domingo, 6 de novembro de 2016

O espinhoso caminho dos EUA até Raqqa


Exclusivo: Embora os Estados Unidos não tenham o direito legal de fazer operações dentro da Síria, Washington está se gabando sobre seus planos de tirar Raqqa das mãos do Estado Islâmico. Só que existe um pequeno probleminha: o plano de batalha dos EUA não faz o menor senso, afirma Daniel Lazare.
por Daniel Lazare

tradução de btpsilveira
No seu último debate contra Donald Trump, Hillary Clinton prometeu que os Estados Unidos e seus aliados seguirão em frente em sua ofensiva contra o Estado Islâmico em Mosul, atacando em seguida os quartéis generais do inimigo em Raqqa, na vizinha Síria. Na semana passada, o Secretário de Defesa Ashton Carter assegurou à imprensa que uma ofensiva estaria em andamento.

“Começa nas próximas semanas”, disse Carter. “Esse já era nosso plano de longa data e seremos capazes de conquistar os dois objetivos”, quer dizer, dois assaltos, contra Mosul e Raqqa.

“Achamos que chegou o momento correto de começar a pressionar Raqqa”, acrescentou um porta voz do Pentágono na segunda feira. “O início das ações já está planejado”.

Ocorre que quanto mais a administração afirma ao público que um assalto a Raqqa está logo ali dobrando a esquina, mais distante ele parece. Na realidade, o mais provável é que essa ofensiva não ocorra de forma alguma, por uma razão muito simples: a estratégia para isso está mais furada que queijo suíço, mesmo para os padrões dos Estados Unidos.


Os esforços para retomar Mosul já são suficientemente perigosos desde seu início. O problema nem é a campanha militar, a qual parece que está fazendo bons progressos quando se considera que as tropas iraquianas estão entrando na cidade pela primeira vez em dois anos. O problema está na barafunda política largamente disseminada entre os atacantes.

Poderosas correntes antagônicas estão no mesmo trabalho que o exército iraquiano, como a Turquia, milícias xiitas apoiadas pelo Irã como a Mobilização das Forças Populares, ou Al-Hashd al-Shaabi, e para coroar tudo, os Peshmergas curdos. Recep Tayyip Erdogan, o presidente neo otomano da Turquia, deixou os iraquianos inquietos ao afirmar que Mosul está dentro da tradicional esfera de influência de seu país e prometendo que protegerá a população sunita da cidade contra possível vingança de Al-Hashd pelas atrocidades cometidas contra os xiitas pelo Estado Islâmico (também conhecido como ISIL, ISIS ou Daesh)


Infelizmente, os receios de Erdogan não são injustificados, pois Al-Hashd já foi acusado de cometer atrocidades em Tikrit e Fallujah, e ao mesmo tempo, pelo menos uma milícia também já teria jurado que se vingaria após a queda de Mosul. (Veja no site Consortiumnews.com Clinton’s Slog Deeper into the Big Muddy [em inglês]).

Mesmo que o governo iraquiano tenha prometido que as atividades das milícias se limitariam aos arredores da cidade, o próprio exército iraquiano é visto como ameaçador, desde que suas bandeiras xiitas agora são onipresentes. Os residentes de Mosul também se sentem ameaçados pelos curdos, pois lembram muito bem quando os Peshmerga dominaram na esteira da invasão dos Estados Unidos em 2003, detonando uma onda de saques até limpar completamente a cidade de seus bens.

Por sua vez, as milícias xiitas também se recordam perfeitamente quando entraram em combate contra os curdos, em abril, na cidade de Tuz Khurma, na região central do país, e estão desconfiados e receosos de entrar em contato com eles.

“Aliados” suspeitos

Assim, cada um desconfia de todos os outros, o que significa que quanto mais forças convergem para Mosul, maior o risco de que esses anos todos de medos, desconfianças e ódios se acumulem numa massa crítica pronta para explodir repentinamente.

Enquanto isso, Erdogan se recusa a abandonar uma cabeça de ponte militar que instalou e mantém na pequena cidade de Bashiga, poucas milhas a nordeste, enquanto o Primeiro Ministro iraquiano Haider al-Abadi está ameaçando que a Turquia será “desmantelada” caso tente montar uma invasão em grande escala.

“Não queremos uma Guerra contra a Turquia”, disse Abadi, “e não queremos um confronto com a Turquia. Mas se tal confronto acontecer estaremos prontos para ele. Consideraremos a Turquia como um país inimigo e dessa forma será tratada”.

A resposta turca limitou-se ao envio massivo de mais tropas, tanques e outros equipamentos militares para a fronteira iraquiana apenas 90 milhas ao norte. Na quarta feira, acrescentou insulto ao abuso, quando o Ministro de Relações Exteriores turco, Mevlut Cavisoglu, perguntou arrogantemente a Abadi: “se você é assim tão forte, por que se rendeu, entregando Mosul para organizações extremistas?”

Mas por mais perigoso que tudo isso seja, a situação apenas 280 milhas a oeste, nas imediações de Raqqa, na Síria, é ainda pior. Enquanto os Estados Unidos tentam reunir a força necessária para tomar Raqqa do Estado Islâmico, encontra-se trilhando seu caminho através de uma lista de colaboradores que é nada menos que estonteante.

Além de Rússia, Síria e Turquia, a lista inclui o autodenominado Exército Livre da Síria; as Unidades de Proteção do Povo Curdo, conhecido como YPG na sigla em inglês; Árabes Sunitas que se juntaram ao YPG sob a proteção da federação conhecida como Forças Democráticas da Síria, ou SDF na sigla em inglês; as mesmas milícias xiitas apoiadas pela Irã que estão no Iraque e já ameaçam cruzar a fronteira para também se juntar ao assalto contra Raqqa.

Também alucinantes são as animosidades locais. Enquanto a Turquia se dá muito bem com Masoud Barzani, líder da zona autônoma curda no norte do Iraque, a história fica muito diferente no norte da Síria, onde o domínio está nas mãos do YPG, de tendência esquerdista. Como se sabe, o YPG é cria da União Democrática Curda, por sua vez aliada com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), que lidera uma insurgência dentro da Turquia desde os anos 80 e é visto por Erdogan como uma milícia tão má ou pior que o Estado Islâmico.

O sentimento é compartilhado pelo YPG, que descreve Erdogan e o Estado Islâmico como “irmãos debaixo da pele”. O YPG é hostil ao Exército Livre da Síria desde que este tomou parte, no último verão, de uma incursão turca ao norte da Síria, cujo principal objetivo era evitar que unidades milicianas curdas no nordeste da Síria se encontrassem com seus camaradas do YPG no noroeste do país. O Exército Livre da Síria, por sua vez, não é apenas contra o YPG, mas também contra os Estados Unidos, mesmo sabendo que os turcos, seus patrocinadores e apoiadores estejam em tese alinhados aos EUA.

Os membros do FSA começaram a cantar seus cânticos anti (norte)americanos quando umj comboio de comandos dos Estados Unidos apareceu na cidade de Al-Rai, ocupada pelos turcos em meados de setembro, forçando os (norte)americanos a fugir.

 “Cristãos e (norte)americanos não têm lugar entre nós”, disparou um militante. “Eles querem lançar uma guerra de cruzada para ocupar a Síria”. Disse outro: “colaboradores dos Estados Unidos não passam de porcos e cães que lançaram uma guerra de cruzada contra a Síria e o Islã”.

Este é apenas um dos grupos que os Estados Unidos classificam como “moderados” e “seculares”. Ainda assim Washington tem a esperança de que estas várias facções coloquem sua diferenças de lado e lutem ombro a ombro para “liberar” Raqqa. A perspectiva fica a cada dia mais improvável desde que a luta entre o FSA apoiado pela Turquia e o YPG parece estar se espalhando.

Os turcos matam os curdos

Em 20 de outubro, os aviões e a artilharia da Turquia martelaram as posições do SDF/YPG a nordeste de Alepo, matando pelo menos 200 lutadores. Desde então, os dois grupos, Turcos e Exército Livre da Síria de um lado e YPG e as Forças Democráticas da Síria do outro, têm se engajado em conflitos pelo controle da cidade de Al-Bab, ocupada pelo Estado Islâmico, 20 milhas ao sul da fronteira turca e quase a mesma distância a nordeste de Alepo.

Se as forças da Turquia e do FSA tomarem Al-Bab, então as esperanças dos curdos de unirem suas forças a nordeste e noroeste da Síria cairiam por terra. Os soldados do FSA teriam então uma posição e força a leste de Raqqa, o que pode significar um embate com os corpos principais tanto do YPG quanto do Estado Islâmico. Ou, como o sempre arguto website Moon of Alabama sugere, pode em vez disso, leva-los a uma tentativa de remediar a difícil situação de seus colegas salafistas cercados em Alepo.

A situação leva a uma colisão frente a frente com as forças governamentais da Síria e a exposição aos jatos da Rússia. Um helicóptero das forças sírias que estava voltando para casa na última semana, bombardeou forças da Turquia e do FSA que estavam em combate contra o YPG.

Guerras de extermínio como essas beneficiam apenas ao Estado Islâmico, reconhecidamente especialista em usar os conflitos de seus oponentes a seu favor. Não por outro motivo foi capaz de estabelecer raízes na Síria, só para começar – porque os Estados Unidos estavam tão preocupados em derrubar Assad que não prestaram atenção a um ramo da al-Qaeda que Obama displicentemente classificou como “um time de aspirantes”.


Também é por isso que o Estado Islâmico foi capaz de estabelecer bases e linhas de suprimento dentro da Turquia. Ocorre que Erdogan estava tão atarefado lutando contra Assad e os curdos que não se preocupou com o que seus colegas salafistas estavam fazendo. O norte da Síria e a paisagem iraquiana em conflito interno se transformaram no lugar perfeito para uma força extremamente violenta e hábil em jogar um grupo contra o outro.

A Casa Branca parece não ter capacidade para perceber que está se colocando numa roubada, e este é o motivo pelo qual os oficiais se tornam repentinamente vagos e inescrutáveis ao serem inquiridos pela imprensa na busca por detalhes do anunciado assalto a Raqqa. O problema, do ponto de vista do exército dos EUA, é que Erdogan continua teimosamente a se opor ao YPG/SDF, mesmo sabendo que são as únicas forças capazes de lutar contra o Estado Islâmico. Por isso, tornou-se impossível conquistar Raqqa sem hostilizar um aliado que é membro da OTAN.

 “Nós não precisamos dessas organizações terroristas”, disse Erdogan quando atendeu chamada telefônica de Obama em 26 de outubro, referindo-se à milícia e à União Democrática Curda. “Eu disse, ‘venha, vamos remover (o Estado Islâmico) de Raqqa. Podemos fazer isso juntos’. Temos condições para isso”.

Os Estados Unidos duvidam que Erdogan tenha essa capacidade e mesmo assim são incapazes de dizer não. Consequentemente, abundam as negociações e negativas.  Jennifer Cafarella, uma especialista sobre a Síria do instituto neocon Estudo da Guerra, resmunga que a administração está paralisada, enquanto no outro lado do debate, “realistas” da política externa se admiram que a administração continue a titubear em um caminho estratégico que todos sabem que não funcionará.

Análise cética

Numa análise contundente do conservador mas sempre cético National Interest, Daniel L. Davis, um coronel reformado e veterano da guerra do Afeganistão, esclarece que deve ser levada em consideração a situação em Mosul, onde existe um exército nacional, milícias bem armadas, tropas dos Estados Unidos em solo, forças de inteligência e “capacidade de suprimento dentro de linhas que correm através de território amigável” no norte do Iraque. “Nada disso existe” quando se pensa em Raqqa, e os problemas políticos são ainda mais desfavoráveis.

Quando as milícias curdas liberaram a cidade de Manbij em agosto, que estava ocupada pelo Estado Islâmico, continua Davis, os residentes, gratos aos membros do YPG afirmaram: “vocês são nossas crianças, vocês são heróis, vocês são o sangue em nossos corações”. Pois mesmo assim o YPG continua a ser denunciado por Erdogan como terroristas e foram instruídos pelos Estados Unidos a partirem.   

 “Quais são as garantias que os Estados Unidos podem dar aos curdos”, escreve Davis, “que depois de ter sucesso na liberação de Raqqa o exército turco não virará suas armas contra eles?” Poderiam os turcos bombardear as tropas curdas em dado dia depois de terem trabalhado em conjunto no dia anterior? Permitirão aos curdos que mantenham suas posições depois da liberação de Raqqa? Não há lógica nenhuma nestas esperanças vazias”.

Davis está completamente certo. Mas, de uma forma ou de outra, não é lógica na intervenção dos Estados Unidos na Síria. Por que insistem na deposição de Assad, quando é evidente que isso só faria limpar o caminho para a al-Qaeda e o Estado Islâmico diretamente para dentro do Palácio Presidencial em Damasco?

Por que apoiar uma invasão turca no norte da Síria quando o único resultado prático que resultará disso será enfurecer os curdos, que representam a única força efetiva lutando em campo contra o Estado Islâmico com a qual podem contar os Estados Unidos? Por que insistir que os Estados Unidos querem uma solução democrática para a guerra civil na Síria, quando os países que apoiam as forças anti Assad, isto é, Arábia Saudita e outras monarquias petroleiras árabes estão entre os países mais autoritários do planeta?

Nada faz sentido nessa bagunça. Mas desde que israelenses, turcos e sauditas querem derrubar Assad, a administração Obama entende que não pode fazer outra coisa a não ser obedecer. Como manter um império já cambaleante a não ser atendendo as vontades e caprichos de seus estados clientes?


Quando o império está forte, pode se permitir dizer não. Mas quando está fraco e muito estendido, faz o que lhe dizem. É por isso que os Estados Unidos parecem paralisados em relação a Raqqa. Não pode desapontar seus aliados dizendo que interromperá o ataque e não pode levar adiante uma coisa que sabe que não dará certo. Então vai enrolando.

https://consortiumnews.com/2016/11/03/americas-rocky-road-to-raqqa/ 

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