domingo, 15 de janeiro de 2017

JPEG - 52.9 kbO presidente “bom” e o presidente “mau”


Manlio Dinucci, tradução de José Reinaldo de Carvalho
Publicando originalmente na Rede Voltaire

Barack Obama foi um “santo subito”: assim que entrou na Casa Branca, foi preventivamente laureado, em 2009, com o Prêmio Nobel da Paz graças aos “seus extraordinários esforços para fortalecer a diplomacia internacional e a cooperação entre os povos”.

Enquanto isso, a sua administração já preparava secretamente, por meio da secretária de Estado Hillary Clinton, a guerra que dois anos depois demoliria o Estado líbio, estendendo-se depois à Síria e ao Iraque através dos grupos terroristas funcionais à estratégia dos EUA e da Otan.
Inversamente, Donald Trump é o “demônio subito”, ainda antes de entrar na Casa Branca. É acusado de ter usurpado o posto destinado a Hillary Clinton, graças a uma maléfica operação ordenada pelo presidente russo Putin.
As “provas” são fornecidas pela CIA, a mais especializada em matéria de infiltrações e golpes de Estado. Basta recordar as suas operações para provocar e conduzir as guerras contra Vietnã, Cambodja, Líbano, Somália, Iraque, Iugoslávia, Afeganistão, Líbia, Síria; os golpes de Estado na Indonésia, El Salvador, Brasil, Chile, Argentina, Grécia.
Milhões de pessoas presas, torturadas e assassinadas; milhões de desalojados das suas terras, transformados em fugitivos, objeto de um verdadeiro tráfico de escravos. Sobretudo crianças e mulheres jovens, escravizadas, violentadas, obrigadas a prostituir-se.
Tudo isto deveria ser lembrado por aqueles que, nos Estados Unidos e na Europa, organizam no dia 21 de janeiro próximo, a marcha das mulheres para defender justamente a paridade de gênero conquistada com duras lutas, continuamente postas em causa pelas posições sexistas manifestadas por Trump.
Esta não é, porém, a razão pela qual Trump é acusado em uma campanha que constitui um fato novo nos procedimentos de alternância na Casa Branca: desta vez a parte perdedora não reconhece a legitimidade do presidente eleito, e tenta um impeachment preventivo. Trump é apresentado como um tipo de “Manchurian Candidate” que, infiltrado na Casa Branca, seria controlado por Putin, inimigo dos Estados Unidos.
Os estrategistas neocons, artífices da campanha, buscam assim impedir uma mudança de rumo nas relações dos Estados Unidos com a Rússia, que a administração Obama levou ao nível de uma guerra fria. Trump é um “trader” que, continuando a basear a política estadunidense na força militar, tenciona abrir uma negociação com a Rússia, possivelmente também para debilitar a aliança de Moscou com Pequim.
Na Europa aqueles que temem um relaxamento das tensões com a Rússia são antes de tudo os dirigentes da Otan, cuja importância cresceu com a escalada militar da nova guerra fria, e os grupos no poder nos países do Leste – particularmente Ucrânia, Polônia e países bálticos – que apostam na hostilidade à Rússia para ter um crescente apoio militar e econômico por parte da Otan e da União Europeia.
Nesse quadro, não se pode ignorar nas manifestações de 21 de janeiro a responsabiidade de todos os que transformaram a Europa na primeira linha do confronto, inclusive nuclear, com a Rússia. Não deveremos manifestar-nos como súditos dos Estados Unidos que não querem um presidente “mau” e pedem um presidente “bom”, mas para nos libertarmos da sujeição aos Estados Unidos que, indpendentemente de quem seja o presidente, exercem sua influência na Europa através da Otan; para sair dessa aliança de guerra, para exigir a remoção das armas nucleares dos EUA dos nossos países.
Deveremos manifestar-nos para termos voz, como cidadãos e didadãs, nas decisões de política externa que, indissoluvelmente ligadas às econômicas e políticas internas, determinam as nossas condições de vida e o nosso futuro.


http://www.voltairenet.org/article194929.html

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