terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

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Sem oposição armada, caminhando para a paz

Thierry Meyssan, REDE VOLTAIRE
tradução: ALVA

As negociações na cidade de Genebra para a paz na Síria, começaram depois que a oposição bancada pela Arábia Saudita finalmente ter se curvado aos pedidos do Departamento de Estado dos EUA para que participassem. Thierry Meyssan observa que enquanto Washington e Moscou esperavam em dezembro por uma paz rápida e adotavam a resolução 2254m os Estados Unidos agora tem a convicção de que os líderes escolhidos por Riad não são capazes de exercer o poder.


As negociações previstas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas para resolver o conflito sírio deverão começaram em Genebra hoje, 1 de fevereiro de 2016, com uma semana de atraso. Contrariamente ao que esperavam os neoconservadores e os falcões liberais, no início da guerra, não se tratará de escrever a ata de capitulação da República Árabe Síria e de a substituir por um «Órgão de Transição», dominado pela Irmandade Muçulmana, mas de negociar um cessar-fogo, para depois organizar a redação de uma nova constituição e de eleições abertas a todos.

As Nações Unidas sob suspeita

Em primeiro lugar, o próprio princípio de negociações sob a égide das Nações Unidas foi colocado em causa desde a publicação de informações sobre o papel secreto —desde 2005— do Secretário-Geral Adjunto, Jeffrey Feltman, e do seu perito, o acadêmico alemão Volker Perthes. Parece, com efeito, que as Nações Unidas não são parte neutra, mas, sim, que participam no conflito. Foram as Nações Unidas que organizaram a Comissão Mehlis e o Tribunal Especial para o Líbano, encarregados de acusar, julgar e condenar o Presidente Emile Lahoud e Bashar el-Assad pelo assassinato do antigo Primeiro-ministro Rafic Hariri. Foram as Nações Unidas que pagaram as falsas testemunhas, criaram um tribunal, sem o fazer aprovar nem pelo Governo nem pelo Parlamento libanês, e, depois recusaram mostrar o seu relatório sobre a reconstrução do assassinato. Foram, novamente, as Nações Unidas que redigiram, em julho de 2012, o plano Perthes-Feltman de capitulação total e incondicional da República Árabe Síria, depois fazendo arrastar as negociações na esperança de uma indiscutível vitória dos jihadistas.

O fato de que a Rússia e os Estados Unidos tenham escolhido não divulgar o plano Perthes-Feltman, mas, que não tenham, no entanto, conseguido conter a ação belicosa do Secretariado-Geral das Nações Unidas, salvou, por um lado, a instituição da ONU de uma crise existencial, mas também lhe fez perder toda a credibilidade, pelo menos no caso sírio.

De fato, os opositores da República Árabe Síria sabem que os organizadores da ONU são agora, para eles, aliados inúteis por estarem sob pressão da Rússia e dos Estados Unidos. Ao invés, a delegação síria mantêm sempre a possibilidade de recusar um acordo que lhe seria imposto com base em manobras secretas, prévias, de organizadores nomeados pela ONU.

É por isso que Genebra3 aparece, agora, não mais como uma iniciativa da ONU mas como um arranjo russo-americano.

Os novos líderes da oposição marginalizaram-se a si próprios

Em segundo lugar, os Estados Unidos que desejavam, até aqui, fosse ou destruir a República Árabe Síria, ou, no mínimo, impor-lhe um compromisso, não têm mais interesse nisso. Como havia analisado a Rand Corporation, há já um ano, qualquer outro governo além do atual seria pior, tanto para Moscou quanto para Washington.

Com efeito, no início da guerra a oposição estava representada por intelectuais, que a CIA havia corrompido no decurso de anos precedentes, e pelos Irmãos Muçulmanos que trabalhavam para Langley (sede da Cia-ndT), pelo menos desde 1953. Não é mais o caso, hoje em dia. Os intelectuais, que tinham capacidade para governar, tiveram que dar lugar aos senhores de guerra recrutados e financiados pela Arábia Saudita. Ora, o reino saudita é um regime tribal que só aceita laços de suserania-vassalagem tribais. Ele escolheu, pois, estes chefes de guerra em função da sua proveniência ou da sua origem tribal. Ao fim de vários anos, mesmo aqueles que provinham de famílias urbanas regrediram a comportamentos tribais. Ao fazê-lo, eles apenas podem representar os nômades do deserto sírio-saudita. Quanto aos Irmãos Muçulmanos, eles não conseguiram conservar o poder na Tunísia e no Egito. Por conseguinte, não mais estão considerados por Washington como aptos a governar um país.

A nomeação, em Riad, de um presidente e de um porta-voz do Comitê de negociações escolhido entre os antigos ministros baathistas não chegou para mascarar a realidade dos senhores de guerra.

É, aliás, uma lição desta guerra: a aliança não natural dos Ocidentais com os Saud chegou a um impasse. O que era tolerável para os Saud em sua casa, não o é no estrangeiro. A expansão do wahhabismo levanta, hoje em dia, problemas no seu próprio solo aos Europeus, a do tribalismo no Próximo-Oriente Médio seria uma catástrofe para todos, já que isso significaria uma «somalização» da região. Era, é certo, o objetivo dos Straussianos, mas não é mais o do Presidente Obama. Jamais se conseguirá sublinhar o bastante a incompatibilidade dos Estados modernos com as sociedades tribais, que conduziu, aliás, todos os Estados modernos a sedentarizar a sua população.

Damasco, poderá chegar à reconciliação sem Genebra 3 ?

Em terceiro lugar, a República Árabe Síria que havia sido forçada a negociar, em 2012, para sobreviver, não o é mais hoje em dia. No terreno, por todo o lado, salvo no Nordeste, o Exército Árabe Sírio reconquista o território que havia perdido. Ela só vai a Genebra por estar convencida da necessidade de se reconciliar com os 10% da sua população que apoiou os Irmãos Muçulmanos.

Considerando a ausência da delegação da oposição durante toda a semana passada, Damasco interrogou-se de novo sobre as suas outras opções. Ela não teve necessidade das Grandes potências para concluir localmente acordos de reconciliação, e poderia, provavelmente, conseguir isso também no plano nacional se a oposição admitisse renunciar a «derrubar o regime».

Em conclusão, as negociações de Genebra não podem senão levar a mais que a integração das facções da oposição no seio de um governo de união nacional. Ora, isto é impossível tendo em conta as posições dos padrinhos desta oposição (Arábia Saudita, Turquia e Catar). No seu formato atual, nada pode resultar destes solilóquios.



Para não esquecer:

 A equipe de negociadores das Nações Unidas (Jeffrey Feltman, Staffan De Mistura e Volker Perthes) perdeu a sua aparência de neutralidade desde a revelação do seu envolvimento secreto contra a República Árabe Síria.
 A oposição patrocinada pela Arábia Saudita, apesar de duas figuras de fachada, é agora apenas composta de chefes de guerra saídos de tribos sírio-sauditas, o que a impede de pretender representar o conjunto dos Sírios.
 A Síria não precisa mais das Grandes potências para chegar à reconciliação nacional.




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