segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

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Semana 18 da intervenção russa na Síria:
Escalada dramática parece iminente 

13/2/2016, The Saker, Unz Review The Vineyard of the Saker
Tradução pela Vila Vudu

ATUALIZAÇÃO: 15/2/2016, 18h hor. Brasília – "Exército Sírio está agora a 15km de cortar ao meio o ISIS" (ing. Syrian Army Is Now 15 Kilometres Away From Cutting ISIS in Half), Marko Marjanović, Russia Insider
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A situação na Síria alcançou momento de decisão, e parece iminente uma escalada dramática da guerra. Vejamos como chegamos a tal ponto.

Durante a primeira fase da operação, as forças armadas da Síria não obtiveram sucesso estratégico imediato. Nada de extraordinário nisso. É importante lembrar aqui que, durante as primeiras semanas da operação não havia o suporte aéreo próximo que os russos ofereceriam adiante.


Naquelas circunstâncias, os russos decidiram degradar sistematicamente toda a infraestrutura do Daech (Nota: Refiro-me a *todos* os grupos terroristas na Síria como "Daech") incluindo postos de comando, nodos de comunicação, depósitos de petróleo, depósitos de armas, rotas de suprimento, etc. Foi trabalho importante, mas não teve impacto imediato a favor dos militares sírios. Então os russos assumiram duas importantes tarefas: fazer o Daech retroceder na província de Latakia e atacar o contrabando de petróleo entre o Daech e a Turquia. O primeiro objetivo era necessário para proteção da força tarefa russa; o segundo, para atacar as finanças do Daech. Foi quando os russos passaram a dar apoio aéreo cerrado. Não só isso; os russos também se envolveram diretamente na operação em solo.

A segunda fase foi introduzida gradualmente, sem muito alarido, mas fez grande diferença em solo: russos e sírios passaram a trabalhar em íntima conexão, e logo promoveram a colaboração a um novo nível quantitativo, que permitiu que os comandantes sírios usassem com grande efetividade o poder de fogo dos russos. Mais que isso, os russos começaram a fornecer equipamento moderno aos sírios, inclusive tanques T-90, modernos sistemas de artilharia, radares antibaterias, equipamento para visão noturna, etc. Finalmente, segundo vários relatos russos, as equipes russas de operações especiais (principalmente, chechenos) também entraram em combate em locais chaves, inclusive bem fundo na retaguarda do Daech. Resultado disso, os militares sírios pela primeira vez, foram, de sucessos táticos para vitórias operacionais: pela primeira vez, os sírios começaram a liberar cidades chaves, de grande importância estratégica.

Resultado de imagem para Russian bombing in SyriaFinalmente, os russos dispararam fogo fantasticamente intenso contra o Daech em setores cruciais do front. No norte de Homs, os russos bombardearam um setor durante 36 horas ininterruptas. Segundo o mais recente briefing do Ministério de Defesa da Rússia, só no período de 4 a 11 de fevereiro, o grupo de aviação russa na República Árabe Síria cumpriu 510 missões de combate e atacou 1.888 alvos terroristas. Esse tipo de bombardeio feroz produziu o efeito desejado, e os militares sírios começaram afinal a se mover, ainda lentamente, ao longo da fronteira turco-síria, enquanto, ao mesmo tempo, pressionavam forças do Daech ainda plantadas na parte norte de Aleppo. Ao fazê-lo, russos e sírios ameaçaram cortar a rota vital de ressuprimento que ligam oDaech à Turquia. Segundo fontes russas, as forças do Daech estavam tão desmoralizadas que obrigaram populações locais a correr em direção à fronteira turca, tentando misturar-se àquelas pessoas.

Essa vitória de russos e sírios significou que todas as nações que apoiam os terroristas do Daech, incluindo Turquia, Arábia Saudita e os EUA, ficaram diante de colapso total de seus esforços para derrubar o presidente Assad e rachar a Síria, com o objetivo de converter o país num "Jihadistão". Os norte-americanos não admitem, é claro; e quanto aos sauditas, as ameaças de invadirem a Síria são cômicas. O que deixou o papel principal para Erdogan, que logo se apresentou, lépido, para garantir ao ocidente mais um aliado maníaco, doido furioso, interessado em agir de modo completamente irresponsável, só para impedir que o 'outro lado' possa contabilizar a seu favor qualquer coisa parecida com uma vitória.

Erdogan parece estar considerando duas opções. A primeira é operação por solo de invasão à Síria, com o objetivo de restaurar as linhas de suprimento do Daech e impedir que os militares sírios tenham controle completo sobre a fronteira. (No mapa, uma boa ilustração, 
extraída de um vídeo de SouthFront.)

Segundo vários informes, Erdogan tem 18 mil soldados com apoio aéreo, blindados e artilharia posicionados ao longo da fronteira para essa invasão.

O segundo plano é até mais simples, pelo menos em teoria: criar uma zona de exclusão aérea sobre todo o território sírio. O próprio Erdogan falou várias vezes dessa opção, a última vez bem recentemente, na 
5ª-feira, 11 de fevereiro.

Desnecessário dizer que os dois planos são absolutamente ilegais nos termos da lei internacional e constituiriam ato de agressão, o "supremo crime internacional", como 
o definiu o Tribunal de Nuremberg, porque "contém dentro dele o mal acumulado de todos os demais crimes internacionais". Mas não que isso cause algum incômodo a Erdogan, que é megalomaníaco.


Resultado de imagem para evil erdoganErdogan, e seus apoiadores no ocidente, evidentemente 'declararão' que estaria acontecendo um desastre humanitário, até mesmo um genocídio, em Aleppo, e que é preciso acionar a tal "responsabilidade de proteger" (R2P) e que ninguém precisa de aprovação de Conselho de Segurança da ONU, porcaria nenhuma, para empreender essa ação claramente "humanitária". Seria "Sarajevo versão 2" ou "Kosovo versão 2" tudo outra vez. A imprensa-empresa ocidental faz ativamente a parte dela, de demonizar Putin. Só nos últimos tempos, ofereceu os seguintes tópicos para 'informação' dos desgraçados que ainda dão atenção a mídia-empresas e a jornalistas-empresas:

– Putin ordenou o assassinato de Litvinenko porque 
Litvinenko estava decidido a revelar que Putin é pedófilo(sério. Leiam aí e vejam com seus próprios olhos!).

– 3ª Guerra Mundial poderia começar com 
a Rússia invadindo Latvia.

– Segundo declarações do 
Tesouro dos EUA, Putin é corrupto.


Nem é preciso continuar a lista; vocês já entenderam o espírito da coisa. É realmente Bósnia, Kosovo, Iraque, Líbia tudo outra vez, com as exatas mesmas "lágrimas de crocodilo humanitário" e exatamente os mesmos argumentos para vender ao mundo uma agressão ilegal, um crime, como se fosse benemerência. Em vez de Sarajevo "cidade mártir sitiada por açougueiros sérvios", seria Aleppo "cidade mártir sitiada por açougueiros sírios ". Já espero até movimentos de provocação, sob falsa bandeira, dentro da cidade de Aleppo, para "provar" que "o mundo" "tem de agir" para impedir um genocídio.

A grande diferença, é claro, é que Iugoslávia, Sérvia, Iraque e Líbia estavam quase sem defesa alguma contra a agressão do Império Anglo-Sionista. Não é a situação da Rússia hoje.

Em termos puramente militares, a Rússia tomou vários passos cruciais: declarou "verificação" em larga escala da "prontidão para combate" nos distritos militares do Sul e do Centro. Em termos práticos, significa que todas as forças russas estão em alerta máximo, especialmente as forças Aeroespaciais, as Forças Aeroembarcadas, as forças da Aviação Militar de Transporte e, claro,
todas as forças russas na Crimeia e a Frota do Mar Negro.

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O primeiro efeito prático desses "exercícios" não é só tornar imediatamente disponível um grande complexo de forças, mas, também, tornar muito difícil rastrear essas forças. A ação de "verificação de prontidão para combate" não apenas protege as forças mobilizadas como, também, torna muito difícil para o inimigo ter ideia do que, precisamente, as forças mobilizadas estão fazendo. Há informes também de que o Sistema Aeroembarcado de Alerta e Controle [orig. Warning and Control (AWACS) – A-50M – já sobrevoa regularmente o território sírio. Em outras palavras, a Rússia tomou todas as medidas necessárias para ir à guerra contra a Turquia.

Simultaneamente, 
os russos lançaram também uma iniciativa pró-paz centrada num cessar-fogo geral que começará dia 1º de março ou, segundo vazamentos recentes, dia 15 de fevereiro. O objetivo é claro: interromper o ímpeto dos turcos na direção de uma invasão contra a Síria. Claro, óbvio, que diplomatas russos estão fazendo tudo ao alcance deles para evitar guerra com a Turquia.

Aqui, outra vez, tenho de repetir o que já escrevi um milhão de vezes: o pequeno contingente russo na Síria está em posição muito precária, longe de território russo e muito perto (45km) da Turquia. Não só isso, mas os turcos têm mais de 200 aviões de combates prontos a atacar, enquanto os russos têm provavelmente menos de 20 SU-30/35/34s no total. Sim, são aeronaves moderníssimas, da geração 4++, e terão o apoio dos sistemas S-400 systems, mas a proporção de força permanece num terrível 1:10.

Mas a Rússia tem, sim, uma grande vantagem sobre a Turquia: a Rússia tem muitos bombardeiros de longo alcance, armados com bombas de gravidade e mísseis cruzadores, capazes de atingir os turcos em quaisquer pontos, na Síria e dentro da Turquia. Na verdade, a Rússia tem até capacidade para atingir 
campos turcos de pouso e decolagem, coisa que os turcos não podem impedir, e ataque que eles não podem retaliar nos mesmos termos. O grande risco para a Rússia, nesse ponto, seria que a OTAN interpretasse o movimento como "agressão russa" contra estado-membro da aliança, especialmente se a conhecida e infame base aérea de Incirlik for atingida.

Erdogan também tem de considerar outro risco real: a possibilidade de que, por mais bem treinadas e armadas que sejam, as forças turcas talvez não tenham como resistir, em combate, como os muito experientes curdos e sírios, especialmente se os sírios receberem cobertura e apoio de forças do Irã e do Hezbollah. Os turcos tem currículo bem lastimável contra os curdos, que os turcos tipicamente ultrapassam em número e em poder de fogo, mas curdos que a Turquia nunca conseguiu, nem neutralizar, nem reduzir nem eliminar. Por fim, há a possibilidade de que os russos venham a usar tropas de solo russas, especialmente se a força tarefa estacionada em Khmeimim estiver realmente ameaçada.

Quanto a isso, tenho de dizer desde já que a projeção de uma, digamos, força aeroembarcada, para região tão distante da fronteira russa, para proteger uma pequeno contingente como o que há na base de Khmeimim não é, pelo menos em estritos termos "de manual", a missão para a qual as Forças Aeroembarcadas são previstas. Mesmo assim, em teoria, se ante um possível ataque contra o pessoal russo em Khmeimin, os russos podem decidir fazer pousar lá uma força aeroembarcada com dimensões de regimento, cerca de 1.200 soldados, plenamente mecanizados, com blindados e artilharia. Essa força poderia ser suplementada por um batalhão de infantaria naval de mais 600 homens. Pode não parecer muito, na comparação com os divulgados 18 mil homens que Erdogan reuniu na fronteira, mas tenham em mente que só uma parte dos 18 mil estarão disponíveis para ataque por terra contra Khmeimin e que 
as forças Aerotransportadas russas podem converter até força muito maior que aquela em bife de hambúrguer (para uma olhada nas modernas forças Aerotransportadas russas, por favor cliquem aqui). 

Francamente, não vejo os turcos tentando destruir Khmeimin, mas qualquer substancial operação de solo dos turcos tornará esse cenário pelo menos possível, e os comandantes russos não podem dar-se o luxo de supor que Erdogan seria mentalmente são – com certeza não, depois de ele ter derrubado o jato SU-24. Depois daquela ação, os russos têm, simplesmente, de assumir o pior.

O que é claro é que em qualquer guerra entre Rússia e Turquia a OTAN terá de tomar uma decisão chave: a aliança estará preparada para ir à guerra contra uma potência nuclear como a Rússia... e para proteger um lunático, como Erdogan? 

É difícil imaginar os EUA/OTAN cometendo tal loucura, mas, infelizmente, guerras sempre têm potencial para muito rapidamente escapar de qualquer controle. A moderna teoria militar desenvolveu muitos excelentes modelos de escaladas, mas, infelizmente, nenhum modelo de como poderia acontecer a des-escalada (nenhum, pelo menos, que eu conheça). Como é que se des-escala, sem deixar a impressão de rendição ou, no mínimo, de que se é o lado mais fraco?

A situação atual é cheia de perigosas e instáveis assimetrias: a força-tarefa russa na Síria é pequena e isolada e não pode proteger a Síria contra um ataque pela OTAN ou pelos turcos, mas no caso de guerra em grande escala entre Rússia e Turquia, a Turquia não tem qualquer chance de vitória: zero, absolutamente nenhuma. 

Numa guerra convencional entre OTAN e Rússia pessoalmente não vejo nenhum dos dois lados na posição de derrotado (seja lá o que signifiquem "derrota" e "vitória" nesse contexto), sem que, antes, alguém tenha usado armas nucleares. Isso me leva a pensar que os EUA não podem permitir que Erdogan ataque a força-tarefa russa na Síria, não durante invasão por terra nem – e muito menos – durante alguma tentativa para estabelecer uma zona aérea de exclusão.

O problema para os EUA é que não há boa opção para alcançar o eterno objetivo dos EUA na Síria: "impedir que a Rússia vença". 

Na mente delirante dos governantes anglo-sionistas, a Rússia é reles "potência regional", que os EUA não podem permitir que chegue a alguma posição em que pareça superior à "nação indispensável". Pois isso, precisamente é o que a Rússia está fazendo na Síria e também na Ucrânia. E a 'política' de Obama para a Rússia está reduzida a farelo. Como Obama pode deixar-se ver em tal posição de fraqueza, em ano eleitoral? O "estado profundo" dos EUA deixará que o Império seja humilhado, sua fraqueza exposta?

O noticiário mais recente me indica, muito fortemente, que a Casa Branca já tomou a decisão de deixar que Turquia e Arábia Saudita invadam a Síria. 
Funcionários turcos andam dizendo abertamente que a invasão é iminente e que o objetivo de tal invasão seria reverter os avanços do exército sírio ao longo da fronteira e perto de Aleppo. Informes mais recentes sugerem também que os turcos já começaram a bombardear Aleppo. Nada disso poderia estar acontecendo sem total apoio do CENTCOM e da Casa Branca.

Parece que o Império concluiu que o Daech não é suficientemente forte para derrubar Assad, não, pelo menos, quando as forças Aeroespaciais Russas apoiam o presidente da Síria; assim sendo, o Império agora mandará os turcos e os sauditas, na esperança de mudar o desfecho dessa guerra ou, não sendo isso possível, esquartejar a Síria em "zonas de responsabilidade" – sempre, é claro, sob o pretexto de estar combatendo o Daech.

A força-tarefa russa na Síria está a pequena distância de ser muito seriamente desafiada, e não sei como poderá, sozinha, lidar com essa nova ameaça. Desejo muito estar errado nisso, mas tenho de admitir que 
é altamente provável que aconteça agora, afinal, uma *real* intervenção russa na Síria, com MiG-31s e tudo. Fato é que, nos próximos poucos dias, nós, provavelmente, testemunharemos escalada dramática no conflito na Síria.

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