quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Trump eleito – riscos e oportunidades

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9/11/2016, The Saker, 
The Vineyard of the Saker
Tradução pelo Coletivo de Tradutores da VILA VUDU

Então, aconteceu: Hillary não venceu! Digo nesses termos, em vez de "Trump venceu", porque considero a primeira fórmula ainda mais importante que a segunda. Por quê? Porque não tenho ideia do que Trump fará na sequência. Mas, sim, tenho excelente ideia do que Hillary teria feito: guerra à Rússia. Trump, parece, não fará tal coisa. De fato, foi o que disse especificadamente, no discurso em que assumiu a vitória eleitoral:



Quero dizer à comunidade mundial que, por mais que sempre manteremos os interesses dos EUA em primeiro lugar, negociaremos em termos justos com todos, todos – todos os demais povos e todas as demais nações. Buscaremos terreno comum, não a hostilidade; parceria, não conflito.



A resposta de Putin foi imediata:



Ouvimos suas declarações como candidato a presidente, manifestando desejo de restaurar relações entre nossos países. Sabemos e compreendemos que não será estrada fácil, dado o quanto nossas relações estão hoje, lamentavelmente, degradadas. Mas, como já disse antes, não é culpa da Rússia, que nossas relações com os EUA tenham chegado ao ponto a que chegaram.



A Rússia está pronta e busca um retorno a relações de formato pleno com os EUA. Permitam-me repetir, sabemos que não será fácil, mas estamos prontos a tomar essa via, dar passos pelo nosso lado e fazer tudo que possamos para repor as relações entre Rússia e EUA de volta numa trilha de desenvolvimento estável.



É procedimento que beneficiará nossos povos, o povo russo como o povo dos EUA, e terá impacto positivo no clima geral dos assuntos internacionais, dada a específica responsabilidade que Rússia e EUA partilham, na manutenção da estabilidade e da segurança globais.



Essa troca de palavras, no pequeno trecho de discurso que aí se lê, é razão suficiente para que todo o planeta festeje a derrota de Hillary e a vitória de Trump.



Trump terá agora a coragem, a força de vontade e a inteligência para expurgar o Executivo dos EUA de toda a gangue neoconservadora que ali se infiltra já há décadas? Terá a força necessária para enfrentar Congresso e mídia-empresa extremamente hostis? Ou tentará encontrar um ponto médio, na esperança ingênua e simplória de que seus adversários não usarão o poder, o dinheiro e a capacidade de influir que têm, para sabotar a nova Casa Branca?



Não sei. Ninguém sabe.



Um dos primeiros indícios que se devem procurar está nos nomes e respectivos currículos dos que Trump indicar para formar seu governo. Especialmente o/a Chefe de Governo e o/a Secretário de Estado.



Sempre disse que escolher o mal menor é opção moralmente viciada e pragmaticamente mal orientada. Continuo a pensar assim. Mas nesse caso o mal maior era guerra termonuclear contra a Rússia, e o mal menor pode acabar por se revelar como alguém que cederá o Império, para salvar os EUA; em vez de sacrificar os EUA às necessidades do Império. No caso de Hillary vs Trump, a escolha era simples: guerra ou paz.



Pode-se dar a Trump desde já o mérito da primeira impressionante realização: sua campanha forçou a mídia-empresa norte-americana a expor sua verdadeira cara – cara de máquina de propaganda, mentirosa e moralmente corrompida. O povo norte-americano, por seu voto, mandou um gigantesco "f*da-se!" às empresas e veículos da mídia-empresa – um voto de desconfiança e de total rejeição que pôs abaixo, para sempre, a credibilidade da máquina de propaganda do Império.



Não sou ingênuo a ponto de não ver que o bilionário Donald Trump é também um dos um-por-cent-istas [orig. 1%ers], puro produto da oligarquia norte-americana. Mas tampouco só ignorante da história a ponto de esquecer que elites muito frequentemente se engalfinham e derrubam uma a outra, especialmente quando todo o regime das elites fica sob ameaça. Terei de relembrar a todos que Putin é egresso das elites políticas soviéticas?!



Idealmente, o próximo passo será Trump e Putin encontrar-se, com todos os respectivos ministros chaves, numa longa semana, tipo reunião de Camp David, de negociações durante as quais todas as disputas mais complexas sejam postas sobre a mesa, com todos buscando ceder e conciliar até que o acordo seja possível em cada item. Paradoxalmente, pode ser bastante fácil: a crise na Europa é absolutamente artificial; a guerra na Síria tem solução óbvia conhecida de todos; e a ordem internacional pode sem dificuldade acolher EUA que negocie "em termos justos com todos, todos – todos os demais povos e todas as demais nações", que busque "terreno comum, não a hostilidade; parceria, não conflito".



A verdade é que EUA e Rússia não têm razões objetivas para conflito – só questões ideológicas resultantes diretamente da ideologia insana do imperialismo messiânico dos que creem, ou mentem que creiam, que os EUA sejam "nação indispensável". O que o mundo quer – precisa! – é de EUA como nação *normal*.



No pior dos mundos? Trump termina por se revelar total fraude. Pessoalmente, duvido muito, mas admito que, sim, é possível. Mais provável é que o homem simplesmente não tenha nem a visão nem a coragem para esmagar os neoconservadores, submeta-se e tente aplacá-los. Se fizer isso, o esmagado será ele. 



Fato é que os governos mudaram a cada 4 ou 8 anos, mas o regime que detém o poder não mudou, e as políticas doméstica e exterior dos EUA têm sido impressionantemente consistentes desde o final da 2ª Guerra Mundial. Será que Trump promoverá afinal não só um novo governo, mas "mudança de regime" real? Não sei. 



Que ninguém se engane – mesmo que Trump revele-se total desapontamento para os que acreditaram nele, a derrota de Clinton a que assistimos hoje foi duro golpe contra o Império. O movimento "Occupy Wall Street" não conseguir nada de tangível, mas a percepção de que há um "governo do 1%" emergiu daquele movimento e permaneceu. 



Assistimos a um golpe direto no fígado da credibilidade e da legitimidade de toda a ordem sociopolítica dos EUA: a ideia de que ali não há democracia; que, longe disso, é sempre uma e a mesma plutocracia/oligarquia – já é hoje aceita muito mais amplamente.



Assim também, a eleição de Trump já provou sobejamente que a mídia-empresa nos EUA vive de prostituição (presstitute) e seus gigolôs; e que a maioria do povo dos EUA odeia a própria classe governante. Mais uma vez, é golpe direto no plexo da credibilidade e da legitimidade de toda a ordem sociopolítica.



Um a um vão caindo os mitos fundadores do Império Norte-americano, e o que resta é um sistema que só pode governar pela violência.



Alexander Solzhenitsyn dizia que é possível aferir os regimes segundo um espectro que vai desde regimes cuja autoridade é seu poder, até regimes cujo poder está em sua autoridade. No caso dos EUA, vê-se agora claramente que o regime não tem outra autoridade além do poder; isso torna o regime ao mesmo tempo ilegítimo e insustentável.



Por fim, as elites dos EUA aceitem ou não aceitem esse fato, o Império Norte-americano está chegando ao fim.


Com Hillary, teríamos um surto de negar a realidade, em proporções titanísticas, até o último minuto, e que facilmente chegaria ao formato de um cogumelo termonuclear sobre Washington DC. Mas Trump pode ainda usar o poder que resta aos EUA, para negociar a retirada dos EUA de todos os pontos do mundo onde está, sem condições para estar, obtendo as melhores condições possíveis para esse país. 


Sinceramente, tenho certeza praticamente total de que todos os líderes mundiais chaves dão-se conta de que interessa a todos e a cada um deles e seus países fazer tantas concessões (razoáveis) a Trump quantas sejam possíveis; e trabalhar com ele, muito mais produtivamente do que algum dia conseguiriam trabalhar com o pessoal que Trump acaba de remover do poder.


Se Trump conseguir manter-se fiel às promessas de campanha, encontrará parceiros firmes e confiáveis em Vladimir Putin e em Xi Jinping. Nem Rússia nem China têm qualquer coisa a ganhar de um confronto, e ainda menor de um conflito, com os EUA. Terá Trump a sabedoria necessária para se dar conta disso e usar essa consciência em benefício dos EUA? Ou continuará com sua retórica anti-China e anti-Irã?


Só o tempo dirá.



[assina] 
The Saker

2 comentários:

  1. A 100 anos começava a maior campanha de propaganda da História incumbida de convencer o povo americano a entrar na I GG...Começou aí também, o mito da excepcionalidade e indispensabilidade dos EEUU para o Mundo como "os libertadores", "a grande democracia"...
    Peça chave desse embuste Histórico foi Eduard Bernays, sobrinho de S. Freud.
    Como na cena final da "Dama de Shangai", de O. Wells, a farsa acaba com um tiroteio numa sala de espelhos.

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  2. Olá! Boa noite a todos os leitores/seguidores do "Pensar sem Enlouquecer"...
    Sempre muito gratificante, ¨encontrar eco¨ de suas ponderações, exata e precisamente, onde ¨você¨ mais considera e respeita, o "Nível dos Articulistas"...

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