domingo, 7 de fevereiro de 2016

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Chegando ao clímax na Síria

Ghassan Kadi
tradução por btpsilveira

O que começou como a “Guerra da Síria” dá sinais de que poderá evoluir para uma ferida incurável, alimentada e apoiada por oitenta e três nações lideradas pela Turquia, Arábia Saudita, Qatar, Israel e OTAN, somando-se as nações pró OTAN, agora está sem dúvidas chegando ao clímax.
Genebra III está morta, como já tinham nascido mortas Genebra I e II. Desta vez, no entanto, a Síria e seus aliados estão com as cartas na mão e na realidade jogando um joguinho de gato e rato contra seus inimigos, e por que não? Afinal de contas, agora a bola está com eles e não foi fácil chegar a esta situação. É o resultado de muito sangue e sacrifício.

Dito isto, para qualquer lado que se olhe para aquilo que se convencionou chamar “Guerra da Síria”, mesmo para aqueles que acreditam sinceramente que se trata de uma revolução e escolha chamar os acontecimentos de “Revolução Síria” ou seja lá que nome se lhe dê, os eventos recentes indicam que está se chegando a um clímax, de uma forma ou outra.
O tempo dos impasses já acabou há tempos. Quando muito, os impasses foram o resultado de uma série de condições d estagnação no campo de batalha, que não permitia que qualquer dos lados emergisse como vencedor em determinadas áreas específicas, mas como o exército sírio está agora fazendo avanços de varredura em vários territórios de diferentes fronts sob a proteção aérea da Rússia, os impasses não durarão muito.
Não importa a maneira pela qual se olhe a situação atual na Síria, favorável, desfavorável ou indiferentemente, qualquer um pode ver que há sérias mudanças em curso. Tais mudanças podem eventualmente culminar em novos desenvolvimentos e o clímax para se chegar a um resultado final pode não estar longe.
Algumas das principais figuras envolvidas nas maquinações iniciais da “Guerra da Síria” já tiveram que encarar o seu próprio clímax e deram com os burros n’água. Talvez o príncipe saudita Bandar bin Sultan seja a vítima mais exemplar. Poucos conspiradores na história tropeçaram na própria espada de uma forma mais humilhante do que ele, que foi subitamente rebaixado de príncipe coroado para um virtual zero à esquerda.
Os resultados alcançados até agora pela colaboração entre avanços do exército sírio e cobertura aérea da Rússia no terreno está pouco a pouco apertando o nó no pescoço de Erdogan, deixando-o com algumas poucas opções desagradáveis. Os sauditas não estão em situação muito melhor, mas a Arábia Saudita não tem fronteiras comuns com a Síria, e a Arábia Saudita não tem curdos em seu território.
Agora que Erdogan mostrou aos curdos a dimensão de seu ódio contra eles na Síria, Iraque e no interior da própria Turquia, não pode mais fazer voltar o relógio para restaurar a situação anterior à sua “Guerra contra a Síria” para um status meramente diplomático em relação aos curdos.
Erdogan deve estar agora embaralhando suas cartas, pensando em várias opções e pesando seus riscos. Sem encontrar algum tipo de acordo com a Rússia, ele não pode livrar a cara. Mas a janela de negociações diplomáticas com a Rússia foi lacrada firmemente e os russos não se sentarão em uma mesa de negociações com ele, não depois da derrubada do SU-24 e depois que seus mercenários mataram o piloto russo ainda em seu paraquedas. Pensando realisticamente ele entende que não pode surgir de repente com uma vitória, por menor que seja, a não ser por meio de ações militares. Mas como suas maquinações no jogo militar na Síria começaram a ruir mesmo antes da intervenção da Rússia, que esperança de ganhos militares pode ter ele agora que a Rússia se encontra firmemente assentada no solo e nos céus da Síria?
Ocorre que se ele aceita o desenvolvimento dos acontecimentos atuais e permite que a Síria vença, estará enfrentando, entre outras coisas, gravíssimas repercussões internas na Turquia. De fato, tais repercussões já tiveram início, e uma rápida olhada em Diyarbakir e cercanias diz tudo.
A única opção que restaria a Erdogan seria um conflito militar com a Rússia, mas para fazer isso ele necessita de ajuda.
Os sauditas afirmaram estar dispostos a enviar tropas para a Síria para lutar “ao lado dos Estados Unidos contra o Daesh”, entre aspas.  Todos nós sabemos o que isso significa na realidade. É sua maneira de dizer que pretendem usar a Turquia como rota e trabalhar ao lado das tropas turcas para atacar a Síria. No entanto, ironicamente, a Arábia Saudita, que tem um orçamento militar tão grande quanto o da Rússia, não foi capaz sequer de obter uma vitória militar no Iêmen, e provavelmente nunca será. O recente anúncio de enviar tropas para lutar na Síria, na prática soa como piada. Posto isto, Erdogan não precisa do exército saudita. O exército turco tem músculos poderosos por si mesmo, mas não o suficiente para encarar a Rússia. Nem um pouco. De qualquer forma, qualquer envolvimento do exército saudita seria apenas simbólico. Além do mais, os sauditas podem até querer brigar com a Síria mas não querem encrencas com a Rússia.
A Turquia nunca terá capacidade para lutar uma guerra contra a Rússia sem auxílio externo, mas todos os indícios são de que se engajará em uma luta contra o Grande Urso, esperando ajuda da OTAN. O aliado na mira de Erdogan não é a Arábia Saudita e sim a OTAN e não há novidade nisso. Erdogan está tentando jogar com a carta OTAN desde antes da derrubada do SU-24 em novembro de 2015.
A Turquia sempre quis ser membro da OTAN e a razão sempre foi a Rússia. As querelas entre as duas nações vêm de séculos e a disputa versa não só sobre território, mas engloba também a religião. Realmente. Os otomanos invadiram regiões inteiras de fé ortodoxa, dizimaram o Império Bizantino e apenas a Rússia foi capaz de evitar sua mão pesada. No entanto o destino quis que o Império Otomano desmoronasse e a Rússia se tornasse uma grande superpotência na altura em que a OTAN foi fundada, em 1949. Na ocasião, não havia motivos para que a Turquia pretendesse se juntar à OTAN a não ser o medo da Rússia.
Por quase cinco anos, os inimigos da Síria tentaram a sorte insistindo no engajamento dos Estados Unidos e da OTAN na luta contra o exército sírio, em vão. O massacre por ataque químico ao leste de Ghouta, que foi lançado às costas do exército sírio foi uma tentativa desesperada de levar a UNSC a uma resolução semelhante a que acontecera dois anos antes em relação à Líbia. Desta vez, a Rússia vetou a decisão.
Acontece que Erdogan nunca desistiu de seus intentos de arrastar a OTAN para um conflito que a OTAN não precisa, bem como forçar uma resolução do UNSC. Ocorre que seus apelos parecem ter caído em ouvidos moucos. O encontro extraordinário da OTAN que Erdogan requereu imediatamente após o incidente deixou claro que a Turquia e a Rússia têm que trabalhar em conjunto para resolver seus problemas. A mensagem da OTAN para a Turquia foi clara: deixe a OTAN fora disso.
Mas a Turquia não cessa suas tentativas de começar uma Guerra contra a Rússia. Dias depois, uma cidade síria desocupada foi bombardeada porque a Turquia aparentemente a estava usando para providenciar cobertura para os jihadistas em retirada. Na verdade, as notícias de hoje estão informando que a Rússia está alerta quanto às preparações turcas para enviar tropas para o interior da Síria. Enquanto a Rússia avisa, Erdogan continua mexendo seus pauzinhos.
Com ou sem o apoio da OTAN, é preciso ser muito doido para querer uma Guerra contra a Rússia. Mas Erdogan parece querer exatamente isso. E todas as suas ações desde a derrubada do SU-24 apontam nessa direção. Ele está se comportando como um cachorro louco encurralado em um canto. Uma guerra desse porte tem o potencial de desenvolver-se como uma guerra global e disparará imediatamente uma miríade de conflitos regionais.  Milhões de vidas podem ser perdidas e nenhum ser humano em sã consciência pode querer tragédia dessa magnitude. Mas como deter a caminhada desse cachorro louco e colocá-lo preso numa coleira, com focinheiras e tudo?
Erdogan está apostando alto em um jogo perigosíssimo neste momento, não apenas cutucando com vara curta uma superpotência, mas também pela esperança de que no último instante a OTAN venha em seu auxílio para dar um fim ao jogo.
Caso ocorra um conflito regionalizado entre a Turquia e a Rússia, a OTAN certamente terá algo a dizer, mas a verdadeira questão é esta: caso a guerra alcance um estágio de envolvimento total entre Rússia e Turquia, a OTAN entrará decisivamente no teatro de guerra para livrar a pele de Erdogan? Ninguém pode afirmar nada, mas as apostas são de que tal cenário é improvável.
Críticos e cínicos podem dizer que a OTAN e em particular os Estados Unidos, jamais deixariam de lado seus interesses regionais na Turquia, mas há que se levar em consideração que defender a Turquia é uma coisa e defender Erdogan é outra.
Se tiver que escolher entre deixar que Erdogan caia em desgraça e enfrente seu destino de perdedor e entrar em uma Guerra de escala total contra a Rússia, os Estados Unidos e a OTAN podem muito bem escolher a primeira opção e deixar que aconteça o sacrifício pessoal de Erdogan. De fato, trata-se do cenário perfeito para mais uma revolução colorida e o que impediria os Estados Unidos de engendrar na Turquia mais uma delas? Afinal de contas, quando se trata de trair aliados, os EUA são especialistas. Profissionais.
Uma boa olhada no mapa do norte da Síria e nos avanços recentes do Exército Sírio indica claramente que a região ocidental das fronteiras pode cair rapidamente nas mãos do Exército Sírio, e neste caso rapidamente significa algumas semanas. Em poucas semanas, provavelmente menos ainda, a cidade de Aleppo poderá estar sob a custódia do Governo Sírio. Isso será um golpe terrível para Erdogan. Levando em conta que a fronteira entre Síria e Turquia na região de Hatay é toda montanhosa e de difícil penetração militarmente falando, uma vez que esteja em mãos do exército sírio, será quase impossível para a Turquia retomá-la. Já o lado oriental da fronteira é plano e propício para avanços militares, mas as tropas ficam o tempo todo como alvo fácil para ataques aéreos.
Outro grande fator de risco para Erdogan reside no fato de que, em ano de eleições, os Estados Unidos dificilmente estarão dispostos a engajar-se em novas guerras. Qualquer guerra, inda mais uma de grandes proporções contra a Rússia.
De uma maneira ou outra a espada de Dâmocles sobre a cabeça de Erdogan deve cair a qualquer momento e a grande popularidade que conquistou após as reformas econômicas gradualmente vai sendo desbastada. Mesmo tendo ganhado as últimas eleições, caso a Turquia se veja em face de mais lutas domésticas e sendo arrastada por seu líder para uma grande guerra, não só as grandes conquistas econômicas serão esquecidas, com a Turquia de volta para o abismo econômico, como abrir-se-ão as portas para todas as possibilidades políticas, com ou sem revolução colorida.
O relógio não para de andar, e na medida que as forças leais a Erdogan dentro da Síria perdem terreno e coragem a cada instante, o nervosismo de Erdogan só faz aumentar. Ele encontra-se atualmente a cada dia mais acuado a um canto, forçado a um joguinho de roleta. Estilo russo.

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Resultado de imagem para The Saker
Semana 17 da intervenção russa na Síria:

Erdogan quer guerra com a Rússia? 

Tradução: Vila Vudu



Os turcos recusarem-se a cumprir o que determina o Tratado "Open Skies" é desenvolvimento muito preocupante, especialmente se combinado com os alertas russos sobre preparativos para invasão turca à Síria. E os russos não estão economizando no alerta (
vídeo legendado em inglês).

Há muitos outros indicadores de que, sim, é possível uma escalada na guerra: as negociações de Genebra foram abruptamente interrompidas; os sauditas 
estão ameaçando invadir a Síria e há sinais de que o exército sírio, lentamente, mas sem retrocesso, prepara uma operação para libertar Aleppo ainda ocupada por takfiris, o que está criando pânico em Ancara e Riad (o que implica que já deram adeus às ideias estúpidas de que os russos estariam sendo contidos ou de que não existiria exército sírio).


Ao mesmo tempo, há muitos indícios de que todo o "grande plano" de Erdogan para a Síria já colapsou completamente e que não lhe restam opções (leiam, por favor, 
a excelente análise de Ghassan Kadi sobre isso que postei hoje, e, também, a reflexão de Pepe Escobar sobre o mesmo tema.


Não sou adivinho nem profeta. Não posso saber o que Erdogan está realmente pensando, ou se os turcos tentarão invadir a Síria. Mas posso, isso sim, oferecer alguns palpites relativamente bem informados sobre possíveis respostas a esse movimento dos turcos, se acontecer.


Primeiro, dois princípios básicos:


1) Forças russas que sejam atacadas, revidarão. Putin até já lhes deu a necessária autoridade para decidir, e acontecerá quase automaticamente, com comandos locais já autorizados a tomar decisões. Em outras palavras, essa troca de tiros não implicará automaticamente guerra em escala total entre Turquia e Rússia.


2) Se a Turquia invadir a Síria, a Rússia agirá em estrita observância ao que determina e assegura a lei internacional. Significa que exigirá reunião de emergência do Conselho de Segurança da ONU e que muita coisa dependerá de como o Conselho reaja. Se a gangue dos fantoches de sempre der 'cobertura' à Turquia (o que, em minha opinião não é provável que aconteça, ou não, pelo menos, por muito tempo, no máximo por uma semana, por aí), nesse caso os russos declararão suas obrigações de proteger a Síria, nos termos do "Tratado de Amizade e Cooperação", de 1980, entre os dois países (sendo a Rússia estado sucessor da URSS, o tratado é plenamente vigente) e do "Acordo entre a Federação Russa e a República Árabe Síria sobre atuação de grupo de aviação das Forças Armadas sobre território da República Árabe Síria", de 2015.


Em outras palavras, a Rússia preservará para ela certo grau de flexibilidade para interpretar a situação, numa ou noutra direção. E isso, por sua vez, significa que muita coisa dependerá de o que os turcos realmente tentem conseguir.


Se estamos falando da velha típica violação pelos turcos de uma fronteira nacional para atacar os curdos, como já fizeram muitas vezes no passado, e se a intervenção for limitada em profundidade, a Rússia provavelmente optará por meios não militares para pressionar a Turquia. Mais uma vez, por mais que os doidos na Turquia anseiem muito por guerra com a Rússia para internalizar o conflito e forçar a OTAN a intervir, os russos não têm interesse algum nessa escalada.


Assim como no Donbass, o ocidente tenta fisgar a Rússia e arrastá-la para alguma guerra, e a Rússia recusa-se a morder a isca. 


O problema é que, diferentes dos ucronazistas, os turcos têm máquina de guerra muito poderosa, que os russos não podem ignorar como ignoraram o exército ucronazista e seus muitos esquadrões da morte. Assim, se o objetivo de Erdogan for mostrar-se muito macho e flexionar alguns músculos, como, digamos, Reagan fez em Grenada, nesse caso é possível que nada de mais lhe aconteça, pelo menos por algum tempo. Mas se Erdogan estiver decidido a criar um conflito com a Rússia, os russos não poderão simplesmente dar de ombros e esperar que ele se acalme.


Nesse segundo caso, a Rússia terá várias opções para escalar.


A primeira opção óbvia é ajudar sírios e curdos com informação de inteligência. Já está sendo feito agora e, em caso de invasão turca, as ações serão apenas intensificadas.


A segunda é varrer dos céus as aeronaves turcas, aviões e helicópteros. É opção fácil, dado que os sírios já têm sistemas bastante bons de defesa antiaérea (incluindo alguns Pantsir-S1, Buk-M1/2E, Tunguskas 2K22 e sistema de alarme precoce bastante robusto) e mais algumas aeronaves mais ou menos capazes (que incluem, possivelmente, MiG-29s modernizados). O Kremlin pode pois contar com certo grau do que a CIA chamou de "negabilidade plausível".


A terceira opção ao alcance da Rússia é ajudar os sírios com o sistema de artilharia que os russos já instalaram na Síria, incluindo armas MTSA-B 52-mm, e lançadores de foguetes BM-27 Uragan e BM-30 Smerch.


Todas essas opções ainda não alcançam nível de guerra em "plena escala" entre Rússia e Turquia. Mas se Erdogan estiver determinado a escalar ainda mais, então a guerra será inevitável. Se a Turquia tentar atacar diretamente a base Khmeimim, não há nem sombra de dúvida de que nesse caso a Rússia retaliará.


Que ares terá isso?


A primeira coisa que eu diria é que nem um nem outro país tentará invadir o outro. A ideia de a Turquia invadir a Rússia é autoevidentemente cômica; mas, embora a Turquia esteja dentro da profundidade de 1.000 km para a qual os militares russos são treinados, não creio que a Rússia sequer cogite de invadir a Turquia. Para começar, e exatamente como acontecia no caso da Geórgia, ninguém na Rússia realmente acredita que os turcos, como nação, desejem guerra. No máximo, Erdogan está muito mais para um "Saakashvili versão 2", que para um Hitler, e será enfrentado por esse parâmetro. Além do mais, se durante a guerra de 08.08.08 a Rússia teve de proteger a população de Ossetia, contra os quase genocidas georgianos, no caso do Curdistão a Rússia não tem obrigação semelhante.


Cenário muito mais provável é repetição do que já vimos, mas em escala muito maior: se Erdogan realmente forçar a Rússia a entrar em guerra, haverá ataques de mísseis cruzadores e balísticos contra qualquer infraestrutura que dê suporte à invasão contra a Síria; afundamento de qualquer nave da Marinha Turca que se envolva no esforço; e ataques à bomba e de mísseis contra concentrações de forças turcas e depósitos de munição e combustível (
POL); e, especialmente, contra pistas de pouso. O objetivo da resposta russa não será "derrotar" militarmente a Turquia, mas empurrar os turcos a retroceder, e impor a Erdogan a necessidade de um cessar-fogo.
 

Mesmo que os militares russos sejam capazes de derrotar completamente a Turquia numa guerra, o Kremlin também sabe perfeitamente que qualquer guerra entre Turquia e Rússia sempre terá de ser encerrada o mais rapidamente possível. Além do que, muito mais que "derrotar a Turquia" o verdadeiro objetivo dos russos sempre será derrotar Erdogan.


Por essa razão, os russos, longe de coçarem o dedo no gatilho, empreenderão todos os esforços imagináveis para mostrar que não iniciaram a guerra, mesmo que isso signifique deixar a Turquia entrar na Síria, pelo menos enquanto os turcos se mantiverem próximos da fronteira e desde que não tentem mudar o curso da guerra. Se tudo que os turcos quiserem for uma estreita "zona segura" dentro da Síria, não vejo os russos usando força militar para negar-lhes isso.Protestarão veementemente, em nível diplomático, a ajudarão sírios e curdos, mas não atacarão diretamente as forças turcas.


E quanto aos sauditas? Ora bolas, e o quê, quanto aos sauditas? Pois se não conseguem dar conta nem dos Houthis no Iêmen, por que alguém suporia que poderiam fazer alguma diferença na Síria? Os militares sauditas são piada. Não passam de força repressora degenerada, que mal consegue levar a cabo operações de repressão anti-xiitas. Podem ameaçar o quanto queiram, mas se tentarem entrar na Síria, sírios, russos, iranianos e o Hezbollah disputarão, uns contra outros, o direito de ser o primeiro exército que aplicará uma lição naqueles felásdaputa, que eles não esquecerão por muito tempo.


Francamente, simplesmente não quero crer que Erdogan e seus conselheiros sejam suficientemente doidos para tentar disparar uma guerra contra a Rússia, nem, sequer, para invadir a Síria. Erdogan, sim, é claramente maníaco, mas não acredito que toda a equipe que trabalha no governo turco sejam, todos, lunáticos. Além do mais, não consigo imaginar que EUA/OTAN/UE realmente apoiariam uma invasão turca à Síria ou, ainda menos, um ataque à Rússia. A russofobia é grande e forte, mas só enquanto não expõe o pescoço de cada um a uma guerra continental, porque aí prevalecem o autointeresse e a própria sobrevivência, acima de qualquer noção ideológica. Ou, pelo menos, espero que assim seja.


É possível que esteja sendo ingênuo, mas quero acreditar que o povo turco não ficará, lá, sentado, enquanto um presidente ensandecido arrasta o país deles a uma guerra contra a Rússia.


Para concluir, não quero deixar de mencionar algo bem estranho. Um 
ancião grego, um monge, de nome Paisios, que a Igreja Russa Ortodoxa consagra como santo, é muito conhecido pelas visões proféticas. Uma das mais famosas é a previsão de que Turquia e Rússia se enfrentariam numa grande guerra, cujo resultado seria o esfacelamento da Turquia, com Constantinopla libertada do jugo otomano (quem se interesse, encontra detalhes aqui e aqui).


Claro que sei que, hoje, muita gente simplesmente desconsidera esse tipo de coisa como total nonsense, obscurantismo, superstição, pensamento 'desejante', brotado da cabeça de um "grego ressentido", 'enrolação' religiosa, etc. OK. Mas tenham em mente que, entre os séculos 15 e 20,
Rússia e Turquia já combateram, uma contra a outra, 12 guerras (!). É mais de duas guerras (exatamente 2,4 guerras) por século, e a mais recente aconteceu já faz um século.


Assim sendo, independente de o que você pense sobre profecias, experiência histórica ou estatísticas, as coisas, sim, sim, parecem muito, muito assustadoras, pelo menos em minha opinião. E, como Ghassan Kadi e Pepe Escobar explicaram, Erdogan está preso contra a parede, sem saída. Isso, além de tudo mais, também o torna muito perigoso.


Os anglo-sionistas são especialistas em soltar pelo planeta os mais enlouquecidos ideólogos (wahabistas no Oriente Médio; neonazistas na Ucrânia), mas sempre acabam, mais cedo ou mais tarde, por, de um modo ou de outro, perder o controle sobre suas criaturas.
 

Espero que a 'cobertura' que os EUA dão hoje ao regime de Erdogan não resulte em disparar contra o mundo mais uma dessas ideologias pervertidas – um Imperialismo Otomano. Ou, se já tiverem disparado, que ainda esteja em tempo de os EUA porem rédeas naquele lunático, antes de que seja tarde demais.


Erdogan e seu regime são ameaça à paz regional e, também, à paz mundial. Não me faz diferença quem o tire do poder, se o povo turco ou a Casa Branca, mas, sim, espero que os dias de Erdogan no poder estejam contados, porque, enquanto ele lá permanecer, há risco real de uma catástrofe de grandes proporções.

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2 comentários:

  1. O jogo é muito complicado, mas reza a lei do bom senso que, antes de fazer um lerda qualquer, Erdogan, opte por votar no Figueiredo, pois quem tem K@ tem medo.

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