos, quando as potências da OTAN, lideradas pelos Estados Unidos derrubaram o governo de Muammar Kaddafi e hoje é praticamente impossível desatar o Nó Górdio da confusão entre as milícias rivais. Muitas delas, e mesmos os autodenominados partidos políticos do novo governo estão integrados com a rede terrorista.

A visão estúpida e distorcida que a OTAN tem do caos que reina atualmente na Líbia e por ela induzido, é exemplificada pela história de como uma unidade de 20 tropas (norte)americanas que aterrissaram no aeroporto da cidade de Al Watiya, perto de Trípoli, foi recebida. Os (norte)americanos esperavam uma calorosa recepção pela milícia que supostamente dominava a área do aeroporto, dado que eles tinham recebido armas e treinamento dos Estados Unidos em 2012. Acontece que o batalhão reinado pelos Estados Unidos não dominava mais o aeroporto. Fora desalojado por uma milícia rival que não foi nada amigável com os (norte)americanos.

Aparentemente, um tiroteio foi evitado, mas houve uma tensão latente até que os comandos americanos finalmente receberam permissão de livre passagem pela área do aeroporto.

O que o pequeno exemplo ilustra claramente, é o total descontrole que reina hoje na Líbia. As tropas dos Estados Unidos sentiam que poderiam aterrissar calmamente em qualquer lugar do país sem qualquer problema e quase tiveram que enfrentar um tiroteio cara a cara com um inimigo que nem sabiam quem eram e que dominava a área do aeroporto. Pois este é precisamente o estado de caos que reina na Líbia e que Kaddafi previu que aconteceria depois de sua queda, pouco antes de ser assassinado na rua por um bando de insurgentes que o lincharam barbaramente em outubro de 2011. A Líbia era um país estável e próspero antes das ações dos EUA e da OTAN.

Está mais que evidente que os Estados Unidos e seus aliados da OTAN não tem a menor ideia do que está acontecendo na Líbia, nem de quem são os grupos que atualmente a dominam, e isso depois de meses de ações de reconhecimento supostamente efetuado por suas tropas especiais para determinar quais são os “parceiros” que eventualmente lutarão contra o Estado Islâmico.

O General em Chefe dos Estados Unidos admitiu toda a sua ignorância sobre o assunto quando anunciou o plano para mais intervenções militares na Líbia.
Dunford disse que “os militares dos Estados Unidos deverão procurar o Presidente Obama e o Secretário da Defesa dos EUA (Ashton Carter) para que forneçam ideias sobre o “caminho a seguir” para lidar com os militantes do Estado Islâmico” na Líbia.

Ou seja, Dunford e seus aliados da OTAN não tem a menor ideia do que acontece e muito menos tem um plano. Eles simplesmente vão desembarcar em um país dominado inteiramente por milícias fanáticas e imprevisíveis, muitas delas aparentemente alinhadas com o Estado Islâmico.

O General “top” dos Estados Unidos, não deu nenhum detalhe específico sobre o que seja, dizendo: “Eu penso que está muito claro que todos nõs – franceses, (norte)americanos e outros – estamos indo juntos e para atuar em conjunto com o novo governo líbio... Minha perspectiva é que temos que fazer mais [do que estamos fazendo]”.

Como sublinhamos anteriormente, trabalhar “em conjunto com o novo governo” não inspira confiança, vez que depois de anos de disputa, subitamente “surge” um governo, e principalmente levando em conta que vários de seus membros políticos estão comprovadamente associados a grupos armados ilegais.

De maneira trágica mas previsível, a Líbia é o resultado que inevitavelmente acontece quando um país é deixado à própria sorte, para ser governado insanamente em total desrespeito à lei internacional e à soberania de outras nações.

Washington, Londres e Paris juntamente com seus aliados na OTAN abusaram de forma cínica de um mandato da ONU para estabelecimento de uma zona de exclusão aérea em março de 2011 para lançar uma blitzkrieg aérea de sete meses na Líbia. As potências da OTAN, com as monarquias petrolíferas do Golfo, lideradas pela Arábia Saudita e em conluio com grupos jihadistas no terreno, como por exemplo o Grupo de Lutadores Islâmicos da Líbia, convergiram para o objetivo de mudar o regime no país.

Foram estas mesmas milícias, e seu estoque de armamento, que foram mobilizadas pela CIA (norte)americana e pelo MI6 britânico para se infiltrar na Síria, de acordo com as informações do jornalista (norte)americano Seymour Hersh, entre outros repórteres investigativos. A Turquia foi a porta de entrada e a Arábia Saudita o financiador do corredor Líbia/Síria (no original Lybia/Syria ‘ratline’). Saliente-se que tudo isto estava acontecendo mais ou menos na mesma época em que os representantes dos jihadistas tomaram de assalto o consulado dos Estados Unidos em Benghazi, em setembro de 2012, matando o embaixador dos Estados Unidos Christopher Stevens e três oficiais (norte)americanos.

Agora, aparentemente por causa da resoluta intervenção russa na Síria em apoio ao governo do Presidente Bashar Al-Assad e suas forças, os jihadistas estão fugindo do país e estabelecendo bases na Líbia. Esta relocação dos jihadistas da Síria e do Iraque para a Líbia já foi relatada inclusive pelos principais meios de comunicação ocidentais.

Bem, então, sim, os governos ocidentais e seus chefes militares podem muito bem estarem preocupados quanto ao aumento das atividades do grupo terrorista Estado Islâmico na Líbia. A ameaça é real o suficiente.

Mas o que Washington e seus meios de comunicação ocultam e não vão dizer nunca a vocês é que estes mesmos grupos terroristas foram gerados na Líbia a partir de uma mudança de regime ilegal e depois transportados para a Síria para outra operação de mudança de regime, deixando para trás a Líbia como um país arruinado e em putrefação, hoje paraíso de terroristas e milícias armadas.

Depois de tudo, lá vem novamente as mesmas potências ocidentais para por ordem em uma confusão que eles mesmos criaram, diga-se antes de mais nada. Parece uma comédia pastelão tipo “O Gordo e o Magro”, com cores militares. Só que não é engraçado. É uma comédia criminosa e de tremendo mau gosto.


Finian Cunningham – (nascido em 1963) escreve exaustivamente sobre assuntos internacionais, com artigos publicados em várias línguas. Originário de Belfast, no Norte da Irlanda, é mestre em Química Agrícola e trabalhou como editor de ciências para a Royal Society of Chemistry, em Cambridge, Inglaterra, antes de seguir carreira como jornalista. Por mais de 20 anos trabalhou como editor e escritor em vários meios de comunicação, incluindo-se os jornais The Mirror, Irish Times e Independent. Trabalha agora como jornalista freelance no Leste da África e suas colunas aparecem nos órgãos jornalísticos RT, Strategic Culture Fopundation e Press TV.


Um comentário:

  1. Olá! Boa madrugada a todos... Não é possível ¨achar um lado bom/positivo nesta história¨! Porém, um fato menos negativo é a retroação, a batida-em-retirada dos soldados (mercenários) profissionais, contratados, treinados e subvencionados á mando da decadente, caquética e terminal uni-potência (UÓXYNTUM - U5@), num primeiro instante, na Líbia, infelizmente, mas, quem sabe, no momento seguinte, de volta á ¨Casa¨ que os criaram... vá lá, também infelizmente, vai...

    ResponderExcluir