quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Síria: Alepo liberada, problemas para a Turquia.

Moon of Alabama, tradução de btpsilveira

A liberação da parte oriental de Alepo foi completada antes do natal, exatamente como planejado pelas forças russas. Os terroristas já não praticam decapitações na cidade. Em vez disso, a quase destruída Catedral do Profeta Elias na Cidade Velha foi tomada por uma multidão de pessoas para comemorar o Natal.


Por volta de 88.000 pessoas deixaram a área durante a evacuação de Alepo Oriental. De acordo com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha cerca de 35.000 (13.000 militantes e suas famílias) deixaram a cidade rumo à cidade de Idlib, atualmente sob o domínio da Al-Qaeda. A Organização de Ajuda Humanitária da ONU apurou que 54.000 pessoas acorreram para as áreas dominadas pelo governo do país na Alepo Ocidental.

Os sapadores atualmente desenvolvem um trabalho de procura e desmontagem de vários dispositivos explosivos que já causaram dezenas de mortes entre soldados do exército da Síria.  Foram encontradas valas comuns repletas de corpos de civis e de soldados sírios executados provavelmente pouco antes da evacuação pela Al-Qaeda, Ahrar al Sham e outros grupos terroristas apoiados pelos Estados Unidos.

O governo sírio queria negociar sua libertação antes da evacuação, mas a estimativa de mortes adicionais pela presença prolongada de terroristas durante as negociações era alta e a política internacional exigia uma solução tão rápida quanto possível para a crise.

Vários armazéns cheios de comida foram encontrados, assim como equipamentos clínicos. Os militantes e suas famílias obviamente estavam bem supridos, enquanto a população sofria. As armas e munições encontradas (em grande parte feitas na Bulgária – vídeo de apenas um dos armazéns 12) e transportadas e distribuidas pelos Estados Unidos – e têm o valor estimado até agora em cerca de 100 milhões de dólares [norte]americanos).

As forças da Turquia e de alguns de seus jagunços estão tentando capturar a cidade de Al Bab, a leste de Alepo e que no momento se encontra em mãos dos militantes do Estado Islâmico. A sua “Operação Escudo do Eufrates” está enfrentando sérios problemas. Assim que suas forças mercenárias se encontraram com os lutadores do Estado Islâmico, fugiram em desabalada carreira. Em 22 de dezembro um ataque suicida a bomba matou 16 soldados turcos. Cerca de 80 a 90 soldados turcos foram mortos durante a curta campanha, apenas até agora – mais que todos os soldados russos mortos na Síria desde o início da campanha da Federação Russa há mais de um ano. Dez dos mais modernos tanques do exército turco, os Leopard2A4, construídos na Alemanha, foram ou destruídos ou danificados pelas forças do Estado Islâmico, que usaram os mísseis antitanques TOW fornecidos pelos Estados Unidos para seus “rebeldes moderados” que lutam contra o governo sírio. Fotos da batalha fornecidas pelo Estado Islâmico sobre os danos causados à cidade de Al Bab mostram os “Capacetes Brancos” financiados pelos Estados Unidos e pela Inglaterra, fornecendo “trabalho de socorro” aos lutadores do Estado Islâmico.

O exército turco enviou mais 500 tropas de forças especiais bem como artilharia para tentar conquistar Al Bab. Não foi permitido que jatos turcos entrassem no espaço aéreo da Síria e os Estados Unidos negaram qualquer apoio aéreo. Hoje, a Força Aérea da Federação Russa (!) deu apoio áereo para as tropas turcas que lutam contra o ISIS em Al Bab (caso vocês se lembrem, há pouco tempo os propagandistas neocons estavam afirmando estridentemente que a Rússia tinha fornecido ao Estado Islâmico uma Força Aérea.)

No leste da Síria, mais uma vez o Estado Islâmico está tentando capturar o enclave governista em Deir Azzor, mas até agora as tentativas de alcançar qualquer ganho de terreno acabaram em fracasso. As forças do YPG curdo e alguns grupos árabes tribais subornados e hilariantemente denominados “Forças Democráticas da Síria”, ambos sob o comando dos Estados Unidos se arrastam muito lentamente para as proximidades da cidade de Raqqa, tomada pelo ISIS.

Um pouco antes do Natal, o presidente dos Estados Unidos assinou uma nova diretiva que permite a distribuição de defesa antiaérea do tipo MANPAD para os “rebeldes moderados” na Síria. Alguns desses MANPADs fatalmente acabarão nas mãos do Estado Islâmico, exatamente como aconteceu com os TOW que a CIA “distribuiu” para os “rebeldes moderados”. Essas armas poderão muito bem ser usadas contra as linhas aéreas civis fora da Síria. Os curdos dos grupos YPG/SDF também querem essas armas calculando corretamente que seu principal inimigo potencial é o exército turco da OTAN e sua Força Aérea. Já os russos entendem que a distribuição dos MANPADs para seus inimigos na Síria é um “ato hostil” e deverão responder à altura.

Com a acumulação de suas perdas na Síria, agora o presidente Erdogan está acusando os Estados Unidos de estar apoiando o ISIS e outros grupos terroristas na Síria – grupos, aliás, que o próprio Erdogan apoiava até que o golpe suposta e provavelmente apoiado pelos Estados Unidos foi derrotado (com ajuda da Rússia – NT). Suas constantes reviravoltas (pro-EI/anti EI; pro Russos/Anti Russos/pro Russos, etc) estão fazendo fazendo com que perca apoio entre seus seguidores (além disso, os problemas econômicos do país não ajudam em nada). O recente assassinato do embaixador russo na Turquia por um policial ligado a grupos islâmicos pode ser um dos resultados dessa bagunça toda.


Não são apenas os seguidores de Erdogan que estão confusos, entre os vários atores, aliados e interesses na Síria. Elijah Magnier escreveu uma excelente retrospectiva sobre o atual “Equilíbrio regional e internacional no Levante”. A primeira parte cobre as idas e vindas da Turquia na guerra da Síria e a segunda parte, O papel da Rússia e suas diferenças táticas com o Irã na guerra da Síria. Ele conclui que:

A Síria certamente está a caminho de outras batalhas, mas um acordo de paz já parece ser visível para o ano de 2017. Algumas vezes a diplomacia necessita de um pouco da linguagem de armas e fogo para impor a paz aos participantes. Uma coisa é certa: os jihadistas não deporão suas armas porque isto vai contra a essência de sua ideologia. Mais certamente deverão migrar para algum país nas cercanias da Síria.


A primeira escolha lógica dos militantes em migração deverá ser a Turquia, onde eles têm uma base de apoio e muitos seguidores de sua ideologia. Com sua procura pela guerra na Síria e apoio aos radicais islâmicos Erdogan acabou por colocar seu país na mesma posição que o Paquistão se colocou quando Muhammad Zia-ul-Haq apoiou o suprimento dos Mujaidins pela CIA, contra o governo progressista do Afeganistão em 1978. O resultado foi uma lenta, constante e mortal insurgência que prejudica o país desde então. Provavelmente demorará décadas para a Turquia se libertar desse câncer e retornar ao modelo de país secular.

http://www.moonofalabama.org/2016/12/syria-roundup-turkeys-problems-increase.html#more

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