sábado, 2 de janeiro de 2016



Resultado de imagem para finian cunninghamTurquia e Arábia Saudita colhem suas tempestades Maquiavélicas


02 de janeiro de 2016 - Finian Cunningham
http://www.strategic-culture.org/news/2016/01/02/turkey-saudi-reap-machiavellian-whirlwind.html
tradução: btpsilveira

De forma bastante apropriada, o ano termina com o presidente turco Recep Tayyip Erdogan voando para Riad para um encontro de cúpula com o Rei saudita Salman. O encontro ostentou ares de líderes cerrando fileiras depois de um ano de contratempos. Como diz o velho ditado, a miséria precisa de companhia. E há muita miséria que os turcos e sauditas podem exibir para consolar um ao outro.


Tanto Ancara quanto Riad viram seus esquemas militares na região adquirirem um sabor decididamente amargo. Depois de três meses, a intervenção militar russa na Síria ajudou a estabilizar a situação do governo do Presidente Bashar Al Assad, que era alvo encoberto tanto da Turquia quanto da Arábia Saudita para uma mudança de regime. O esquema criminoso teve ainda a adesão de Washington e das potências da OTAN. Mas a chave do esquema era mesmo o esforço conjunto de Turquia e Arábia Saudita.
Perdas devastadoras causadas pela Rússia entre as fileiras de jihadistas mercenários  viraram o jogo na guerra suja copatrocinada por Ancara e Riad, e até mesmo os Estados Unidos admitiram recentemente que o Presidente Vladimir Putin alcançou seu objetivo estratégico de estabilizar o estado Sírio, um aliado da Rússia de longa data.

O bombardeio aéreo russo contra as rotas do contrabando de armas usado pelos exércitos jihadistas por procuração cortaram as linhas de suprimento providenciadas pela Turquia para possibilitar a guerra das brigadas terroristas. Estima-se que os mercenários estavam ganhando milhões de dólares por dia, graças à colusão com o regime de Ancara e a dizimação do contrabando de petróleo pelos bombardeios russos eliminou o dinheiro e as armas que alimentavam os terroristas na guerra que travam na Síria.

Então não é de se admirar que Erdogan fosse para Riad em 29/30 de dezembro para discutir a formação de um novo “Conselho de Cooperação Estratégica” com a Casa de Saud. Tanto turcos quanto sauditas se encontram atualmente em dificuldades para continuar a financiar seus esquemas de mudança de regime na Síria.

Claro, o Ministro de Relações Exteriores da Arábia Saudita, Adel al-Jubeir não menciona a Síria em público e tenta fazer o seu melhor para esterilizar as ações, declarando sobre o encontro: “A reunião enfatizou o desejo dos dois países de elevar o nível de um Conselho de Cooperação Estratégica”, para fortalecer a cooperação nas áreas militares, econômicas e de investimento.
Mas é possível ler nas entrelinhas que o pano de fundo das conversações foi mesmo a Síria.

Erdogan e Salman
De acordo com fontes sírias, o acordo turco/saudita para a mudança de regime no estado vizinho funcionará da seguinte forma: Os turcos providenciarão as conexões logísticas para fornecimento de armas e campos de treinamento para os lutadores jihadistas através das fronteiras com a Síria enquanto a Casa de Saud terá a função primordial de financiar o empreendimento nefasto, o que já faz desde sua origem em março de 2011. Os sauditas ainda deverão providenciar armas de seu enorme arsenal suprido pelos Estados Unidos, com a aprovação tácita da CIA (norte)americana.

Kurd, Kurmanji in TurkeyA renovada campanha militar de Erdogan contra a população curda separatista no sul do país e norte do Iraque, somada a uma desaceleração geral da antes pujante economia turca resultou que Ancara certamente não tem condições financeiras para pagar seus esquemas neo-otomanos. Como já dito antes, as sortidas russas ao longo das fronteiras entre a Síria e a Turquia colocaram um fim no dinheiro ilícito originado do contrabando de petróleo. Portanto, Erdogan está em dificuldades financeiras, quebrado.

Consequentemente, como sempre, Erdogan quer continuar a ser financiado pela Casa de Saud. O reino rico em petróleo terminou o ano encarando um déficit orçamentário público da ordem de $98 bilhões de dólares – ou 15 por cento da economia do país.

Os dirigentes sauditas estão embarcando em um inaudito programa prévio de austeridade para tentar corrigir sua economia danificada. Como mancheteou o Financial Times: “os sauditas divulgam um programa radical de austeridade”. A população saudita está encarando alta nos preços de combustível, eletricidade e água, o que é abandono repentino do “contrato social” através do qual os líderes autocráticos sempre compraram o descontentamento entre os “plebeus”, através de largos subsídios para aliviar o alto custo de vida do país.

Isso implicará em agitação social no reino autoritário. Apesar de décadas de prodigalidade real, a Arábia Saudita sofre com níveis altíssimos de desemprego crônico, especialmente entre os mais jovens, que nada mais é que o reflexo do tipo das receitas da economia saudita, típico dos países do Golfo, ricos em petróleo. Mais de um terço da população saudita de 27 milhões de pessoas consta de trabalhadores estrangeiros expatriados, principalmente do Sul da Ásia, providenciando trabalhadores escravos a baixo preço. O resultado é que uma larga parte da população saudita nativa fica desempregada, tornada dócil apenas através das “mãos abertas” dos até agora pródigos cofres do petróleo saudita.

O principal fator de distúrbio nas finanças estatais da Arábia Saudita é a queda vertiginosa dos preços do petróleo no mercado mundial. Apenas cinco anos atrás, o preço do petróleo estava bem acima de $100 dólares o barril. Hoje está em cerca $40 dólares com uma queda de 23% apenas no último ano.

Cerca de 80% das receitas do estado saudita dependem das vendas de petróleo,  comparado com a dependência da Rússia, de cerca de15%, devido ao desenvolvimento industrial da Rússia, muito mais diversificado.

É justamente aí que a porca torce o rabo. A super produção de petróleo pelos sauditas contribuiu para a saturação dos mercados mundiais, e que por sua vez pressiona ainda mais para baixo os preços da commodity.

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Alexander Novak
O ministro russo da Energia, Alexander Novak tem dúvidas quanto a quem é o culpado pela queda abrupta dos preços do mercado para o petróleo. Novak declarou ao canal de TV russa Rossiya 24 TV nesta semana: “A Arabia Saudita aumentou formidavelmente sua produção este ano para 1,5 milhões de barris por dia, e assim efetivamente desestabilizou a situação no mercado”.

Alguns analistas concluíram que a aparentemente suicida política de preços da Arábia Saudita poderia ter sido motivada pela vontade de defender sua própria posição no mercado como segundo maior produtor de petróleo ao lado da Rússia através da derrocada ou enfraquecimento de outros competidores. Porém, uma explicação um tanto quanto mais maliciosa é a de que os sauditas estão ajudando e sendo cúmplices na política dos Estados Unidos de enfraquecer a economia russa.

De qualquer forma, o resultado foi que os sauditas prejudicaram muito seus próprios interesses ao querer fazer jogos geopolíticos com petróleo.

Aos infortúnios sauditas pode-se acrescentar sua Guerra no Iêmen. Os sauditas nada conseguiram em termos de recolocar um fantoche no poder no país vizinho, mesmo depois de nove meses de bombardeios ininterruptos. Essa parece ser mais uma guerra sem fim, o que significa que os sauditas serão pressionados por ainda mais gastos militares no  ano que vem, justamente quando a sua economia se mostra abalada, com os cofres vazios.
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Maquiavel
Mas quando os esquemas maquiavélicos de sauditas e turcos começam a sair pela culatra, os acontecimentos podem se revelarem boas notícias para os demais atores no teatro do Oriente Médio. Uma conversação de paz apoiada pela ONU deve ser iniciada nas próximas semanas para resolver o conflito sírio, e as posições enfraquecidas de Ancara e Riad podem fortalecer o lado russo e de seus aliados sírios na mesa de negociações.

É uma mau tempo que na realidade nada traz de bom para quem quer que seja. Mas pelo menos a tempestade que agora sauditas e turcos são obrigados a colher por seus esquemas maquiavélicos poderia trazer algum alívio para aqueles que estão realmente interessados em implementar a paz na região.


Finian Cunningham - nasceu em Belfast, Irlanda do Norte, em 1963. Especialista em política internacional. Autor de artigos para várias publicações e comentarista de mídia. Recentemente foi expulso do Bahrain (em 6/2011) por seu jornalismo crítico no qual destacou as violações dos direitos humanos por parte do regime barahini apoiado pelo Ocidente. É pós-graduado com mestrado em Química Agrícola e trabalhou como editor científico da Royal Society of Chemistry, Cambridge, Inglaterra, antes de seguir carreira no jornalismo. Também é músico e compositor. Por muitos anos, trabalhou como editor e articulista nos meios de comunicação tradicionais, incluindo os jornais Irish Times e The Independent


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