domingo, 22 de janeiro de 2017

Eis como se desdobrará o governo Trump

Resultado de imagem para Donald Trump na Casa Branca 
19/1/2017, Pepe Escobar, The Vineyard of the Saker
Tradução pelo Coletivo Vila Vudu

Começa agora a era Trump – com geopolítica e geoeconomia prontas para uma série de pontos iminentes, imprevisíveis, de suspense.


Já escrevi que a estratégia do guru de Trump para política externa Henry Kissinger, para lidar com o formidável trio da integração da Eurásia – Rússia, China e Irã – é um "Dividir para Governar"remix: seduzir a Rússia para longe da parceria estratégica com a China, ao mesmo tempo em que ataca o elo mais fraco, o Irã.

De fato, a coisa já se está desdobrando desse modo – como se viu nas tiradas espalhafatosas de membros seletos do gabinete de Trump durante as sabatinas no Senado dos EUA. Facções daThink-tank-lândia dos EUA, referindo-se à política de Nixon para a China, também construída por Kissinger, estão excitadíssimos com as ricas possibilidades de 'contenção', na direção de pelo menos uma das potências "potencialmente coligadas contra os EUA".

Kissinger e o Dr. Zbig "Grande Tabuleiro de Xadrez" Brzezinski são os principais autodescritosdalangs – mestres de fantoches do teatro de sombras balinês – ocidentais na arena geopolítica. Em oposição a Kissinger, o mentor de Obama para política exterior, Brzezinski, fiel àquela sua imorredoura russofobia, propõe uma "Dividir para Governar" centrada em seduzir a China.

Mas fonte influente, do campo do business nova-iorquino, muito próxima dos reais discretosMasters of the Universe, e que previu corretamente que Trump seria eleito várias semanas antes de acontecer, depois de examinar o que escrevi, acrescentou bem mais que uma avaliação ácida dos tão louvados dalangs: aceitou expor em detalhes o modo como a nova normalidade foi exposta pelos Masters diretamente a Trump. Para nós, aqui, o nome da minha fonte será "X".


China sob vigilância non-stop 


"X" começa por algo que todos os regulares conectados ao estado profundo dos EUA, que reverenciam seus ídolos, jamais se atrevem a fazer, não, pelo menos, em público:


"Importante agora é não dar importância demais nem a Kissinger nem a Brzezinski, que não passam de fachadas para os que tomam as decisões; o trabalho dos dois é revestir as decisões com uma pátina de intelectualismo. O que digam significa relativamente nada. Uso os nomes deles vez ou outra, porque não posso usar os nomes de quem realmente toma as decisões."



É a deixa para que "X" detalhe a nova normalidade:



"Trump foi eleito com o apoio dos Masters para tender na direção da Rússia. Os Masterstêm ferramentas na mídia e no Congresso para manter a campanha de vilificação contra a Rússia, e têm o fantoche Brzezinski para também falar contra a Rússia, cada vez que repete que 'a influência global dos EUA depende de cooperação com a China'. O objetivo é ameaçar a Rússia para fazê-la cooperar e pôr essas fichas na mesa de negociações para Trump. Numa velha abordagem de tipo policial bonzinho/policial durão, Donald é retratado como o bonzinho, que quer boas relações com a Rússia; e o Congresso, a mídia-empresa e Brzezinski são os policiais durões. Assim os Masters of the Universe planejam ajudar Trump nas negociações com a Rússia, com Putin vendo a posição 'precária' de seu amigo e logo, como diz o ditado, pondo-se a fazer grandes concessões."



E com isso chegamos ao modo como Taiwan – e o Japão – entram no mix:



"Donald mostra que favorece os russos, ao falar com Taiwan, demonstrando que a mudança é coisa séria. Tinham decidido que o Japão seria empurrado para o mix como predador ativo contra a indústria dos EUA, com um ataque contra a Toyota (muito, muito merecido). Mas essa posição foi moderada, porque os Masters passaram a temer que o movimento de jogarmos Japão contra China seria excesso de provocação."



Assim sendo, contem com que a China – "sem deixar ver que lhe damos muita importância" como prescreveu Kissinger – estará sob escrutínio em tempo integral:



"Os Masters decidiram reindustrializar os EUA e querem tomar de volta os empregos que a China levou. É aconselhável do ponto de vista chinês: por que os chineses venderiam o próprio trabalho aos EUA por um dólar que não tem valor intrínseco, para nada ganhar, de fato, em troca do trabalho? A China tem de ter um carro na garagem de cada chinês e se tornará a maior produtora de carros que União Europeia, EUA e Japão somados, e a nação chinesa manterá no próprio país a própria riqueza."



E por que a China, acima da Rússia?



"Porque nesse sentido, sendo a Rússia país de recursos naturais com complexo industrial-militar gigantesco (que é a única razão pela qual secretamente todos respeitam a Rússia), ela fica isenta de qualquer conversa comercial mais dura, porque os russos praticamente só exportam recursos naturais e equipamento militar. Os Masters querem de volta os empregos que foram para o México e a Ásia, incluindo Japão, Taiwan, etc. – e já se vê esse movimento no ataque de Trump contra o Japão. A principal razão subjacente é que os EUA perderam o controle sobre os mares e não podem garantir proteção aos seus componentes militares no caso de grande guerra. Aí está tudo que interessa agora. Essa é a história monstro por trás do palco."



Numa poucas palavras, "X" detalha a reversão de um ciclo econômico:



"Os Masters fizeram dinheiro na transferência da indústria para a Ásia (Bain Capital especializou-se nisso); Wall Street fez dinheiro das taxas de juros mais baixos sobre os dólares reciclados dos déficits comerciais. Mas agora a questão é estratégica; e eles farão dinheiro sobre o retorno das indústrias reduzindo seus investimentos na Ásia e devolvendo-os para os EUA, enquanto reconstruímos a produção aqui."



"X" mantém-se ardente admirador da estratégia de negócios de Henry Ford; e é a deixa para que ele fale do tema crucial: defesa nacional. Segundo "X":



"Ford dobrou os salários que pagava e fez mais dinheiro que qualquer dono de indústria. A razão disso foi que salário vivo, com o qual a mulher pode ter vários filhos mantidos com o salário do marido foi psicologicamente bom para a produtividade nas suas fábricas de carros; e a evidência de que seus empregados podiam pagar pelos carros que o patrão vendia. Assim Ford compreendeu que tem de haver distribuição mais justa de riqueza na sociedade, o que seu declarado admirador Steve Jobs nunca entendeu. A produtividade massiva de Henry foi a maravilha do mundo e foi a força que venceu, para os EUA, a 2ª Guerra Mundial. A empresa Amazon nada faz que contribua, em qualquer nível, para a defesa nacional; é só um serviço para vender publicidade por internet baseado em programas de computador; Google tampouco, que é mera empresa de organizar dados mais eficientemente. Nenhuma dessas empresas constrói um míssil melhor ou um submarino melhor, senão de modo muito marginal."




É o Pentágono, estúpido 



Assim sendo, sim, sim, tudo isso tem a ver com reorganizar as forças armadas dos EUA. "X" insiste numa referência a um relatório CNAS que citei na minha primeira coluna:


"É muito importante, pelo que lá se pode ver nas entrelinhas: que temos um problema gravíssimo porque estamos tecnologicamente atrasados em relação à Rússia, várias gerações de atraso na produção de armas. É um desdobramento do que disse Brzezinski, que os EUA já não somos potência global."



"Forças Armadas mais poderosas do planeta"? do Saker, é análise detalhada e ao mesmo tempo abrangente, de longo alcance, de como a Rússia conseguiu montar as forças armadas mais bem organizadas do planeta. E isso ainda sem nem considerar o sistema de mísseis de defesa S-500 que está surgindo agora e acredita-se que fechará definitivamente todo o espaço aéreo da Rússia. E a geração seguinte – S-600? – será ainda mais poderosa.


"X" aventura-se por território tabu no estado profundo: como aconteceu de a Rússia, ao longo da década passada, ter saltado tão à frente dos EUA, "eclipsando os EUA como mais forte potência militar do mundo". Mas o jogo ainda não acabou – seja para os que investem no pensamento 'desejante' ou em qualquer outro:


"Esperamos que o secretário da Defesa James Mattis compreenda isso, e o vice-secretário de defesa é homem de altas competências tecnológicas, habilidade organizacional e visão suficientemente ampla para compreender que as armas da 3ª Guerra Mundial são mísseis de ataque e defesa, não força aérea, tanques e porta-aviões."



Realista, "X" admite que o status quo neoconservador/neoliberal conservador – representado pela maioria das facções do estado profundo nos EUA – jamais abandonará a posição de partida, de imorredoura imatável hostilidade contra a Rússia. Mas ele prefere focar a mudança:



"Deixemos Tillerson reorganizar o Departamento de Estado por padrões Exxon de eficiência. Talvez valha alguma coisa nessa função. Ele e Mattis podem não valer grande coisa, mas se você diz a verdade ao Senado, pode não ser aprovado. Quero dizer: o que disseram lá nada significa. Mas veja o seguinte, sobre a Líbia. A CIA tinha um plano para tirar a China de dentro da África. Vale também para o AFRICOM. É um dos segredos de nossa intervenção na Líbia."



Só que não funcionou: OTAN/AFRICOM converteram a Líbia em terra devastada entregue a milícias, e a China não foi tirada do restante da África. "X" também admite:



"Síria e Irã são linhas vermelhas para a Rússia. Bem como a parte leste da Ucrânia, a partir do [rio] Dnieper."



Ele sabe perfeitamente que Moscou jamais permitirá qualquer "gambito de mudança de regime contra Teerã." [E também vê claramente que] "Os investimentos chineses no gás e petróleo iranianos implicam que tampouco China permitirá que Washington derrube o governo do Irã."



O negócio fica realmente sério no que tenha a ver com a OTAN.



["X" está convencido de que] a Rússia "invadirá Romênia e Polônia, se aqueles mísseis não forem retirados da Romênia e se não foi rescindido o contrato dos mísseis para a Polônia. A questão não são os imprestáveis mísseis defensivos dos EUA, mas a possibilidade de mísseis nucleares ofensivos substituírem os mísseis originais, nos mesmos silos. A Rússia jamais tolerará risco dessas dimensões. Não é questão que possa ser negociada."



Em claro contraste com a propaganda perpétua da "ameaça perpétua" em que o Partido da Guerra nos EUA investe tudo, Moscou mantém-se focada só em fatos constatados em campo, desde os anos 1990s; o ataque ao tradicional histórico aliado eslavo, a Sérvia; nações do Pacto de Varsóvia e até repúblicas ex-soviéticas anexadas pela OTAN, para nem falar dos atentados para capturar também a Geórgia e a Ucrânia; o uso repetido, pelos EUA, de revoluções coloridas; o fiasco do "Assad tem de sair", no claro atentado para mudança de regime contra a Síria, incluindo até armar jihadistas-salafistas; sanções econômicas; uma guerra de preços de petróleo e ataques repetidos contra o rublo; e abusos ininterruptos e provocações, pela OTAN.


"X", perfeitamente consciente de todos os fatos, acrescenta:


"A Rússia sempre quis paz. Mas os russos não jogarão joguinhos com os Masters of the Universe que puseram Trump como 'mocinho' e o Congresso, a CIA, etc. como bandidões, numa encenação de negociação. Porque é assim que os russos veem a coisa: para eles, esse circo não é real."



O circo pode não passar de ilusão. Ou wayang – teatro balinês de bonecos –, como sugeri. "X" apresenta interpretação simples e dura do jogo de sombras que vai começar, a partir do ponto de vista de Moscou: "os russos vão esperar meses, podem ser vários meses, enquanto Putin trabalha para construir uma détente com Trump que, na essência, crie uma Ucrânia Oriental autônoma; firme um tratado de paz na Síria, com Assad na presidência; retire de lá as forças da OTAN; e as devolva à velha linha de defesa do governo de Ronald Reagan."



Quem vencerá? Os Masters of the Universe, ou o estado profundo? Dobre o tronco sobre as coxas, abrace os joelhos e prepare-se para o impacto.

Nenhum comentário:

Postar um comentário