domingo, 14 de fevereiro de 2016

A SÍRIA NAVEGA EM MAR HOSTIL
por PEPE Escobar
tradução de btpsilveira

Resultado de imagem para pepe escobarDificilmente encontraríamos um início mais apropriado para o Ano Chinês do Macaco, geopoliticamente falando, que a grande macacada ajustada em Munique entre o Secretário de Estado dos Estados Unidos, John Kerry e o Ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergei Lavrov.

A farsa síria agora avança sob uma vaga “cessação de hostilidades” – que não é um cessar fogo – a ser implementado dentro de uma semana. Mais para o futuro, lógico, como estamos no mundo real, as “hostilidades” inevitavelmente recomeçarão.
Publicado originalmente em: http://www.opednews.com/articles/The-Syrian-Sea-of-Hostilit-by-Pepe-Escobar-Ceasefire_Daesh_Pentagon_Syria-160212-237.html 

Secretary of State John Kerry and Russian Foreign Minister Sergey LavrovLavrov já salientara várias vezes: “nós fizemos propostas de implementação de um cessar fogo, algumas bem específicas” E ainda assim o combo Washington/Turquia/Arábia Saudita permaneceu inerte. A Casa de Saud, apavorada e acuada – que tem o controle remoto do bando de “moderados rebeldes” enviados para o campo de batalha – começou a vir com a noção idiota de colocar tropas no terreno, tropas estas também conhecidas como um monte de mercenários, para “ajudar os esforços dos EUA” contra o Daesh (ISIS/ISIL/IS). 

A palhaçada chegou a tais níveis de insustentabilidade que o Primeiro Ministro russo Dmitry Medvedev se sentiu compelido a declarar a um entrevistador do jornal alemão Handlesblatt: “nossos parceiros (árabes) e os (norte)americanos devem pensar muito sobre o seguinte: queremos mesmo uma guerra permanente?”

A Casa de Saud e o Sultão Erdogan certamente querem – porque sua política de mudar o regime sírio está em palpos de aranha. Mas para a administração (norte)americana do pato manco Obama, o buraco é mais embaixo.

Fiel à sua marca registrada de uma política externa desorientada, não restou muito o que fazer para a equipe de Obama a não ser enrolar mais um pouco. 

Assim, os proverbiais “funcionários anônimos dos EUA” vão enrolando, junto com a mídia, ao dizer que a “cessação de hostilidades” não passa de uma armadilha russa – pois Washington queria mesmo um imediato cessar fogo (não admira: os “rebeldes moderados” controlados remotamente pela CIA estão sendo expulsos). Os vassalos europeus e árabes também colaboram com a enrolação: Damasco e Moscou estariam “torpedeando os esforços de paz”. 

Daí, Kerry desabou – cedeu à realidade, na verdade. Lavrov deve ter deixado muito claro que há dois pontos não negociáveis para a Rússia: a vitória na batalha de Aleppo e o fechamento da fronteira Siria/Turquia, contra qualquer protesto sobre a Estrada da Jihadi, “moderado” ou o que seja.

Enrolação em Munique

Há um eco histórico peculiar quanto a Guerra na Síria estar sendo negociada em paralelo com a Conferência sobre Segurança de Munique – tradicionalmente dedicada à segurança global. Mas a questão mais crucial é se o novo Pacto de Munique manter-se-á na realidade.

Certeza mesmo é que o Daesh (ISIL/ISIS/EI) e a Frente al-Nusra, também conhecida como al-Qaeda na Síria continuarão na alça de mira dos bombardeios tanto de russos quanto de (norte)americanos, mesmo depois da “cessação de hostilidades”.

A coalizão 4+1 – Rússia, Síria, Irã mais o Hezbollah – vão continuar alvejando todos os grupos mesmo remotamente conectados com a Jabaht al-Nusra (e eles são legião).
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o YPG curdo
Por sua vez, o Exército Árabe da Síria (SAA) intensificará seus ataques contra o Daesh (ISIS/ISIL/EI). Se quiser, você pode chamar isto de síndrome “todos os caminhos levam a Raqqa”. Tão logo as fronteiras entre a Síria e a Turquia sejam fechadas – com a contribuição crucial do YPG curdo – a marcha para Raqqa será inevitável.

Nos próximos dias, este será o cenário no terreno. Então, não se admira que o combo Turquia/Arábia Saudita esteja absolutamente desesperado: se insistirem em apoiar realmente seus “rebeldes moderados” por meios aéreos, serão reduzidos a cinzas pela Força Aérea da Federação Russa.

Entra em cena então a suprema enrolação do Excepcionalistão, de acordo com a qual a OTAN estaria “explorando a possibilidade” de se juntar à coalizão encobertamente apoiada pelos Estados Unidos contra o Daesh (ISIS/ISIL/EI).

Isto é um monte de besteiras sem sentido. O Pentágono já está enfiado até o pescoço na luta. Assim também as grandes potências da OTAN, como a Alemanha e a França, que querem se livrar do problema imenso da crise Síria, mas não querem comprometer-se com uma guerra no terreno. Trata-se de uma farsa que se equipara à da Turquia do Sultão Erdogan, que tenta desesperadamente, mais uma vez, e outra e outra, chamar a OTAN para a luta, mesmo que isso implique em uma provocação fatal contra a Rússia; afinal de contas, seu sonho – agora à beira do abismo – de criar uma “zona de segurança” na fronteira da Turquia com a Síria se recusa a entregar os pontos

Um Sultão Belicoso

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Erdogan, o Sultão que não era.
Por trás da farsa da “cessação de hostilidades”, reside um fato crucial: a administração do pato manco Obama parece não querer elevar as proverbiais tensões com Moscou até um nível crítico que seja irreversível (já a obsessão de Pentágono/OTAN com a Guerra Fria 2.0 é outra história). Os céus da Síria não serão um prelúdio de uma guerra total entre EUA e Rússia.

O que não significa, porém, que o Pentágono desistirá de tentar.

Ash “Império das Lamúrias” Carter, do Pentágono e Michael Fallon, da Inglaterra terão um encontro com o GCC e o Turco de Latão em Bruxelas. Adivinhe só quem chefiará a delegação saudita: O Príncipe da Guerra Mohammed Bin Salman, o atual líder supremo da Casa de Saud no estado em que se encontra (considerando que o Rei Salman às vezes está aqui e às vezes não está), bem como Ministro da Defesa, responsável pela campanha vergonhosamente derrotada dos sauditas no Iêmen.

 O Príncipe guerreiro está absolutamente lívido de raiva porque seus “rebeldes” por controle remoto estão sendo esmagados no chão pelo Exército Árabe Sírio e pela força aérea da Federação Russa. Acontece que o Iêmen será apenas uma lembrança ruim comparado com a surra que suas “Forças Especiais” também conhecidas como “Mercenários” sofrerão ao lutar contra o experiente exército sírio, os iranianos e os guerreiros (de verdade) do Hezbollah.

Observe: o plano se complica. Ambos os lados negarão, mas existem canais nos bastidores sendo usados pela Casa de Saud e Moscou para demarcar de forma clara as áreas que serão comandadas pelo Exército Árabe Sírio e por alguns “rebeldes” aceitáveis sob a égide do combate ao Daesh (ISIS/ISIL/EI). Isto prova que os sauditas e os russos podem unir esforços desde que seja contra os jihadistas mais radicais.

Já com o insano Sultão Erdogan qualquer possibilidade de acordo está para lá de remota. Especialmente depois que o PYD (Partido da União Democrática – NT) curdo, dos curdos do noroeste da Síria – aos quais Ancara rotula como “terroristas” – abriram um escritório de representação em Moscou na última quarta feira , a convite do Presidente Putin.

Então, mantenha de olho esta “cessação de hostilidades”. Acontece que acabaram de começar as hostilidades verdadeiras.


­­­acabaram de começar asdadeiras podem ter acabado de começar.de que seja contra os jihadistas mais radicais.isso implique em uma___________

Um comentário:

  1. Seria interessante saber duas coisas:
    - Estariam os Russos interessados em recortar um território entre o noroeste do Iraque e sudeste da Turquia para os Kurdos, poupando assim o território do Irã?
    - Lembrando que Putin respeita o Direito Internacional e não interfere em assuntos domésticos de outros países, até que ponto Putin estaria interessado em que Erdogan perdesse o contrôle na Turquia?

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