segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Socialismo e 100 anos da Revolução Russa: 1917-2017 

3/1/2017, David North e Joseph Kishore, World Socialist Website (Comitê Internacional da IV Internacional )
Tradução pelo Coletivo de Tradutores da Vila Vudu.

"É tempo de os comunistas exporem à face do mundo inteiro o seu modo de ver, os seus fins e as suas tendências, opondo um manifesto do próprio partido à lenda do espectro do comunismo"Manifesto do Partido Comunista, Karl Marx e Friedrich Engels, 1847.
Ler também
  • "Introdução ao Manifesto Comunista", Eric Hobsbawn, Verso Ed., NY, 2012 (abril) (traduzido em redecastorphoto)*

1. Um espectro ronda o capitalismo mundial: o espectro da Revolução Russa.

Esse ano marca o centenário dos eventos históricos mundiais de 1917, que começaram com a Revolução de Fevereiro na Rússia e culminou em outubro com "dez dias que abalaram o mundo" – a derrubada do governo capitalista provisório e a conquista do poder político pelo Partido Bolchevique, sob a liderança de Vladimir Lênin e Leon Trotsky. A derrubada do governo capitalista num país de 150 milhões de habitantes e o estabelecimento do primeiro estado socialista de trabalhadores em toda a história foi o evento de mais profundas consequências de todo o século 20. Na prática, pôs no poder de um grande país a perspectiva histórica proclamada 70 anos antes, em 1847, por Karl Marx e Friedrich Engels no Manifesto Comunista.

Ao longo de um ano, o levante da classe trabalhadora russa, reunindo atrás de si dezenas de milhões de camponeses, não pôs fim só a séculos de mando de uma dinastia autocrática semifeudal. O extraordinário salto na Rússia "do czar a Lênin" – o estabelecimento de um governo baseado em conselhos de trabalhadores ("sovietes") – marcou o início de uma revolução socialista mundial que despertou a consciência da classe trabalhadora e das massas oprimidas pelo capitalismo e pelo imperialismo em todos os cantos do planeta.

A Revolução Russa – que irrompeu cercada pela horrenda carnificina que foi a 1ª Guerra Mundial – provou que é possível um mundo além do capitalismo, sem exploração e sem guerra. Os eventos de 1917 e tudo que se seguiu a eles penetraram fundo na consciência da classe trabalhadora internacional e foram a inspiração política profunda das lutas revolucionárias do século 20 em todo o globo.
Resultado de imagem para bandeira sovietica2. O Partido Bolchevique baseou numa perspectiva internacional a sua luta para chegar ao poder em 1917. Reconheceu que a base objetiva da revolução socialista na Rússia tinha fundamento, em última análise, nas contradições internacionais do sistema imperialista mundial – sobretudo no conflito entre o arcaico sistema de estados nacionais e o caráter altamente integrado da moderna economia mundial. Daí portanto que o destino da Revolução Russa dependeria de o poder dos trabalhadores ser ampliado para além das fronteiras da Rússia Soviética. Como Trotsky explicou tão claramente:


"A revolução socialista não pode realizar-se nos quadros nacionais. Uma das principais causas da crise da sociedade burguesa reside no fato de que já não há reconciliação possível, dentro dos limites do Estado nacional, das forças produtivas que a própria sociedade burguesa engendra. Daí as guerras imperialistas, de um lado; e a utopia dos Estados Unidos burgueses da Europa, de outro lado. A revolução socialista começa no terreno nacional, desenvolve-se na arena internacional e completa-se na arena mundial. Por isso mesmo, a revolução socialista se converte em revolução permanente, no sentido novo e mais amplo do termo: só termina com o triunfo definitivo da nova sociedade em todo o nosso planeta" [A Revolução Permanente, nov.1929].


3. O destino do Partido Bolchevique, da União Soviética e da revolução socialista no século 20 dependia do resultado do conflito entre duas perspectivas irreconciliáveis: o internacionalismo revolucionário promovido por Lênin e Trotsky em 1917 e ao longo dos primeiros anos de existência da União Soviética, e o programa nacionalista reacionário da burocracia stalinista que usurpou o poder político da classe trabalhadora soviética. A perspectiva stalinista antimarxista de "socialismo num só país" subjaz às políticas econômicas desastrosas dentro da União Soviética e às derrotas internacionais catastróficas da classe trabalhadora que culminaram em 1991, depois de décadas de ditadura burocrática e desmandos, na dissolução da União Soviética e na restauração do capitalismo na Rússia.

Mas o fim da URSS não invalidou a Revolução Russa nem a teoria marxista. Na verdade, ao longo de sua luta contra a traição stalinista, Leon Trotsky já antevia as consequências do programa nacional de "socialismo num só país". A IV Internacional fundada sob a liderança de Trotsky em 1938 alertava que só a derrubada da burocracia stalinista, com restabelecimento da democracia soviética e a renovação da luta para a derrubada revolucionária do capitalismo mundial, poderia evitar a destruição da URSS.

4. Os líderes imperialistas e seus cúmplices ideológicos saudaram com brados entusiasmados a dissolução da URSS em dezembro de 1991. O fato de que virtualmente nenhum deles ter previsto o tal 'evento' não impediu nenhum deles de proclamar a "inevitabilidade do colapso dos soviéticos". Sem ver um palmo além do próprio nariz, improvisaram teorias que reinterpretaram o século 20 do modo que mais bem atendia àquela arrogância coletiva de classe. Todo o nonsense de autossugestão e estupidez das elites governantes e de seus braços alugados nas universidades encontraram expressão máxima na tese do "Fim da História" de Francis Fukuyama. 

A Revolução de Outubro, dizia ele, nada fora além de ponto fora da curva; e assim sendo estava fora do curso capitalista burguês atemporal da história. Na forma de economia capitalista e democracia burguesa, a humanidade chegara ao mais alto e final estágio de desenvolvimento. Depois de dissolvida a União Soviética já ninguém poderia cogitar de encontrar alternativa ao capitalismo, muito menos alternativa baseada no poder dos trabalhadores e da reorganização socialista da economia mundial.
Resultado de imagem para Fukuyama Fim da HistóriaEndossando a revelação de Fukuyama, o historiador Eric Hobsbawm, toda uma vida dedicada ao stalinismo, descartou a Revolução de Outubro e, com ela, todos os levantes revolucionários e contrarrevolucionários do século 20, que definiu como acidentes desafortunados. Os anos entre 1914 (da eclosão da 1ª Guerra Mundial) e 1991 (da dissolução da União Soviética) não teriam passado de desnorteante "era dos extremos", dentro de um "século 20 curto". Hobsbawm não diz que sabe o que o futuro trará, nem se século 21 será curto ou comprido. Só tem certeza de uma coisa: nunca mais haverá revolução socialista comparável, nem de longe, com os eventos de 1917.

5. Passaram-se 25 anos desde que Fukuyama proclamou o "Fim da História". Supostamente livre da ameaça da revolução socialista, a classe governante teve oportunidade para demonstrar o que o capitalismo pode realizar, se deixado livre para saquear o mundo como bem entenda. Mas qual o resultado das orgias do capital? 

Lista breve dessas 'realizações' incluirá necessariamente o enriquecimento de uma porção infinitesimal da população do planeta; desigualdade social vastíssima e pobreza em massa, infindáveis guerras de agressão que custaram milhões de vidas humanas, o continuado reforço dos órgãos estatais de repressão e a decadência de formas democráticas de governo, a instituição do assassinato e da tortura como instrumentos básicos de política externa, e a degradação de todos os aspectos da cultura.

6. 25 anos depois do fim da União Soviética, é impossível negar que todo o mundo entrou em período de crise econômica, social e política profunda. 

Todas as contradições não resolvidas do século passado estão reemergindo com força explosiva à superfície da política mundial. Os eventos de 1917 adquirem hoje uma relevância contemporânea nova a intensa. Em incontáveis publicações, comentaristas burgueses chamam a atenção, nervosamente, para paralelos já visíveis entre o mundo de 2017 e o mundo de 1917.

"O mundo 'dos comunas' [ing. Bolshiness] está de volta" – alerta Adrian Wooldridge de The Economist na edição de previsões para o Ano Novo. "As similitudes com o mundo que gerou a Revolução Russa estão próximas demais, para que possamos ficar tranquilos." E escreve:


"São tempos dos mais miseráveis centenários. Primeiro, em 2014, foram os 100 anos da 1ª Guerra Mundial, que destruiu a ordem liberal. Depois, em 2016, 100 anos da Batalha do [rio] Somme, um dos conflitos mais sangrentos de toda a história militar. Em 2017 serão 100 anos desde que Lênin tomou o poder na Rússia."


Ninguém menos que Fukuyama em pessoa, descreve agora os EUA, que antes, para ele, seriam a apoteose da democracia burguesa, como "estado falhado". Escreve ele que


"o sistema político norte-americano tornou-se disfuncional" e "vem sofrendo acentuada decadência ao longo das últimas décadas, e elites organizadas já fazem uso da vetocracia para proteger os próprios interesses." Por fim, Fukuyama alerta:

"Não podemos descartar a possibilidade de estarmos vivendo tempos e contexto de rompimento das relações políticas, que podem ser comparados com os do colapso do comunismo, há uma geração."


7. Para o capitalismo mundial, 2016 foi ano para lá de infernal. Todas as estruturas da política mundial estabelecidas nos anos finais da 2ª Guerra Mundial e período imediatamente posterior estão em adiantado estado de desintegração. A política mundial está sendo regida pela contradição entre o inexorável processo da globalização econômica e os contornos rígidos dos estados nacionais. 2016 foi o ano da aceleração do 'racha' na União Europeia, cujo exemplo mais flagrante foi a votação pró Brexit e o crescimento de partidos nacionalistas de extrema direita.

Resultado de imagem para 3ª guerra mundialO ano passado também testemunhou a incontida intensificação de tensões militares, a tal ponto que a possibilidade – até mesmo a alta probabilidade – de uma 3ª Guerra Mundial está sendo abertamente discutida em incontáveis livros, jornais e noticiários em geral. As inumeráveis tensões regionais por todo o mundo está-se convertendo em confronto cada vez mais aberto e direto envolvendo as grandes potências nucleares mundiais. Ninguém sabe dizer com certeza quem guerreará contra quem. Será que os EUA atacarão primeiro a China? Ou o conflito com a China deve ser adiado até os EUA terem acertado suas contas com a Rússia? Essa questão é objeto do amargo debate e conflito estratégico dentro dos mais altos escalões do estado norte-americano. Mesmo entre os mais íntimos aliados pós-2ª Guerra Mundial, a fricção da concorrência geopolítica e econômica está minando todas as alianças. A Alemanha tenta traduzir em poder militar o seu poderio econômico e vai atropelando os últimos vestígios ainda remanescentes de seu "pacifismo" pós-nazistas.

8. A crise do sistema capitalista global encontra sua expressão mais avançada precisamente no próprio centro do sistema, os EUA. Mais que qualquer outro país, os EUA imaginaram que seriam os principais beneficiários da dissolução da URSS. O primeiro presidente Bush imediatamente proclamou o nascimento de uma "nova ordem mundial", na qual os EUA operariam como hegemon sem desafiante possível. Sem iguais quanto ao poder militar, os EUA explorariam seu "momento unipolar" para reestruturar o mundo conforme seus próprios interesses. Seus estrategistas acalentaram sonhos não simplesmente de um novo Século Americano, mas de vários séculos Americanos! Nas palavras de Robert Kaplan, um dos principais estrategistas de política exterior dos EUA:


"Quanto mais bem-sucedida nossa política externa, mais poder de alavancagem os EUA teremos no mundo. Assim, é sempre mais provável que futuros historiadores olhem para os EUA do século 21 como um império, tanto quanto como uma república, embora diferente de Roma e de todos os demais impérios da história. Ao longo de décadas e séculos, os EUA tiveram cem presidentes, 150 até, não 43, e aparecem em listas longas como senhores de outros impérios do passado – Romano, Bizantino, Otomano – e a comparação com a Antiguidade antes crescerá, que diminuirá. Roma, em particular, é modelo de potência hegemônica, que usou vários meios para encorajar alguma ordem, indispensável em mundo desordenado…" [Warrior Politics: Why Leadership Demands a Pagan Ethos (New York: Random House, 2002), p. 153.]


9. Essa ode que Kaplan canta ao império, redigida em 2002, faz prova do estado mental transtornado que prevalecia na elite governante norte-americana quando lançou sua "guerra ao terror" e preparou-se para a segunda invasão do Iraque em 2003. A classe governante norte-americana tomou por arco-íris o abismo que se aproximava. O "momento unipolar" provou, de fato, que não passava de brevíssimo interlúdio histórico, e o novo "Século Americano" durou consideravelmente menos de uma década.

A resposta eufórica da classe governante norte-americana à dissolução da União Soviética manifestou interpretação desastradamente equivocada da situação histórica. As elites governantes convenceram-se de que podiam empregar poder militar – sem ser limitado pelo perigo de retaliação soviética – para reverter décadas de erosão da supremacia econômica dos EUA. Esse cálculo equivocado está na base da escalada massiva das operações militares norte-americanas em todo o mundo, que levou a um desastre depois do outro. 15 anos depois do 11/9, a fraudulenta "guerra ao terror" deixou o Oriente Médio em caos e culminou no fracasso da operação dos EUA para mudar o regime na Síria.

10. Aos desastres militares dos últimos 25 anos deve-se acrescentar a deterioração da estatura econômica dos EUA, que tem expressão mais direta no declínio dos padrões de vida de grandes massas da população norte-americana. 

Segundo estudos recentes dos economistas Thomas Piketty, Emmanuel Saez e Gabriel Zucman, a parte da renda nacional antes de descontados os impostos recebida pela metade mais pobre da população dos EUA caiu de 20% em 1980 para 12% hoje, ao mesmo tempo em que – na direção perfeitamente inversa – a parte do 1% do pico subiu de 12% para 20%. Por quatro décadas, a renda real da metade de baixo permaneceu inalterada; a renda do 1% do topo cresceu 205%; e a renda do 0,001% mais rico cresceu espantosos 636%.

A geração de norte-americanos mais jovens está afogada em dívidas, sem meios para iniciar família ou deixar a casa dos pais. Enquanto em 1970, 92% dos norte-americanos de 30 anos ganhavam mais que os pais na mesma idade, em 2014 eram apenas 51%. Milhões de norte-americanos estão sofrendo por falta de atenção adequada à saúde. Pela primeira vez em mais de duas décadas, a expectativa geral de vida caiu em 2015 por efeito do aumento chocante na mortalidade por suicídio, abuso de drogas e outras manifestações de aguda crise social.

11. Ao ritmo em que a sociedade norte-americana tornou-se mais desigual, tornou-se cada vez mais difícil para seus ideólogos manter ativada a noção de que a democracia ainda prevalece. Uma das funções essenciais da política de identidade – centrada em raças, etnias, gênero e sexualidade – tem sido desviar a atenção para longe das profundas divisões de classe dentro dos EUA. A eleição de Donald Trump expôs, na nudez mais crua, a realidade do reinado oligárquico nos EUA. 

Mas é preciso destacar contudo que Trump não é algum tipo de intruso monstruoso no que, até o dia das eleições de 2016, parecia ser sociedade plena de defeitos, mas ainda uma sociedade decente. Trump – produto do cruzamento criminoso e doentio das indústrias da construção, finança, cassinos e entretenimento – é a face mais genuína da classe governante nos EUA.

12. O próximo governo Trump,  tanto nos objetivos como nos quadros, tem características de uma insurreição dentro da oligarquia. Quando uma classe social já desempoderada aproxima-se do fim, não é raro que seus esforços para sobreviver às marés da história assumam o formato de algum tipo de esforço para reverter o que é visto como a erosão de longa duração do seu poder e de seus privilégios. A classe agonizante tenta fazer as condições reverterem ao que foram antes (ou ao que aquele grupo imagina que tenham sido), antes que as forças inexoráveis da mudança social e econômica comecem a realmente abalar os pilares do velho poder. 

Charles I impediu durante 11 anos, antes da eclosão da revolução em 1640, que o Parlamento se reunisse. Quando os Estados Gerais reuniram-se em Paris à véspera da revolução em 1789, a nobreza francesa tentou restabelecer os privilégios que vinham sendo reduzidos desde 1613. A Guerra Civil nos EUA foi precedida pelo esforço, na elite do Sul, para estender a escravidão para todo o país. O bombardeio e incêndio do Forte Sumter em abril de 1861 marcou o início do que, de fato, foi uma insurreição dos proprietários de escravos.

A promessa de Trump de "Fazer a América novamente Grande [ing. "Make America Great Again"MAGA] significa na prática, a erradicação do que quer que ainda reste das reformas sociais progressistas – alcançadas ao longo de décadas de lutas de massa – e que melhoraram as condições de vida da classe trabalhadora. Na própria concepção de Trump, "fazer a América novamente grande" implica devolver o país às condições dos anos 1890s, quando a Suprema Corte determinou que o imposto de renda era 'comunista' e inconstitucional. 

A instituição do imposto de renda em 1913 e toda a subsequente legislação e regulação social que impôs limites à exploração dos trabalhadores, do grande público, do meio ambiente, representaram, no que diga respeito a Trump, um assalto ao direito dos ricos de fazer tanto dinheiro quanto bem entendam. O financiamento da educação pública, a criação do salário mínimo, a Seguridade Social, a atenção pública à saúde, Medicare, Medicaid e outros programas de bem-estar social autorizaram o direcionamento de recursos financeiros na direção dos pobres, vale dizer, para bem longe dos ricos. Ao montar seu gabinete com bilionários e multimilionários, Trump deixa claro que o seu governo será governo dos ricos, pelos ricos e para os ricos.

Ao lado de seus comparsas milionários, Trump levou para o Gabinete e selecionou como seus altos conselheiros, uma gangue de ex-generais e fascistas notórios. A missão deles será desenvolver uma política externa baseada em afirmação sem limites dos interesses globais do imperialismo norte-americano. Esse é o real significado do renascimento do slogan "América em 1º lugar" [ing. "America First"]. É a deterioração da dominação econômica pelos EUA que dá à sua agenda imperialista um caráter de cada vez mais selvageria. O Partido Democrata – aquela aliança corrupta entre financistas de Wall Street e agências de inteligência do Estado – concentrou suas críticas contra Trump numa sua suposta "moleza" na relação com a Rússia. Ali, ninguém precisa se preocupar. O governo Trump continuará a escalar o conflito contra todos os países cujos interesses – geopolíticos e/ou econômicos – estejam em choque contra os interesses do imperialismo norte-americano.

13. Nas suas manifestações internacionais e domésticas, as políticas de Trump refletem um movimento convulsivo das elites capitalistas governantes, na direção da direita. A ascensão de Trump é paralela ao crescimento da influência política da Frente Nacional na França, do Partido Pegida na Alemanha, do Movimento Cinco Estrelas na Itália e do Partido Independência, na Grã-Bretanha, que liderou a campanha pró-Brexit. Na Alemanha, a classe governante está usando o ataque ao mercado de Natal em Berlim para escalar a campanha anti-refugiados liderada pelo Partido Alternativa para a Alemanha. A essência política e econômica desse processo está encrustada na natureza do imperialismo, como Lênin explicou:


"O fato de que o imperialismo é capitalismo parasitário ou decadente aparece manifesto primeiro de tudo na tendência a decair, que é característica de todos os monopólios sob o sistema de propriedade privada dos meios de produção. A diferença entre a burguesia imperialista democrata-republicana e a burguesia imperialista reacionária-monarquista fica encoberta, porque ambas estão apodrecendo em vida (...) ["Imperialismo e a Cisão no Socialismo", 1916 (ing. Imperialism and the Split in Socialism, in Lênin Collected Works, Volume 23 (Moscow: Progress Publishers, 1977), p. 106]


Todas as grandes potências imperialistas estão preparando-se para guerra, com estados representantes de empresas gigantes e bancos, em luta pelo controle sobre recursos, rotas de comércio e mercados. Ao mesmo tempo, o recurso ao nacionalismo visa a criar a contexto para a violenta supressão dos conflitos de classe dentro de cada país.

14. A mesma crise do capitalismo que produz a guerra imperialista também produz a radicalização política da classe trabalhadora e o desenvolvimento da revolução socialista. Trump presidirá um país dilacerado por conflitos de classe profundos e intratáveis. Condições semelhantes veem-se por todo o mundo. 

Estudo recente descobriu que ¼ de toda a população da Europa, 118 milhões de pessoas sofrem de pobreza ou exclusão social. A taxa de pobres na Espanha já alcança 28,6%, e na Grécia é de 35,7%. São países que já foram vítimas das mais brutais medidas de arrocho (chamadas de 'austeridade', mas são medidas DE ARROCHO) ditadas pela União Europeia e pelos bancos. O número de jovens desempregados em todo o planeta chegou a 71 milhões esse ano, depois de crescer pela primeira vez desde 2013. (...)

15. Até agora, a direita política, usando os slogans demagógicos do chauvinismo, explorou o descontentamento social dentro da classe trabalhadora e em vastas porções da classe média. Mas os sucessos iniciais dos partidos reacionários da direita chauvinista dependeram do cinismo político, do descrédito e da bancarrota das organizações do que passa por "esquerda" – sociais-democratas, stalinistas, sindicalistas burocratas e a coorte de partidos pequeno-burgueses antimarxistas como os Verdes, o Partido Esquerda na Alemanha, o Syriza na Grécia e o Podemos na Espanha. A esses é preciso acrescentar as muitas organizações do capitalismo de Estado como a Organização Internacional Socialista [ing. International Socialist Organization (ISO) nos EUA e o Novo Partido Anticapitalista na França (NPA). 

Todas as energias políticas dessas organizações reacionárias da classe média consomem-se em falsificar o marxismo, para desorientar a classe trabalhadora e impedir o desenvolvimento da luta dos trabalhadores contra o capitalismo.

16. Mas a pressão dos eventos está empurrando a classe trabalhadora para a esquerda. Entre os bilhões de trabalhadores e jovens em todo o mundo cresce a indignação e o ânimo para militar. Há sinais de um ressurgimento da luta de classes e de renovado interesse pelo socialismo e pelo marxismo. 

Nos EUA, 13 milhões de pessoas votaram a favor de um suposto socialista, Bernie Sanders, nas eleições primárias do Partido Democrata, não por solidariedade àquela sua política oportunista, mas porque Sanders denunciava a "classe bilionária" e clamava por uma "revolução política". Tudo isso é parte de um processo internacional, ditado pela própria natureza do capitalismo global. 

A luta de classes, ao tempo em que ganha força e autoconsciência política, tenderá cada vez mais a ultrapassar as fronteiras dos estados-nação. Como a Comissão Internacional da IV Internacional observou, nos idos de 1988:


"Uma das proposições elementares do marxismo é que a luta de classe é nacional só na formação; no âmago sempre é luta supranacional. Contudo, dados os novos traços do desenvolvimento do capitalismo, já se vê que também a formação da luta de classe tem de assumir um caráter supranacional."


17. Mas confiar no potencial revolucionário da classe trabalhadora não é justificativa para qualquer complacência política. Seria irresponsabilidade ignorar o fato de que há enorme disparidade entre o estágio avançado da crise internacional do capitalismo de um lado, e, de outro, a consciência política da classe trabalhadora. É preciso reconhecer que aí jaz um grande perigo. Sem revolução socialista, a própria sobrevivência da humanidade fica ameaçada. 

A tarefa política fundamental de nossa época consiste construir uma ponte que atravesse o despenhadeiro que separa a realidade socioeconômica objetiva e a consciência política subjetiva. É possível construir tal ponte?

18. Só se pode responder essa pergunta se se considera a experiência histórica. Entre todos os massivos levantes do século 20, só existiu um exemplo de classe trabalhadora que se mostrou capaz de responder às tarefas que a história impôs-lhe: os trabalhadores que fizeram vitoriosa a Revolução de Outubro. Para enfrentar os grandes problemas dessa época, é preciso estudar aquele evento histórico e assimilar suas lições.

No ano do centenário da Revolução Russa, há intersecção e interação profunda entre a política contemporânea e a experiência histórica. 

A Revolução de 1917 ergueu-se da catástrofe do imperialismo, que foi a 1ª Guerra Mundial. No torvelinho que se seguiu à derrubada do regime czarista, o Partido Bolchevique emergiu como força dominante dentro da classe trabalhadora. Mas o papel que os bolcheviques cumpriram em 1917 foi, ele próprio, o resultado de longa e difícil luta para que se desenvolvesse uma consciência socialista dentro da classe trabalhadora e para fazer prosperar uma perspectiva revolucionária correta.

19. Os elementos críticos dessa luta foram: 1) defender e elaborar o materialismo histórico e a dialética, em oposição ao idealismo filosófico e ao revisionismo antimarxista, como a base teórica da educação e da prática revolucionárias da classe trabalhadora; 2) dar combate incansável às muitas formas de oportunismo e de centrismo que obstruíram ou minaram a luta para estabelecer a independência política da classe trabalhadora; e 3) elaborar e detalhar, ao longo de muitos anos, a perspectiva estratégica que orientou o Partido Bolchevique no rumo da luta pelo poder em 1917.

Para esse último requisito, o avanço mais crítico, que guiou a estratégia dos bolcheviques nos meses que levaram à derrubada do governo provisório, foi Lênin ter adotado a Teoria da Revolução Permanente desenvolvida por Trotsky durante a década anterior.

20. A vitória da revolução socialista em outubro de 1917 provou que a conquista do poder político pela classe trabalhadora depende, em última análise, de se construir um partido marxista na classe trabalhadora. Não importa o quanto o movimento da classe trabalhadora seja grande e potente, só será vitorioso sobre o capitalismo se – e somente se – o movimento estiver sob a liderança política consciente de um partido marxista-trotskyista. Não há qualquer outra via para a vitória da revolução socialista.

O trabalho da Comissão Internacional nesse ano de centenário será guiado pelo reconhecimento desse imperativo político. O desenvolvimento da luta de classes internacional cria auditório muito amplo para a teoria e a política marxista. E a Comissão Internacional fará tudo que estiver ao seu alcance para expandir a informação e o conhecimento sobre a Revolução Russa, e para ensinar as "Lições de Outubro" a novos escalões dos trabalhadores e da juventude, politicamente despertos e radicalizados pela crise."

Agora que 2017 se inicia, conclamamos os muitos milhares de leitores desse World Socialist Web Site a se engajarem ativamente na luta revolucionária e a se associarem e unirem-se na construção da IV Internacionalcomo o Partido Mundial da Revolução Socialista. É o modo mais efetivo e mais apropriado de celebrar os 100 anos da Revolução Russa e a vitória de outubro de 1917.




* Epígrafes acrescentadas pelos tradutores [NTs].

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