sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Moscow Attacks!


 Moscow Attacks!
Eric S. Margolis, tradução de btpsilveira
Um alto funcionário da CIA me disse “com um alto grau de certeza” que a Rússia de Vladimir Putin foi responsável por Pearl Harbor, a Guerra da Coréia, o Vietnã e o Iraque. A canalha moscovita provavelmente também estaria por trás dos ataques de 9/11 e da sujeita em volta do colarinho.
Desde o Dr. Fu Manchu não víamos um gênio perverso do mal se esforçando tanto para prejudicar o ocidente. Vladimir, o Malvado (Vlad the Bad, no original) é tão nefasto que conseguiu até mesmo invadir as máquinas de votação nas eleições e provavelmente manipulou o Super Bowl.

Observar a Histeria Vermelha que cresce nos Estados Unidos é esquisito e hilário. Porém ainda mais divertido é o furor da imprensa acusando o Kremlin de ter “manipulado” as eleições presidenciais deste ano nos EUA. Ou fazer com que os votos fossem dados ao “Candidato da Manchúria”, Donald Trump. Intromissão estrangeira real houve de países do Oriente Médio, não da Rússia.
Tudo coisa de crianças.
Minha resposta é a seguinte: se for verdade (e não acredito nisso), e daí? Grandes potências manipulando “as coisas” é alguma novidade, por acaso? Todas as grandes potências o fazem.
Dificilmente os Estados Unidos poderiam se colocar na posição de uma virgem ultrajada. Iniciando em 1946, os Estados Unidos e o Vaticano financiaram o Partido Democrático Cristão, de extrema direita, ajudando-os a vencer três eleições nacionais contra a Esquerda, mesmo sabendo que ela estava cheia de antigos fascistas e bandidos sicilianos.
Washington organizou a derrubada do governo da Síria em 1949. Em 1953, os Estados Unidos e a Inglaterra entraram em conluio para destituir o governo popular democrático do Irã. Em 1954, os EUA influenciaram decisivamente na derrocada do governo da Guatemala. Na sequência, a intervenção (norte)americana no Líbano, em 1958. Três anos depois o episódio infame da invasão da Baía dos Porcos em Cuba, seguida por mais de cinquenta tentativas de assassinar Fidel Castro.
Em 1965, os Estados Unidos invadiram a República Dominicana e derrubaram o regime. 1973 marcou o Golpe de Estado dos Estados Unidos contra o governo marxista do Chile. A seguir na lista macabra dos EUA, estava o governo de esquerda da Nicarágua. Depois uma intervenção encoberta no Haiti, bombardeio e campanha de sabotagem contra Bagdá, no Iraque. Houve também uma campanha fracassada para derrubar o governo eleito do Irã e mais maquinações na Síria, Líbia, que foram seguidas por invasões abertas.
Mas a lista não se interrompe, há outras menções: Bolívia, Brasil, Congo, Turquia, Indonésia, Azerbaijão, Rússia (sob Yeltsin), as “Revoluções Laranja” na Ucrânia, Geórgia e a derrubada do governo eleito pró Rússia na Ucrânia, e agora, claro, a Síria.
Mudança de Regime na marra se tornou tão (norte)americano quanto a  torta de maçã.
Não há certeza, mas os Estados Unidos podem mesmo ter tentado derrubar o governo de Charles de Gaulle na Franca. Mais tarde, os EUA ajudaram a colocar um ditador sanguinário no poder  no Egito, derrubando o governo democrático no processo, com a ajuda encoberta de um aliado fiel, a Chanceler alemã Angela Merkel.
No passado, a inteligência Soviética fazia intrigas com maestria, e lidava de forma profissional com espionagem e ocasionais “assuntos escaldantes”. Mas nunca houve intervenções soviéticas tão flagrantes, nem mudanças de regime no volume alcançado pelos Estados Unidos. E ainda é assim atualmente.
Fui o primeiro jornalista ocidental a ter permissão para uma visita aos quartéis generais da KGB em Moscou – a temível Lubyanka – a fim de entrevistar seus principais líderes. Também estive no interior do impressionante museu da KGB para uma entrevista com seu curador sobre as operações de inteligência desde a guerra civil de 1917. Aprendi muito sobre operações encobertas, mas menos do que queria sobre os agentes soviéticos infiltrados no entorno do presidente Franklin Roosevelt
Como um veterano observador dos serviços de inteligência pelas últimas três décadas, acredito que as acusações dos Democratas dos Estados Unidos de que perderam ao eleições por manipulações dos russos não passam de uma rematada besteira. Há suspeitas de que toda essa falsa indignação e fúria quanto à derrota de Clinton seria um meio de tentar derrubar o governo de Trump através de meios de legalidade duvidosa (“Lawfare”) e manifestações populares. E por que não? Afinal isso é o que fazemos o tempo todo na Rússia e no Oriente Médio.
Os Democratas perderam porque escolheram uma mulher horrível, corrupta até a alma que é odiada por ter tratado com desprezo muitos (norte)americanos. Tentaram esconder o fato vergonhoso de que o Partido Democrata impediu a indicação de um candidato honesto, o Senador Bernie Sanders. Este foi o verdadeiro escândalo, não essa conversa fiada sobre maldições de vudu contra máquinas de votar ou “ameaças vermelhas”.
As acusações de oficiais influentes da inteligência (norte)americana de que Moscou influenciou as eleições presidenciais deste ano mostram duas coisas. Primeira: se for verdade eles estavam dormindo na hora do trabalho. Segunda, de repente, eles se tornaram absurdamente politizados. O trabalho deles é informar a Casa Branca e não construir teorias de conspiração. Alguns deles se mostram histérica e loucamente anti Rússia, e provavelmente são agentes de nosso estado profundo, não de nosso governo.
Nós precisamos mesmo é de calma, de profissionais experientes para tocar nosso serviço de inteligência, não de ideólogos com sangue no olho, decididos a lutar uma guerra contra a Rússia. Foi este o caminho tomado pelos Estados Unidos sob Obama e Hillary Clinton. Caso a Rússia tivesse chegado a essa conclusão, lógico que tentaria influenciar no resultado da eleição. Se é que podem.
A mentira deslavada que Hillary Clinton foi derrotada pelos mestres espiões vermelhos sem Deus é tão crível quanto um menino explicando que “o cachorro comeu minha lição de casa”. E eu aqui pensando que meus colegas (norte)americanos eram um pouco mais espertos.


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