quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Notas iniciais sobre assassinato do embaixador russo em Ancara, Turquia 

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20/12/2016, The Saker, The Vineyard of the Saker
Tradução pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu

OK, agora à noite já temos o nome do assassino, Mevlut Mert Aydintas, 22 anos, policial, recentemente demitido depois do revide de Erdogan contra o grupo gulenista e outras forças que tentaram derrubá-lo. Há também um vídeo muito eloquente.[1]


O vídeo do ataque mostra algo muito importante: os únicos tiros disparados ali são os do assassino [noutro vídeo, o assassino já aparece morto. Não é preciso ver aquilo (NTs)]. 

Só pode significar uma de duas coisas:


Versão 1: não havia ninguém encarregado da segurança naquela exposição [de fotografias].

Versão 2: a sala onde aconteceu o assassinato era considerada 'segura/estéril', porque contida dentro de perímetro maior já coberto, que não se vê nesse vídeo.

Acho muito mais provável a versão 2. Só assim se explica por que e como Mevlut Mert Aydintas chegou tão facilmente até onde estava: simplesmente acenou com a identidade de policial e deixaram-no passar.

Em eventos dessa natureza, sempre é importante perguntar cui bono – a quem o crime beneficia?


Erdogan? Não.


Não consigo ver razão imaginável pela qual Erdogan quereria o embaixador russo assassinado em Ankara, mas vejo facilmente uma longa lista de razões pelas quais ele não quereria que acontecesse, nem lá nem em lugar algum. Haverá quem lembre, com razão da queda de Aleppo e da derrota humilhante que sofreram a Turquia e o próprio Erdogan, e, sim, são fatores a considerar. Mas não posso esquecer que Erdogan claramente já tinha um acordo em andamento com russos e iranianos quando moveu suas forças através da fronteira e ocupou o norte da Síria. É absolutamente *impossível* que tivesse tentado esse movimento contra a vontade de Moscou e Teerã. E que acordo era aquele? Talvez jamais venhamos a saber, mas não tenho dúvidas de que, sim, incluía uma cláusula que limitava as ações da Turquia a uma estreita faixa de território no norte. Se essa hipótese é correta, nesse caso Aleppo teria sido considerada fora da "esfera de interesse turco" na Síria, pelo menos conforme a leitura construída entre turcos, iranianos e russos. Erdogan saberia que Aleppo cairia e cairia tão rapidamente? Provavelmente não. Parece que russos e iranianos passaram a perna em Erdogan. Mas definitivamente, mesmo nesse caso, Erdogan teria outras opções muito melhores para retaliar contra a libertação de Aleppo, que assassinar o Embaixador da Rússia em Ankara. Fato é que os turcos fizeram notavelmente pouco quando Aleppo foi libertada; no máximo ajudaram os russos a evacuar parte dos "terroristas do bem".

Por mais que Erdogan seja lunático, ainda é suficientemente esperto para compreender que, se tivesse um embaixador russo assassinado em Ankara, a OTAN nada faria para protegê-lo e os russos podem meter um míssil cruzador diretamente pela janela do quarto dele. Erdogan pode ser doido, mas não é *tão* doido.

Por fim, lembremos as consequências desastrosas para a Turquia depois do ataque ao jato russo SU-24 e o fato que, segundo numerosos relatos fartamente comprovados, os serviços de inteligência salvaram Erdogan, provavelmente literalmente, ao informá-lo do golpe contra ele.

Assim sendo, por todas essas razões, Erdogan não está na minha atual lista de suspeitos. Nunca diga nunca, fatos novos podem surgir, especialmente com um maníaco feito Erdogan, mas nesse momento assumirei que ele nada tem a ver com o que aconteceu.


Daech & Co.? É possível.


Bem, é óbvio que Daech & Co. têm lista extremamente longa de razões para querer matar qualquer alto funcionário russo. Sendo assim, motivo há. Considerando o quanto radicais extremistas foram bem-sucedidos na operação de se infiltrar no estado profundo (e também no menos profundo) estado turco, é evidente que também têm os meios. Quanto à oportunidade, o vídeo [acima] mostra claramente que Mevlut Mert Aydintas não só teve tempo para atirar várias vezes contra o embaixador russo (contei nove tiros), mas também, depois de atirar, teve tempo para continuar a andar no cenário e gritar todos os slogans que bem entendeu sobre Síria, Aleppo e Deus. Mesmo que não se conheçam todos os detalhes, já basta aquela cena que todos viram para demonstrar que a segurança no local era desastre total.


Gulen, a CIA, Obama & Co.? Talvez.


Sim, esses também estão na minha lista de suspeitos. Os gulenistas nada têm a perder; a CIA enlouqueceu de medo e fúria com a eleição de Trump; e o governo Obama está furioso, ofendido, sedento por vingança e, seja como for, há todos aqueles sujos personagens do mal que adorariam disparar uma nova crise entre Rússia e Turquia, ou fazer a Rússia pagar por ter humilhado o Império Anglo-sionista em Aleppo. Tenham em mente que é exatamente assim que a CIA sempre mata autoridades estrangeiras: subcontratando algum fanático local para consumar o assassinato, de modo a preservar o que eles chamam de "negabilidade plausível" [ing. "plausible deniability"].

Durante a Guerra Fria, soviéticos e norte-americanos tinham um acordo não escrito segundo o qual "não nos matamos um o outro". Jamais foi mencionado formalmente nem jamais reconhecido por qualquer outro meio, mas posso garantir que existiu: nenhum dos dois lados queria escalada sem fim de assassinatos e contra-assassinatos. 

Mas a CIA de hoje é piada patética, comparada à CIA da Guerra Fria, e com aquela miscelânea de idiotas de todas as escalas com 'autoridade' no Executivo, não se deve descartar completamente que algum descerebrado de Langley, Virginia, tenha autorizado o assassinato de um embaixador russo. Além do mais, se os norte-americanos foram suficientemente doidos e temerários a ponto de terem tentado derrubar Erdogan... por que não tentariam assassinar lá mesmo o embaixador russo?


E quanto à hipótese do 'pistoleiro solitário'?


Ora, não é possível provar uma negativa. Mevlut Mert Aydintas perdeu o emprego, sim, num expurgo recente, tinha identidade de policial e suas ações que se veem no vídeo parecem saídas de um manual de comportamento fanático que um maluco solitário apresentaria. Assim sendo, sim, é possível que Mevlut Mert Aydintas tenha agido sozinho. Afinal, só precisou de uma pistola e de uma identidade/crachá de policial. Esperemos para saber o que turcos e russos descobrirão sobre ele. De qualquer modo, duvido. Esse tipo de agente tem personalidade específica, que os estados que patrocinam terrorismo sabem identificar, e ativam quando são necessários. Meu palpite é que esse não é caso de pistoleiro solitário. Quase certamente, alguém usou Mevlut Mert Aydintas.


Dolorosas perguntas 


Nesse ponto sinceramente desejo estar errado, mas se quero ser honesto tenho de admitir que me é completamente impossível encontrar explicação para a ausência de segurança em torno do embaixador Andrey Karlov. Não falo dos turcos. Falo dos serviços russos de segurança. Explico por quê.

Ainda que se assuma que os turcos tenham informado os russos de que haviam estabelecido um perímetro "seguro/estéril" em torno da exposição e que não haveria público em geral, e ainda que o vídeo mostre o que parecem ser apenas uns poucos convidados, nada explica que os russos não mantivessem pelo menos um guarda-costas bem próximo do embaixador. Não apenas a Turquia é país em guerra, mas a Rússia é parte da mesma guerra, os Takfiris fizeram longa lista de ameaças contra a Rússia; e, por fim, a Turquia é país que sofre com o terrorismo já há anos, e acaba de sofrer uma tentativa sangrenta de golpe de estado. Em país desse tipo, um alto funcionário, como o embaixador, teria de estar sempre protegido por um completo grupo de guarda-costas. Naquela sala claramente não havia nenhum guarda-costas russo. 

Ah, sim, claro que os russos podem culpar os turcos por terem criado perímetro seguro tipo lixo. Mas, como profissionais, os russos teriam de saber que os turcos já encontram muitas dificuldades para lidar com os seus próprios terroristas; e que, depois de expurgos massivos, os serviços de segurança estariam em absoluto caos. Um guarda-costas faria diferença?

Sim, possivelmente. De fato, provavelmente.

Pelo que o vídeo mostra, Mevlut Mert Aydintas estava de pé, a 5m de distância atrás do embaixador, quando abriu fogo. Aparentemente, nenhum dos tiros atingiu a cabeça do embaixador. Se o embaixador Karlov estivesse usando colete à prova de balas ou qualquer outro tipo de proteção provavelmente teria sobrevivido aos primeiros tiros (a menos que fosse atingido nas vértebras cervicais). Um único guarda-costas teria nesse caso matado o atirador e retirado o embaixador para ser socorrido em segurança. Evidentemente Karlov não usava naquele dia nenhum tipo de blindagem de corpo. Por quê? Não havia um único guarda-costas junto a ele. Por quê? Não se ouve no vídeo nenhuma voz que fale russo. Por isso, claro, parece que não havia segurança russa próxima do embaixador naquele salão. Por quê?

De modo geral, embaixadores são alvos muito fáceis. Todos os conhecem, têm vida e rotinas públicas, e, diferente do que muitos talvez pensem, a maioria do pessoal diplomático não tem treinamento de segurança. Para mim, é fenômeno inexplicável que relativamente poucos embaixadores sejam assassinados na rua. Mas em países de alto risco, os embaixadores são mais bem protegidos, especialmente no caso de embaixadores de países em guerra, ou que sejam alvos prováveis de ataques terroristas. É verdade que de modo geral os russos, inclusive os diplomatas, tendem a ser mais corajosos/temerários (escolham o termo) que seus contrapartes ocidentais: não são gente de se assustar facilmente e consideram importante que todos percebam isso. Mas esse é precisamente o tipo de comportamento que cabe aos profissionais de segurança manter sob controle.

Sinceramente, fico furioso cada vez que vejo quantos russos foram mortos por causa desse descaso com riscos e segurança pessoais. Sim, a coragem enobrece. Mas deixar-se assassinar por um maníaco é perfeita imbecilidade. Prefiro saber que funcionários e políticos russos são um pouco menos corajosos e um pouco mais cuidadosos. Porque assassinato como o de Ancara obriga a perguntar: e quem será o próximo?


Conclusões


O que aconteceu em Ankara é tragédia que me parece duas vezes mais doloroso, quando penso que muito provavelmente poderia ter sido evitada. Os serviços turcos de segurança com certeza prenderão imediatamente todos e quaisquer pessoas com quem Mevlut Mert algum dia encontrou-se e obterão muitas confissões. Com certeza partilharão dados com os russos, no mínimo para mostrar como lamentam o ocorrido. Infelizmente, turcos e russos têm longa tradição de sigilo e segredos, e é possível que jamais se saiba quem estava por trás de Mevlut Mert Aydintas, se tiver havido alguém.

A única coisa sobre a qual não tenho qualquer dúvida é que Putin não tomará nenhuma medida 'espetacular', seja quem for o responsável pelo assassinato. Se são os Takfiris, os envolvidos morrerão ao longo dos próximos poucos anos. Mas se é aCIA, os russos serão muito mais cuidadosos e podem decidir agir de modo muito diferente, possivelmente com a colaboração do novo governo que assumirá dia 20 de janeiro nos EUA. O assassinato do embaixador Karlov não fará desandar os esforços de russos e iranianos para alcançar algum tipo de solução regional para a guerra na Síria, nem alterará a determinação russa no sentido de impedir que o Império Anglo-sionista converta a Síria em mais um Takfiristão.

Quanto a Rússia e Turquia, enquanto Erdogan permanecer no poder os dois lados continuarão a tentar colaborar – apesar das muitas probabilidades negativas e das profundas e fundamentais diferenças. Nem Rússia nem Turquia, que já guerrearam 12 guerras uma contra a outra, tem qualquer alternativa.



[assina] 
The Saker

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