domingo, 4 de dezembro de 2016

O que pode dar errado? (I)

por William Blum
tradução de btpsilveira (http://mberublue.blogspot.com.br/)


01 de dezembro de2016 – Information Clearing House Ele não é “qualificado”? Isso não tem importância.

Ele jamais foi eleito para qualquer coisa no governo? Também é irrelevante.

E também não importa que em nível pessoal ele não passe de um panaca.

Para mim, o que conta realmente no atual estágio que as coisas atingiram é que ele – ao contrário da querida Hillary – provavelmente não vai começar uma guerra contra a Rússia. Seu questionamento sobre a sacralidade da OTAN, que classificou como “obsoleta”, e seu encontro com a congressista Tulsi Gabbard, do Partido Democrata, severa crítica da política de mudança de regime dos Estados Unidos, notadamente na Síria, é outro sinal encorajador.


Ainda mais encorajadora é a indicação do General Michael Flynn como Conselheiro para a Segurança Nacional. Flynn jantou no último ano com Vladimir Putin em um jantar de gala oferecido pela estatal de comunicação russa de tendência esquerdista e linguagem inglesa, RT (Russia Today). Agora, na mídia ocidental, Flynn está estigmatizado porque não vê a Rússia ou Putin como demônios a serem exorcizados. Na verdade é mesmo incrível a indiferença com a qual os jornalistas ocidentais veem a possibilidade de uma guerra contra a Rússia, mesmo um conflito termo nuclear.

(agora fico só na espera de uma barragem de emails de meus leitores politicamente corretos, sobre a alegada tendência antiIslâmica de Flynn, mas mesmo que seja verdade, isso é irrelevante para a discussão dos meios para evitar uma guerra contra a Rússia)

Penso que, sob Trump, a influência (norte)Americana sirva para encontrar uma solução para a sangrenta crise Rússia/Ucrânia, que resultou da derrubada pelos EUA do presidente ucraniano democraticamente eleito em 2014 para possibilitar futuros avanços da OTAN no cerco da Rússia; poderia em seguida colocar um fim nas sanções impostas pelos Estados Unidos contra a Rússia, que ninguém na Europa quer ou foi por elas beneficiado; e então – finalmente! – um fim para o embargo contra Cuba. Seria um dia para comemorar! Pena que Fidel não estará aqui para ver isso.

Poderíamos ter outros dias para celebrações se Trump resolver perdoar ou de qualquer forma colocar em liberdade Chelsea Manning, Julian Assange e/ou Edward Snowden. Nem Obama nem Hillary jamais fariam isso, mas penso que com Trump há pelo menos uma chance. Assim, aqueles três heróis podem ter ao menos um pouco de esperança. Tenho na mente um quadro onde todos eles estarão reunidos comemorando esse dia maravilhoso.

É bem provável que Trump não se disponha a lançar ações militares contra o Islã radical pelo medo de ser tachado como antimuçulmano. Basta a sua repulsa contra o Estado Islâmico e a vontade de destruí-lo, algo que com certeza não pode ser dito a respeito de Barak Obama.

Quanto aos tratados internacionais, escrito por advogados de corporações empresariais com o claro intuito de beneficiar apenas seus patrões, sem qualquer preocupação com o resto de nós, deve ter tratamento muito mais duro com Trump na Casa Branca que o acontecido normalmente até aqui.

Os principais críticos da política externas de Trump deveriam estar envergonhados e até mesmo humilhados por aquilo que apoiam no Afeganistão, Itaque, Líbia e Síria. Ao invés disso, o que os incomoda sobre o presidente eleito é sua falta de vontade de fazer com que o mundo se torne a imagem dos EUA. Eles parecem muito mais preocupados em saber porque diabos o mundo não ser uma imagem servil e mal ajambrada dos Estados Unidos.

No ultimo e trepidante capítulo da saga “Alice na Trumpelândia”, ele disse que não tem mais planos para processar Hillary Clinton, que ele tem uma mente aberta sobre os acordos relativos à mudança climática, doas quais ele prometeu retirar completamente os Estados Unidos e que ele também não tem mais certeza de que é uma boa ideia torturar suspeitos de terrorismo. Assim, se você inda tem seja lá quais medos sobre as palavras que ele derrama sobre suas políticas... respire fundo... elas podem ser facilmente abandonadas à beira do caminho; embora eu ainda pense que em nível pessoal ele seja um imbecil ( aqui o autor faz uma brincadeira intraduzível: “he’s a two-sillable word: first sylable is a synonym for a donkey; second sillable means ‘an opening’ ” – ou seja. A primeira sílaba é o sinônimo de donkey/burro em inglês: ass. A segunda significa uma abertura: hole/buraco. Juntando as duas temos asshole – imbecil – NT )

Aparentemente, Trump ainda sente necessidade profunda de aprovação e pode sucumbir miseravelmente ao criticismo generalizado e aos protestos. Tadinho do Trump... tão poderoso... tão vulnerável.

O dilema de Trump, bem como as homéricas trapalhadas de Hillary, poderiam provavelmente ser evitadas se Bernie Sanders tivesse alcançado a indicação no Partido Democrata. Isso será um enorme “se” histórico, digno de ser colocado ao lado da escolha dos Democratas que escolheram Harry Truman para substituir Henry Wallace em 1944, com Roosevelt, doente, como vice. Truman nos legou uma coisinha charmosa chamada Guerra Fria, que por sua vez nos presenteou com o McCartismo. Acontece que Wallace, assim como atualmente Sanders, era um tanto quanto insuportavelmente esquerdista para as narinas refinadas do Partido Democrata.

Mídia chapa branca: o bom, o mau e o feio

Em 16 de novembro, em um briefing no Departamento de Estado, o porta voz John Kirby estava em pleno exercício de um de seus diálogos ásperos com Gayane Chichakayan, repórter da RT (Russia Today), desta vez sobre as acusações dos Estados Unidos de que a Rússia estaria bombardeando hospitais e bloqueando a entrada de ajuda humanitária da ONU na Síria que ajudaria a população encurralada na cidade de Alepo. Quando Chichakyan pediu pela explanação de algum detalhe sobre estas acusações, Kirby replicou: “Por que você não pergunta para o seu Ministério da Defesa”?

GK – Pergunte você. Mas você pode dar qualquer informação específica sobre quando a Rússia ou o governo sírio bloqueou as entregas de ajuda humanitária da ONU? Apenas alguma informação específica.

KIRBY: Não houve qualquer entrega de ajuda no último mês.

GK: E você acredita que essa ajuda foi bloqueada exclusivamente pela Rússia ou pelo governo sírio?

KIRBY: Não tenho nenhuma dúvida que a obstrução está vindo do regime e da Rússia. Não há dúvidas.
MATTHEW LEE (Associated P`ress): Deixe-me – pera aí, apenas deixe-me dizer: Por favor, tenha cuidado ao dizer: “seu ministério da defesa” e coisas parecidas. Quero dizer que ela é uma jornalista como nós todos, assim – ela está perguntando por questões colocadas, mas eles não são – 

KIRBY: São de uma estatal – de uma estatal –

LEE: Mas eles não são–

KIRBY: De uma mídia estatal, Matt.

LEE: Mas eles não são –

KIRBY: São de uma mídia estatal que não tem independência.

LEE: As questões que ela está colocando não estão fora do contexto.

KIRBY: Eu não disse que as questões estão fora do contexto.
……
KIRBY: Sinto muito, mas não colocarei a Russia Today no mesmo nível do resto de vocês que estão representando empresas de mídia independentes.

Talvez alguém devesse perguntar se o porta voz do Departamento de Estado sabe que em 2011 a Secretária de Estado Hillary Clinton ao dar uma entrevista falando sobre a RT declarou: “os russos abriram uma rede de TV em língua inglesa. Ela já está em alguns países, e a considero muito instrutiva”.

O Senhor Kirby deveria responder também quanto a repórteres da BBC, UMA EMPRESA ESTATAL de televisão e rádio difusão do Reino Unido, a qual emite suas transmissões para os Estados Unidos e por todo o mundo.

Ou sobre a ESTATAL Australian Broadcasting Corporation, descrita na Wikipedia nos seguintes termos: “A corporação provê serviços de celular, internet, rádio e TV, através das regiões metropolitanas e nacional na Austrália, bem como além mar ... e é muito bem conceituada pela qualidade e confiabilidade, bem como por oferecer programação cultural e educacional que o setor de difusão comercial não parece ser capaz de fornecer por si mesmo”.

Temos ainda a Radio Free Europe, Radio Free Asia, Radio Liberty (Região Central e Oriental da Europa) e a Radio Marti (Cuba); todas estatais, nenhuma “independente”, mas todas consideradas pelos Estados Unidos boas o suficiente para continuar a fornecer informação para o mundo.

Não devemos nos esquecer do que os (norte)Americanos têm em casa: PBS (Public Broadcasting Service) e NPR (National Public Radio), as quais teriam vida muito curta sem subsídio estatal. Quão independentes seriam? Alguma delas por acaso já se opôs de forma aberta às modernas guerras dos Estados Unidos? Há razões muito boas para supor que a NPR possa ser chamada de National Pentagon Radio (Rádio Nacional do Pentágono – NT). Mas não importa, isso é parte da ideologia da imprensa (norte)americana de fingir que não tem ideologia nenhuma.

Bem, em relação à imprensa não estatal (norte)americana... Há cerca de 1400 jornais diários nos Estados Unidos. Por acaso você pode mencionar um singelo jornal, um só, ou uma rede de TV qualquer que tenha sido inequivocamente contra as guerras desfechadas pelos Estados Unidos contra a Líbia, Iraque, Afeganistão, Iugoslávia, Panamá, Granada e Vietnã enquanto elas estavam ocorrendo ou pelo menos logo após terem começado? Ou que tenha demonstrado oposição a duas delas? Que tal uma delas, pelo menos? Em 1968, seis anos depois da Guerra do Vietnã, o Boston Globe (18 de fevereiro de 1968) examinou as posições editoriais de 39 jornais líderes nos Estados Unidos em relação à guerra, descobrindo que “nenhum advogou pela cessação da guerra”. Por algum acontecimento divino alguém jamais viu em jornais da imprensa empresa dos EUA a frase “Invasão do Vietnã”?

Em 2003, a estação líder de audiência MSNBC tirou do ar o admirado Phil Donahue por causa de sua oposição à convocação para a guerra contra o Iraque. Com certeza, o Sr. Kirby pode sem dúvida nenhuma chamar a MSNBC de “independente”.

Caso a mídia (norte)americana fosse oficialmente controlada pelo Estado, será que soaria diferente do que vemos quanto à política externa dos Estados Unidos?


Observação soviética: “A única diferença entre a nossa propaganda e a sua propaganda é que vocês acreditam na sua”.

...(continua)

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